Alguns desafios da futura médica Vanessa são os mesmos enfrentados pela primeira mulher do País a se formar na profissão

Vanessa Santana nas escadas da Santa Casa de São Paulo, onde é bolsista e estuda medicina
Bruno Zanardo/Fotoarena
Vanessa Santana nas escadas da Santa Casa de São Paulo, onde é bolsista e estuda medicina
As histórias de Maria Augusta e Vanessa com a medicina são separadas por 132 anos. Mesmo com o centenário de diferença – marcado por sutiãs queimados em praças públicas e inúmeras conquistas femininas – estas duas mulheres superaram obstáculos semelhantes para fazer da carreira médica suas escolhas.

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Em 1875, Maria Augusta Generoso Estrela tinha 16 anos e colocou na cabeça que entraria em uma escola de medicina, local proibido para as mulheres da época.

Boa aluna, a jovem deixou a família no Rio de Janeiro para ter acesso aos estudos em Nova York, onde o ingresso das estudantes já era permitido. Os valores seriam bancados com o salário do pai comerciante.

Ela contrariou a segregação feminina e superou os insultos da sociedade. “Desertora e infiel” eram só alguns dos adjetivos disparados nas rodinhas do comércio, igreja e salões da época.

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Depois de protestos, cartas e súplicas (os dotes do pai já eram insuficientes para arcar os preços da universidade no estrangeiro), ela conquistou uma bolsa de estudos custeada pelo Império de Pedro II. Conseguiu concluir a graduação em Nova York e voltar ao Brasil em 1879, com o diploma.

Seu feito inédito abriu caminho para outras mulheres não precisarem ir ao exterior para cursar medicina. No mesmo ano em que Maria Augusta tornou-se a primeira médica do País, o governo autorizou a entrada de todas as interessadas nas faculdades médicas.

Maria Augusta Estrela, a primeira médica do País, formada em 1879
Faperj/reprodução de jornal
Maria Augusta Estrela, a primeira médica do País, formada em 1879
Segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), a “invasão” delas foi paulatina na profissão. Em 1920, só uma mulher se formou em universidade médica. Em 1970, 743 ingressos foram registrados. No ano 2000, o número salta para 5.714 e cresce para 7.171 em 2007.

Entre estas 7 mil, estava Vanessa Santana, na época com 24 anos, nascida em Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia. Para fazer parte desta estatística, ela também precisou superar descrenças.

"Negra, nordestina e pobre não poderia sonhar com o jaleco e o estetoscópio", já chegaram a insinuar.

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Vanessa também precisou deixar a família e a cidade natal, viajar até São Paulo e, então, ter acesso ao estudo universitário. Para isso, agarrou com todas as forças a bolsa de estudo que ganhou do governo por quase gabaritar na prova de seleção para a Santa Casa de SP (instituição privada de ensino). E, assim, deve estar formada como médica em 2013, num momento em que as mulheres já representam 52% dos novos profissionais da área, mas ainda com desafios de gênero a serem vencidos.

Degraus

“Vencemos muitas batalhas, mas temos outros tantos espaços para galgar”, acredita Marilene Melo, presidente da Associação Brasileira de Mulheres Médicas, patologista pela Universidade de São Paulo (USP), “sessenta em poucos anos” – define desta forma a sua idade. Ela conta que na sua época de estudante eram 8 mulheres na classe para 80 homens.

Divulgação/Denison Moreira
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“Hoje as meninas são maioria nas salas de aula e, depois de formadas, a questão salarial, de modo geral, não apresenta diferença entre os gêneros”, acredita Marilene.

“Por outro lado, ainda é preciso mais igualdade na academia, nos cargos de professores universitários e nas direções de sociedade médicas, terrenos dominados pelos homens”.

