Laços femininos se fortalecem em momentos de doença

Laços entre mulheres se estreitam quando a doença aparece
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Laços entre mulheres se estreitam quando a doença aparece
Maria Paula, 26 anos, morava sozinha no Rio de Janeiro, quando teve uma crise de hérnia de disco. O problema deixou-a imóvel durante um mês. Foi graças a quatro amigas que ela pode manter as atividades essenciais do dia a dia como comer, ir ao banheiro, tomar banho.

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“Elas se revezavam na minha casa e não me deixaram sozinha em momento algum. Os médicos me recomendaram repouso absoluto, então eu só saia da cama para tomar banho ou ir ao banheiro. E eram elas que me davam banho e me ajudavam a vencer a distância até os outros cômodos. Até no colo elas me carregaram”, relembra.

A administradora de empresas se sentiu a vontade com as amigas e não teve pudores. “Acho que é uma questão de liberdade. É um carinho diferente, um cuidado de mulher. Uma delas fez minhas unhas, outra penteou meu cabelo. Elas sabiam do que eu precisava, entendiam minhas necessidades”, conta. O incidente uniu ainda mais o grupo, que mesmo morando em cidades diferentes hoje, ainda se fala pelo telefone ou internet diariamente.

O ato de cuidar, seja da família, da casa, ou dos doentes, sempre esteve muito ligado à história das mulheres. Antigamente, era delas o papel de assistir aos feridos, ou ao marido e filhos. “Existe uma relação intrínseca entre a figura materna e o ato de cuidar. Na história da divisão sexual do trabalho dava-se à mulher a responsabilidade de cuidar da casa, da prole e dos enfermos”, diz o estudo Mitos da Enfermagem: mulher, trabalho e gênero, realizado pelas pesquisadoras Lazieny Avelina de Assunção, Christina Souto Cavalcante Costa e Heliane Fernandes Lourenço.

Essa ideia ainda permeia as práticas cotidianas, explica Maria Izilda Santos de Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos das Mulheres, da PUC-SP. “A mulher aprende na sociedade, em diferentes padrões, a cuidar. As mulheres têm mais disponibilidade e têm maior referência na questão da solidariedade – elas levam canja ao vizinho, acolhem o parente doente, acompanham a amiga ao médico”, relata.

Amanda Barrocas tem apenas 23 anos, mas sabe na prática o significado e a importância dessa solidariedade feminina. Depois de seis meses desempregada, ela finalmente havia sido contratada por uma empresa. Mas ao atravessar a rua, na primeira semana de trabalho, sofreu um acidente e ficou imobilizada. Como ainda não havia sido registrada, perdeu a vaga.

“Entrei em depressão. Eu lutava por um emprego há muito tempo. Minha vizinha, Fernanda, percebeu a minha tristeza e ia todo dia me ver”, relata. A preocupação simples com a vizinha que havia quebrado a perna virou uma grande amizade. “Quando os médicos me disseram que eu nunca mais iria andar direito, me fechei. Brigava com todo mundo que se aproximava de mim. Foi com muita paciência que ela ajudou a me recuperar. Foi graças a ajuda e à paciência dela”, emociona-se Amanda.

Mesmo quando não podia estar ao lado da amiga, Fernanda deixava bilhetes com mensagens de entusiasmo e carinho ou alugava filmes para que Amanda não ficasse desocupada. Ela estava sempre presente de alguma maneira, diz. E com o apoio e o carinho, Amanda foi saindo da depressão. “Não só pela companhia, mas pelas palavras que eu esperava ouvir de muitas pessoas e não ouvi. Foi ela quem conversou comigo e me mostrou que existiam casos muito piores do que o meu”, relata.


Para elas, ser cuidada é mais fácil do que para os homens, afirma Maria Izilda. E cuidar também. A secretária Fabiana Matos cuidou da mãe depois que ela sofreu um AVC e ficou com sequelas importantes. “Meu pai estava de bem de saúde e podia cuidar dela. Mas eu era melhor no trato, tinha mais paciência, mais carinho, ternura. Acho que os homens não têm essa delicadeza necessária”, relata.

Fabiana voltou a morar na casa dos pais para cuidar da mãe de perto e reencontrou a amizade intensa que marcou a vida das duas. “Sempre fomos muito cúmplices. No entanto, a vida vai passando, a correria toma conta de tudo e fomos nos afastando. Quando voltei, ela tinha dificuldades para falar, mas nos entendíamos pelo olhar. Ríamos sem fazer piada, eu a aconchegava sem que ela precisasse pedir”, relembra emocionada. “No último dia dela de vida, ela fez um grande esforço pra dizer que me amava. Não senti como se os laços estivessem se desfazendo. Na verdade, eles tinham virado um nó, que duraria eternamente.”

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