Diagnóstico precoce permite que muitas pessoas convivam bem com a doença

Fã de atividades físicas e dona de uma vida bastante agitada, a aposentada Lucia Fava, 63 anos, estranhou quando começou a sentir dores nas pernas e nas articulações. Preocupada, procurou um ortopedista, que pediu uma série de exames e desconfiou de um problema no osso da bacia. Por conta própria, Lucia buscou tratar a dor com fisioterapia e acupuntura.

Lucia: longo caminho até o diagnóstico
David Santos Jr/FOTOARENA
Lucia: longo caminho até o diagnóstico
“Um dia, travei e não conseguia me levantar da cama. Pedi ajuda a um parente, que é médico, e ele me levou ao hospital. Lá, fiz uma nova série de exames, mas os médicos desconfiaram que era reumatismo”, conta. Foi só depois de ir a um hematologista, com os resultados dos exames nas mãos, que Lucia se descobriu portadora de um câncer raro e ainda sem cura, chamado mieloma múltiplo.

A demora no diagnóstico é uma constante entre os portadores da doença, um câncer que se desenvolve na medula óssea devido ao crescimento descontrolado das células plasmáticas – que fazem parte do sistema imunológico e são produtoras de anticorpos. Produzidas pela medula óssea, elas são liberadas para a corrente sangüínea. Em geral, as células plasmáticas constituem uma parte bem pequena das células da medula – menos de 5%. No mieloma, a quantidade pula para um número que pode variar de 10% a 90%. Por conta desse aumento, essas estruturas podem acumular dentro e também fora da medula, atingindo múltiplos locais, em geral nos ossos.

“A doença é tão rara que atinge quatro pessoas para cada 100 mil habitantes”, observa o hematologista e oncologista Celso Massumoto, da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale).

Causas desconhecidas

Quem mais sofre com o mieloma múltiplo são pessoas acima dos 60 anos, embora a doença possa – muito raramente – acometer pessoas mais jovens. No entanto, há diferenças em dados que se referem aos pacientes mais afetados. Segundo Massumoto, são as mulheres as vítimas mais freqüentes do problema. Já a International Myeloma Association aponta a ocorrência maior entre os homens. Há, ainda, estudos internacionais que apontam uma incidência maior dos casos de mieloma múltiplo em negros do que brancos; porém, ainda não se sabe o que causa a doença.

As causas exatas do surgimento da doença ainda são desconhecidas, mas existem alguns fatores de risco que aumentam as chances de ocorrência. Entre elas, a exposição à radiação, ao uso de pesticidas e a certas viroses. Estudos recentes vêm investigando se alterações do DNA também causam o mieloma múltiplo, mas sabe-se que são raros casos de transmissão de pais para filhos. O próprio avanço da idade, também crêem os médicos, pode acarretar o problema.

Sinais da doença

O sintoma mais freqüente do mieloma múltiplo são as dores ósseas. No entanto, outros sinais podem ser indicativos da doença. Fraturas espontâneas, segundo o oncologista Celso Massumoto, são bastante comuns.

Cansaço levou Elio a procurar um médico
Edu Cesar/Fotoarena
Cansaço levou Elio a procurar um médico
“Já vi pacientes que, da noite para o dia, desabaram 10 centímetros. As vértebras, devido a fraturas simultâneas nos ossos, caíram umas sobre as outras”, comenta. O alto nível de proteínas no sangue, também causado pela doença, pode ser detectado quando a pessoa passa a apresentar problemas renais e de circulação. Outro sinal do mieloma é a redução da imunidade, que aumenta a predisposição a infecções, deixando mais difícil a situação. A doença também provoca níveis elevados de cálcio no sangue, a chamada hipercalcemia, que causa confusão mental, desidratação, fadiga e constipação.

