Oferta desigual de serviços faz paciente viajar para sobreviver. No processo migratório, o sexo feminino ganha destaque

Matildes deixou o marido e o filho caçula em Brasília, para acompanhar o mais velho que faz diálise em São Paulo
Tricia Vieira / Fotoarena
Matildes deixou o marido e o filho caçula em Brasília, para acompanhar o mais velho que faz diálise em São Paulo

Três vezes por semana, eles fazem tudo sempre igual. Acordam perto (ou antes) das seis da manhã para o encontro pontual com a máquina que simula o funcionamento dos rins. Eles viajam, percorrem rodovias, alguns ficam em hotéis. O que separa estes pacientes do serviço médico que procuram não são só quilômetros. É um sistema de saúde que ainda batalha para oferecer acesso igualitário a todos que sofrem de problemas renais ao único tratamento que lhes garante sobrevivência: a hemodiálise.

Os dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) evidenciam os motivos da existência destes “migrantes da hemodiálise”, tratamento usado para eliminar toxinas e água do organismo, função impossível de ser executada pelos rins doentes. Realizada em média três vezes por semana, a técnica tem duração de quatro horas.

“Infelizmente, muitos morrem antes de conseguir chegar ao tratamento. No total, são apenas 650 clínicas de diálise no País, contando as particulares e com o detalhe que 90% dos pacientes dependem do Sistema Único de Saúde (SUS)”, afirma Daniel Rinaldi dos Santos, secretário da SBN, citando informações colhidas no último censo realizado pela entidade e que acaba de ser divulgado. Segundo ele, um dos grandes complicadores do acesso é a distância.

“Viajar 200 quilômetros para fazer sessões de diálise não é fácil, mas é o que acontece para muitos doentes, como os que moram no interior da Bahia e precisam ir a Minas Gerais. A maioria dos serviços está na região Sudeste”, afirma.

Já os problemas renais estão em todos os locais. Em dez anos, mostrou um recente levantamento, o número de pacientes dobrou . Há um aumento constante e gradual de portadores de doenças graves nos rins, que não consegue ser acompanhado pelos número suficiente dos incluídos em serviços de diálise. Em 2008, última estatística consolidada, eram 87.044 pessoas com doença renal diagnosticada (e são inúmeros os que nem chegam aos números) para 616 serviços de diálise, o que dá uma média de 141 doentes por serviço. Em 2004, informou o Ministério da Saúde, existiam 483 unidades de diálise, mas eram 59.153 portadores de doenças nos rins, uma proporção de 122 doentes por serviço.

A divisão do número de clínicas existente em cada Estado pela quantidade de habitantes locais evidencia a disparidade da oferta de hemodiálise. Enquanto no Amazonas, por exemplo, existe um serviço para cada 1,07 milhão de moradores, no Rio de Janeiro a média é de 1 unidade de saúde especializada no universo de 179 mil pessoas. A média nacional é de uma clínica de hemodiálise para cada 265.493 pessoas. Apenas a região Sudeste e o Rio Grande do Sul concentram índices iguais ou abaixo da média brasileira. O restante, ou acaba exportando a demanda ou deixa de acolher quem precisa.

Vizinhas distantes

Maria José tem problema nos rins há 20 anos, já fez transplante e agora está por outro órgão. Enquanto não aparece, ela deixa a casa em Sto André para fazer diálise em SP
Tricia Vieira / Fotoarena
Maria José tem problema nos rins há 20 anos, já fez transplante e agora está por outro órgão. Enquanto não aparece, ela deixa a casa em Sto André para fazer diálise em SP
Maria José Alves dos Santos, 53 anos, é vizinha há um mês de Matildes Ferreira Tepidino, 46. A primeira é moradora de Santo André, na região do ABC paulista e a segunda reside em Brasília. Separadas por uma baia, em uma das salas de hemodiálise do Hospital Beneficência Portuguesa, referência nacional de tratamento na área, elas ficam lado a lado, recebendo o tratamento.

O serviço de ponta atrelado à localização na região central paulistana faz com que dezenas de pessoas de fora de São Paulo sejam atraídas para a Beneficência. Neste processo migratório, o sexo feminino ganha destaque. Seja por ser tão acometido por doenças renais quanto os homens – como é o caso da portadora de hepatite C Maria José – seja na posição de acompanhantes dos pacientes que precisam deixar seus lares para fazer a diálise. Matildes, por exemplo, é mãe de Fábio, garoto de 16 anos, que precisou deixar a escola, os amigos e o videogame em Brasília para fazer tratamento e voltar poder comer o suculento churrasco com que ele sonha toda noite.

“Tenho vontade também de comida japonesa e de MC’Donald’s. Comeria tudo junto”, diz Fábio Tepidino, passando a língua pelos lábios só de imaginar o menu, a ser degustado apenas quando ele vencer a nefropatia e contar, novamente, com um rim sadio. Matildes não é paciente mas também enfrenta privações. O coração está apertado por ter deixado o caçula em casa, em busca de um tratamento mais eficiente para o primogênito. “É duro, mas a gente segue em frente”, diz ela, que está hospedada na casa de parentes. Escolheram São Paulo como destino por acreditarem na melhor qualidade do serviço oferecido depois da dificuldade de encontrar oferta semelhante onde moram.