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Enquanto arrumava a única mala, só com roupas leves e adequadas para o calor do interior baiano, “mas completamente insuficientes para o frio polar que faz em São Paulo”– percebeu Vanessa Santana assim que colocou os pés na Rodoviária do Tietê – a então recém-aprovada no curso de medicina imaginava os desafios que teria de enfrentar durante e após a conclusão da graduação.

De forma intuitiva, antes de fechar o zíper da mochila, colocou o livro “Arte da Guerra”, de Sun Tzu, leitura que a acompanhou durante as 28 horas de viagem. Até chegar à Faculdade de Medicina da Santa Casa já tinham sido tantos degraus, mas Vanessa sabia que a aprovação no vestibular era só o início da escada.

“Fui fruto de uma gravidez inesperada e, por não ter condições de cuidar de mim, minha mãe passou a criação para meus avós”, lembra Vanessa.

“Tivemos problemas financeiros sérios, precisei estudar em escola pública e, no ensino médio, após vencer um concurso de redação, ganhei bolsa integral para um colégio particular. Nunca pensei em ser outra coisa na vida a não ser médica. Mas o descrédito era tão grande, que influenciada por frases do tipo ‘medicina é para rico’ acabei prestando vestibular para outras carreiras.”

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“Até cursei biologia por seis meses, mas não achei justo desistir do meu sonho . Uma amiga me inscreveu no ProUni para medicina. Passei”, relembra.

Com muito medo, mas com vontade maior do que receio, Vanessa fez da sua primeira aula em um auditório na Santa Casa, rodeada por 100 outros “bixos”, o dia mais feliz da sua vida.

Abdicou de comprar tênis e roupas da moda (só blusas de frio) para investir em livros. Participou de todos os programas de extensão da Santa Casa e, para isso, passou a dormir apenas 4 horas por noite. Como não abre mão de passear, sair para dançar e escutar Chico Buarque e Luiz Gonzaga, ela frequenta as bibliotecas de madrugada, pois é preciso trabalhar para custear a república que divide com outras três colegas.

Meu lugar

A multiplicidade de tarefas de Vanessa e a sobrecarga para dar conta de tudo, avalia Maria de Fátima Pinto Caetano – representante das mulheres médicas de São Paulo–, são pontos comuns com outras estudantes de medicina e também entre as já diplomadas.

“Elas abrem mão do autocuidado, típico em profissionais da área, mas reforçado pelo fato do sexo feminino em geral cuidar do outro e esquecer de si”, define Maria de Fátima.

“Este, para mim, é o grande desafio da médica atual. Ter espaço para tratar dela própria, assim melhorar o tratamento dos pacientes e talvez influenciar mulheres de qualquer cargo a não negligenciarem a própria saúde”, complementa.

Vânia Melhado, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Aeroespacial, enxerga com otimismo esta necessidade de mudança de postura. Ela, que apesar de instância máxima da entidade é uma espécie de “bendito fruto” (já que a maior parte dos médicos aeroespaciais é militar, portanto, homem), afirma que já vê o espírito em suas alunas.

“Dou aula na Santa Casa e percebo que as meninas estão em busca da realização pessoal e, por ela, batalham muito. Enxergo que cada vez mais conseguem equilibrar o desejo da vida familiar com o a da profissional e não se intimidam com obstáculos. Também sabem da importância de olhar para seus próprios desejos”, diz.

Vanessa Santana, quando deixou os avós com coração apertado em Bom Jesus da Lapa, ouviu os próprios desejos.

“Entro na reta final da graduação sem saber o que fazer como especialização. Sou apaixonada por medicina, gosto de tudo”, diz ela dando de ombros para os comentários de que precisa “alisar o cabelo enrolado para combinar mais com o cargo de médica” – como já disseram algumas colegas. E assim como Maria Augusta Generoso Estrela já sabia em 1875 que escola médica era espaço de mulher, Vanessa, em 2012, tem a plena certeza de que escola de medicina é "o lugar de mulher, pobre, negra e nordestina", diz, com orgulho.

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