O que esperar para 2010 nas enfermidades que mais assustam os brasileiros

Saúde: previsões ajudam a traçar estratégias de prevenção
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Saúde: previsões ajudam a traçar estratégias de prevenção
Se ainda não é possível noticiar a cura do câncer, da aids ou ter acesso à receita perfeita para evitar o infarto e o derrame, o avanço da ciência já permite aos especialistas fazer projeções sobre o que ainda está por vir. O Delas ouviu médicos de diversas áreas e preparou um prognóstico dos principais problemas de saúde que ameaçam a vida dos brasileiros. Com o cenário de 2010 em mãos, é possível traçar estratégias de prevenção eficazes, além de saber como deixar bem longe do novo ano as infecções e enfermidades que já fizeram estragos no passado.

Gripe suína: mais fraca e com vacinação

Já neste mês o Programa Nacional de Imunizações deve anunciar, oficialmente, qual é o público prioritário para receber as primeiras doses gratuitas da vacina que protege contra o H1N1. Estão cogitados pelo Ministério da Saúde, de acordo com o que já foi antecipado pelo iG, as grávidas, as crianças menores de dois anos e também os doentes crônicos (cardiopatas e HIV positivos por exemplo) – grupo que se mostrou mais vulnerável à gripe suína em 2009.

Será a segunda onda da doença e a primeira com vacinação disponível. Isso indica que o contágio deve perder força. Os sobressaltos estão centrados em duas possibilidades: mutações genéticas do vírus transmissor, o que pode renovar a intensidade da infecção, e também resistência à vacina e efeitos colaterais ao medicamento. A experiência, no entanto, mostra um cenário tranqüilo com a imunização. Boletim divulgado pela Organização Mundial de Saúde informou que entre os 11 mil vacinados na China, foram registrados 15 casos de efeitos colaterais graves e apenas duas mortes, não necessariamente associadas à vacinação. Isso significa uma média de problema inferior a 0,14%.

Infarto e derrame: sem cigarro, eles devem diminuir

São as duas doenças que mais matam a população brasileira, tanto homens quanto mulheres. Para a diminuição da incidência do problema, os especialistas apostam boa parte das fichas na lei antifumo, que proibiu o uso do cigarro em ambientes públicos e fechados no Estado de São Paulo e também já começou a ser implantada no Rio de Janeiro, Paraná, Belo Horizonte, Brasília e Salvador. Com a diminuição da exposição à fumaça do tabaco, que afeta também fumantes passivos, a perspectiva é de declínio gradual dos casos de doenças cardiovasculares.

Em território paulista, a lei completa um ano em agosto, mês em que as pesquisas científicas que aferem o efeito na redução de problemas cardíacos e vasculares começam a ser publicadas. O Instituto do Coração (Incor), o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) e o Laboratório de Poluição da USP são três entidades que fazem pesquisas sobre este tema. Em Nova York e Paris, por exemplo, após um ano de vigência de legislação parecida os casos de doenças do coração e acidentes vasculares cerebrais caíram entre 5% e 20%.

Dengue: chuvas e calor devem ampliar criadouros do mosquito
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Dengue: chuvas e calor devem ampliar criadouros do mosquito
Dengue e leptospirose: uma enxurrada de novos casos

As previsões dos especialistas não são nada otimistas. Os maus frutos de um ano tão chuvoso como foi 2009 devem ser colhidos em 2010. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o mês de julho, considerado historicamente seco, foi o que mais acumulou chuva nos últimos 46 anos. Isso aumenta a proliferação de doenças que têm como vetor o água parada e de enchente.

As projeções são de aumento de dengue – causada pela picada do mosquito Aedes Aegypit – e de leptospirose, transmitida pela urina de ratos. As grandes metrópoles devem ser as mais afetadas: uma pesquisa da Fiocruz, publicada em dezembro, mostrou que o contágio da dengue é mais freqüente em locais com elevada concentração de pessoas, e o Ministério da Saúde apontou um aumento de 47% do número de cidades com risco alto de epidemia da doença (de 76 municípios para 112).

Outro agravante foram as enchentes. Na capital paulista, o registro de dias com alagamentos em dezembro, por exemplo, superou em 33,3% os identificados no mesmo mês de 2008 pelo Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE). O Rio Grande do Sul e Santa Catarina também sofreram com as inundações, além do Nordeste. Por isso, mesmo Estados com climas mais frios, que teriam risco amenizado de transmissão, precisam estar em alerta máximo para a dengue e leptospirose.