Doente dos rins há 20 anos, Maria José também imagina voltar a beber água sempre que sente vontade – tarefa simples, hoje impossível por causa do mau funcionamento do órgão – e limpar a casa como sempre gostou, sem sentir a fraqueza nas pernas tão comuns por causa da falha renal. O cansaço da doença é somado ao de ter de enfrentar quatro horas na máquina, sem contar o tempo gasto para ir e voltar do hospital.

Santo André é muito mais próxima de São Paulo do que Brasília, mas a distância entre os municípios vizinhos também parece mais longa para os que não encontram opções mais próximas e de qualidade. A queixa aparece no discurso de Sérgio Gomes da Silva, 47 anos, que precisa sair de Cubatão para fazer hemodiálise em São Paulo. Mesmo problema é citado por João Soares de Camargo, 74 anos, que deixa a casa de Ilha Solteira, no Mato Grosso,  para também conseguir que os rins funcionem de forma mecânica.

Pela estrada

Ainda que o trajeto pela estrada seja longo e penoso para os portadores de doença renal que precisam viajar para ter acesso à hemodiálise, a consciência de que o processo é vital faz com que eles dêem mais importância à oportunidade de viver do que à distância percorrida para realizar o tratamento.

José Soares Camargo, 74 anos, toda vez que tem crise renal deixa o Mato Grosso para buscar tratamento em São Paulo
Tricia Vieira / Fotoarena
José Soares Camargo, 74 anos, toda vez que tem crise renal deixa o Mato Grosso para buscar tratamento em São Paulo "por ter vaga e por sentir mais confiança"
Esta disposição em viajar para ter saúde de melhor qualidade acaba de ser mapeada no Brasil. Uma pesquisa internacional quis identificar quais as impressões dos usuários sobre o sistema de saúde dos seus países. Foram ouvidas pessoas de 16 nações, sendo 1.004 os participantes brasileiros.

No Brasil, o Instituto Accenture identificou que 73% estão dispostos a fazer viagens de rotina por curtos períodos para receber uma medicina de melhor qualidade. O índice sobe para 80% quando a proposta é viajar para receber um tratamento mais especializado, setor em que se enquadra a hemodiálise.

Descompasso

Nos últimos anos, há um investimento crescente por parte do Ministério da Saúde para ampliar a rede nacional de hemodiálise, uma das soluções para fazer com que os pacientes não precisem viajar para ter acesso às máquinas.

Em 2003, eram gastos R$ 950 milhões com os serviços, valor que subiu para R$ 1,7 bilhão no ano passado. Os serviços foram ampliados em 81%, mas as duas doenças que mais ameaçam as funções dos rins estão em pleno crescimento.

Uma delas é a hipertensão que hoje, mostram dados recentes do Ministério da Saúde, já afeta 24% da população, a maioria mulheres . A segunda é o diabetes, outro problema de saúde em alta, uma das principais causas de mortalidade e doença que fez o Brasil dar um salto no ranking mundial que contabiliza casos da doença, mostrou a Federação Internacional do Diabetes.

“Existe uma falha no mercado que intimida empresários em investir nesta área. Os custos são muito altos para lucros bem baixos”, afirma o secretário da Sociedade de nefrologia, Daniel Rinaldi dos Santos. “O Ministério da Saúde paga R$ 144 por cada sessão de diálise feita pelo SUS. O valor mínimo para cobrir os custos é de R$ 185. Esse déficit ameaça a expansão”, completa.

O Ministério informou que encomendou dois estudos para saber os custos da diálise no País. "Um, pelos técnicos da Economia da Saúde do Ministério da Saúde e outro, por meio de um projeto coordenado pelo Hospital Oswaldo Cruz, que está sendo desenvolvido em todas as clínicas de nefrologia do Brasil". Após os resultados será possível mensurar o reajuste, afirmou a pasta.

Outra trilha sonora

Esta combinação de fatores – doenças, acesso e descompassos financeiros – faz com que histórias como as de Maria José, Matildes, Fábio, Sérgio e José se multipliquem. Muitas vezes o único caminho para deixar a máquina que simula o funcionamento do rim é o transplante. O dado positivo deste cenário acaba de ser dado pelo último boletim da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Nos primeiros três meses deste ano, foram doados 1.160 órgãos do tipo em todo país. No ano passado inteiro, foram 4.281 cirurgias de transplantes renais realizadas, 46,9% a mais do que as 2.913 feitas em 2000.

É a possibilidade de fazer parte desta estatística de transplantados que alimenta os sonhos dos migrantes da diálise. O jovem Fábio – aquele que quer comer churrasco, com peixe cru e hamúrguer – tem o privilégio de ter como potenciais doadores ou a mãe Matildes, ou o pai e ainda um tio. Maria José, assim que conseguir estabilizar a hepatite C, pode ser agraciada com a doação do rim de uma das filhas e voltar a faxinar a casa. Sérgio e José estão na fila de espera e a doação precisa partir de pessoas de fora da família, já que nenhum parente se mostrou compatível.

De maneira geral, o fio condutor dessas histórias é a esperança de não precisar mais depender da máquina e todo dia fazer tudo sempre igual – como canta Chico Buarque na canção Cotidiano. Como as pessoas entrevistadas para esta reportagem têm certeza da superação, preferem embalar seu vaivém diário com outra trilha sonora, numa resposta à doença renal: apesar de você, amanhã há de ser outro dia.

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