A decoradora Neide Santos criou um projeto de inclusão de meninas e mulheres no esporte no marginalizado bairro paulistano

A decoradora Neide recebeu um prêmio em reconhecimento a seu trabalho envolvendo mulheres no esporte
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A decoradora Neide recebeu um prêmio em reconhecimento a seu trabalho envolvendo mulheres no esporte
Aos 14 anos ela gostava de jogar handebol. Mas em um campeonato na escola, teve que substituir uma colega na equipe de corrida revezamento.

Destacou-se como a melhor atleta e foi convidada a treinar na modalidade. Ia tão bem que, aos 16, foi convidada a se tornar profissional.

“Treinei por um clube durante cinco meses. Mas não deu para continuar. Meu pai deixou minha mãe com seis filhos. Eu era a mais velha, tinha de estudar, trabalhar, ajudar em casa. Se tivesse tido condições de continuar, tenho certeza de que teria conquistado uma medalha olímpica”, conta.

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Neide sempre morou no Capão Redondo, periferia de São Paulo, área marcada pela violência. Aos 18 anos, casou-se, aos 19 foi mãe e aos 20 ficou viúva. “Meu marido foi assassinado”.

Diante de tanta tristeza, ficou um tempo sem praticar seu esporte preferido. Os anos passaram, ela se casou de novo e teve mais dois filhos. Aos 30 anos, começou a ter tempo para treinar de verdade e chegou disputar maratonas por todo o Brasil. Tanta atividade física acabou despertando a curiosidade em sua comunidade.

“As mulheres queriam fazer uma atividade física e não sabiam como. Eu era maratonista, ia sempre a provas. Elas tinham curiosidade, queriam saber qual era o barato do esporte, que roupa era aquela que eu usava...”

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Foi assim que, em 1999, surgiu o Vida Corrida, primeiramente voltado para mulheres adultas. “Meu filho mais velho me incentivava a trabalhar também com crianças, mas eu não tinha experiência”.

No final do ano 2000, mais uma grande perda na vida da corredora: o filho mais velho, de 21 anos, foi assassinado. “Não dá para explicar a dor que é tirar seu bem mais precioso”.

Três meses depois descobriram que o assassino tinha sido um jovem de 14 anos. “Um monte de perguntas sem respostas vinham à minha cabeça. Por que meu filho? E se eu tivesse feito alguma coisa pelas crianças e adolescentes?” Após um sonho com o filho, Neide resolveu incluir as crianças no projeto de corrida de rua. E a vida seguiu.

Entre as crianças do Capão Redondo: lições de cidadania
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Entre as crianças do Capão Redondo: lições de cidadania

Há dois anos, convidada a participar de uma corrida feminina da Nike, a decoradora ouviu uma palestra que falava de mulheres que viraram o jogo no esporte.

“No final eu levantei e falei: eu faço tudo isso e um pouco mais”. A empresa gostou do que Neide contou e pediu que se inscrevesse no Prêmio Game Changers. E entre várias obras sociais do mundo, o Vida Corrida acabou sendo escolhido o grande vencedor. “Ganhamos cinco mil em dinheiro e visibilidade. A partir daí, tudo começou a acontecer”.

O projeto começou com seis pessoas. Hoje são mais de 300, entre crianças e adultos, de quatro a 80 anos.

“Essas mulheres agora têm o corpo diferente, têm uma melhor relação com seus companheiros, têm outros assuntos além de novela. Hoje não estão mais alienadas. Ver essas pessoas recuperando a autoestima e transformando suas vidas é o melhor presente que eu poderia ganhar”.

Além do esporte, o projeto administra palestras sobre violência, AIDS, consciência ambiental, entre outros temas. Neide coordena tudo isso e ainda capacita mães para dar aulas.

“Não sairia do Capão Redondo por nada nesse mundo. Aqui eu perdi um filho, mas ganhei outros 300. Meu lugar é esse, é onde me sinto realizada”.

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