Apesar de todos os pontos negativos, duas dicas simples podem ajudar a atenuar o quadro. A primeira é evitar acumulo de água em vasos, pneus e quaisquer recipientes abertos, o que evita criadouros do inseto transmissor de dengue. A outra é em hipótese nenhuma andar por águas de enchentes sem vestimenta adequada, como botas e calças, para evitar a leptospirose.


Câncer: tratamentos individualizados

A doença que já foi uma sentença de morte hoje convive com as possibilidades terapêuticas de tratamentos que estão se tornando cada vez mais individualizados. Apesar das novidades, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) ainda prevê alta incidência de novos tumores malignos na população. O câncer de mama permanece em 2010 como o pior inimigo da mulher brasileira (49 casos novos a cada 100 mil habitantes). E o de próstata é o que continua a representar a principal ameaça do universo masculino (54 registros em 100 mil homens).

Mesmo com o avanço da ciência, os oncologistas não avistam a solução de polêmicas sobre essas duas neoplasias colecionadas em 2009. Ainda não há consenso, por exemplo, sobre a idade mais adequada para a mulher fazer mamografia – apesar das recomendações norte-americanas terem indicado postergar o exame para só depois dos 50 anos. A mesma indefinição deve continuar sobre o exame de toque da próstata para os homens: os dois estudos brasileiros concluídos em 2009 chegaram a conclusões distintas (um reforçou a importância do exame com toque após os 50 anos; o outro descartou-o para qualquer idade, indicando só o acompanhamento clínico). Enquanto persistir o impasse, a orientação é atenção ao corpo. Se tocar, se olhar e visitar o médico pelo menos uma vez ao ano são a melhor maneira de atestar se não há nada de errado.

Apesar da próstata e mama continuarem na liderança de problemas, o Inca também projetou alta incidência de câncer no pulmão (totalmente associado ao fumo), colo do útero (impulsionado pelo HPV e o sexo sem proteção), estômago (alimentação inadequada) e pele (a insistência em não usar protetor solar). O otimismo dos especialistas com relação a todos esses tipos de neoplasias é fundamentado na produção de novas drogas (há uma centena de testes em andamento em animais e também seres humanos) e na individualização dos tratamentos. A aposta é que com o conhecimento genético de cada paciente – além da melhor identificação de subtipos de câncer – seja possível direcionar as terapêuticas, tornando-as mais eficazes e com menos efeitos colaterais.

HIV: mais campanhas de prevenção para a terceira idade
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HIV: mais campanhas de prevenção para a terceira idade
Aids: atenção redobrada à terceira idade

Para todo novo ano, as atenções dos médicos – especialmente os ligados ao Sistema Único de Saúde – ficam centradas na possibilidade de quebra de patente de medicamentos antirretrovirais, o que barateia o custo de novos medicamentos a serem distribuídos de graça aos infectados pelo vírus HIV, o causador da aids.

Em 2010, entretanto, não é só a possibilidade de um novo AZT gratuito que pode mudar o rumo da doença – ela lidera como causa de morte natural de mulheres e homens jovens. Se a batalha judicial não provocar mudanças, a previsão é que neste ano a patente do Viagra seja quebrada e a droga mais famosa contra a impotência fique ainda mais acessível à população com mais de 60 anos. Isso implicaria em um segundo passo da revolução sexual para quem já aprendeu que a vida sexual não precisa se aposentar.

O problema é que os idosos foram incentivados a namorar, sair de casa e passear, porém as campanhas educativas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis não foram lançadas no mesmo ritmo. Os idosos, então, passaram a figurar entre os vitimados pela doença (no ambulatório do idoso do Instituto de Infectologia do Emílio Ribas, o movimento dobrou em 2007 e 2008).

Em 2009, o Ministério da Saúde lançou o slogan “idade não traz imunidade” para que maiores de 60 anos também ficassem atentos aos riscos de infecção do HIV. Com facilidade do acesso ao medicamento, é imprescindível que o assunto permaneça em pauta. Em casa, além de ensinar os jovens sobre a importância de usar o preservativo, a regra também deve valer para os seus pais e avôs.

Fontes consultadas: Juvêncio Furtado, da Sociedade Brasileira de Infectologia, Thais Mauad, patologista da Faculdade de Medicina da USP, Fundação Oswaldo Cruz, Ministério da Saúde, Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Jaqueline Issa, cardiologista do Incor, Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo, Rui Ramos, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Centro de Gerenciamento de Emergência, Olavo Feher, oncologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), Vicente Amato Neto, professor emérito de infectologia da USP, José Guedes, diretor do Instituto Butantan e Eduardo Henrique Genofre, diretor da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia

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