A anemia também costuma ser outro sintoma comum. Foi por causa dela que o representante comercial Elio Trepiche, de 64 anos, descobriu a doença, no ano passado. “Percebi que estava ficando muito cansado sempre que caminhava. Um médico me pediu um exame que revelou que as plaquetas no meu sangue estavam muito baixas. Fui perdendo a força nas pernas e ficou cada vez mais difícil caminhar”, conta ele.

“Passei por vários médicos, fiz diversos tipos de exames e cheguei a ser internado por conta da anemia, mas só descobri que tinha o mieloma quando fiz uma radiografia dos ossos, que apontou um tumor maligno na coluna, que estava pressionando os nervos”. Era a doença se manifestando, já em estágio avançado.

Detecção

Por ser uma doença complexa, o mieloma requer uma investigação cuidadosa. A confirmação do diagnóstico, segundo a International Myeloma Association, ocorre quando há ocorrência de pelo menos duas das seguintes condições:

• Amostra de medula óssea com células plasmáticas acima de 10%, em geral acima de 20 a 30%
• Uma série de raios-X de todo o esqueleto, mostrando lesões em pelo menos três ossos
• Amostras de sangue ou urina com níveis anormalmente elevados de anticorpos (imunoglobulinas) ou de uma proteína chamada Bence-Jones, secretada pelas células plasmáticas
• Uma biópsia mostrando um tumor das células plasmáticas dentro ou fora do osso

De acordo com a médica onco-hematologista Ana Lucia Cornacchione, do Comitê Científico da Abrale, a doença pode ser controlada em mais de 80% dos casos, desde que seja tratada corretamente. “O paciente pode ser tratado com quimioterapia, em alguns casos com radioterapia. Outra opção é o transplante autólogo, em que ele recebe a medula de si próprio. Os ossos se regeneram e é possível até mesmo voltar à atividade física normal”, afirma. Cirurgias para a retirada de tumores também são indicadas. Entretanto, a falta de tratamento, a aplicação incorreta dele ou a não-adaptação aos medicamentos pode levar a complicações e até mesmo à morte.

Tratamento contínuo

Considerada uma doença crônica, o mieloma múltiplo precisa de acompanhamento médico periódico mesmo depois dos tratamentos, pois corre o risco de voltar. Foi o que ocorreu com Lucia Fava: em 15 anos já passou por três transplantes autólogos.

“Primeiro me tratei com quimioterapia, mas era tão forte que me fez perder os cabelos e até a coordenação motora. A solução foi fazer o transplante, que melhorou muito a minha qualidade de vida. As recidivas estão cada vez mais espaçadas e consigo levar uma vida normal, até voltei a fazer ginástica”, revela.

Elio Trepiche reagiu de forma diferente aos tratamentos. “Após a cirurgia para a retirada do tumor, fiz algumas sessões de radioterapia, mas não me adaptei. Desde então, tenho feito quimioterapia e os resultados têm sido muito bons, pois não tive queda de cabelo nem mal-estar”, conta ele, que diz também levar uma vida normal, apesar de ter se afastado do trabalho para se recuperar.

O uso de medicamentos no tratamento de suporte é necessário, especialmente para controlar a hipercalcemia, as dores, os problemas ósseos e as infecções. A talidomida bem sendo bastante usada para tratar o mieloma, sozinha ou em combinação com outras drogas, como o melsalan e a prednisona, no chamado MTP, que está disponível em toda a rede pública de saúde.

Outras alternativas de tratamento são a lenalidomida, um medicamento parecido com a talidomida, e o bortezomibe – ambos com baixa incidência de efeitos colaterais, como queda de cabelo. Como não pode ser prevenida, a doença precisa de diagnóstico rápido. Logo que houver algum sintoma, especialmente fraturas, é preciso buscar atendimento médico. Quanto mais cedo o mieloma for diagnosticado, maiores são as chances de voltar a ter uma vida normal.

Onde buscar informações:

Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale)
(11) 3149-5190 ou 0800 773 9973

International Myeloma Foundation (IMF)
(11) 3726-5037

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