Menstruação desregulada é aviso de doença futura no coração

Mulheres com ovários policísticos têm risco de infarto 1,5 vez maior e apresentam 2,8 mais vezes AVC

Fernanda Aranda, enviada a Belo Horizonte |

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Mulheres com ovário policístico devem observar também problemas no coração
O coração feminino ainda é bem mais misterioso para a medicina do que o masculino mas, aos poucos, a ciência começa a reunir indícios sobre quais são os “avisos” de doenças cardíacas na mulher. A última descoberta, apresentada neste domingo (26) no Congresso Brasileiro de Cardiologia, é que a menstruação desregulada indica a possibilidade de infarto e também de Acidente Vascular Cerebral (AVC) no futuro.

Segundo Regina Coeli de Carvalho, professora de cardiologia da Universidade Federal do Ceará e presidente do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia, já existem pesquisas sólidas que mostram as pacientes com ovários policísticos – um dos principais sintomas deste problema é a menstruação desregulada – mais numerosas entre as doenças cardíacas, acidentes vascular cerebral, hipertensão e diabetes.

“O grande problema é que quando estas meninas procuram os ginecologistas e descobrem os ovários policísticos, o tratamento quase que exclusivo fornecido a elas é para regular a menstruação”, afirma a médica. “Chegou a hora de chamarmos atenção que estas garotas e mulheres jovens precisam ter um controle ainda mais rígido dos fatores de risco cardíaco, como cigarro, sedentarismo, obesidade, má alimentação e até uso de algumas drogas diferentes. Se não tratadas e orientadas, em um futuro próximo (após os 45 anos) elas são fortes candidatas às doenças coronarianas”, completou. “Não é só tomar pílula anticoncepcional para controlar o ciclo desregulado.”

A especialista reuniu uma série de estudos já publicados nos arquivos internacionais de cardiologia que acompanharam, no total, mais de cinco mil mulheres. Os ensaios mostram que as portadoras de ovários policísticos, antes mesmo de entrarem na menopausa, já têm risco 1,5 vez maior de doença coronariana, 2,8 vezes mais acidente vascular e a hipertensão é 2,6 vezes mais recorrente neste grupo.

Risco subestimado

A explicação para a interferência do ovário policístico nos eventos cardíacos é que, nestas pacientes, a produção de hormônio é diferenciada, o que dificulta a circulação de sangue e facilita as panes cardíacas e cerebrais. Por este motivo, quando não há problemas com os hormônios, as pacientes femininas ficam “mais protegidas” dos eventos cardíacos do que os homens. A proteção extra, no entanto, dura até elas chegarem à menopausa. Depois desta fase, os riscos ficam iguais, independentemente do sexo.

Ainda que a fragilidade do coração aumente pós -menopausa, o cardiologista Otávio Gebara – especialista do Instituto do Coração em pacientes femininas com mais de 50 anos – afirma que as brasileiras não cogitam que podem ser vítimas de doenças cardíacas em qualquer fase da vida. “Todas subestimam os riscos, tanto mais novas quanto mais velhas”, avalia Gebara.

“Os Estados Unidos começaram em 1997 uma campanha muito forte para alertar as mulheres sobre infarto e doença isquêmica do coração. Naquele ano, só 30% delas acreditavam que poderiam morrer do coração, número que ampliou para 52% no ano passado”, diz. “No Brasil, da mesma forma que nos EUA, as doenças cardíacas lideram as causas de morte feminina. Perguntamos às mulheres paulistanas quantas achavam que poderiam morrer do coração e só 15% acreditavam nisto, é irrisório.”

Muitos sinais
Elizabeth Alexandre, cardiologista estudiosa do coração feminino do Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese, afirma que o risco em negligenciar as doenças cardíacas é duplo na mulher, já que a própria forma anatômica do coração feminino contribui para que os infartos sejam duas vezes mais fulminantes nelas do que em homens.

“As artérias (veias mais importantes) são menores e mais rígidas do que as dos homens, o que faz com que os eventos cardíacos sejam mais fulminantes e também mais silenciosos. As placas de gordura não precisam estar tão evidentes nos exames para o risco ser real. São muitas pacientes que fazem testes, o resultado é normal, elas vão para casa e morrem de ataque cardíaco no dia seguinte”, diz ao reforçar que por isso as pacientes femininas precisam ser acompanhadas mais de perto e com menos espaçamento entre uma consulta e outra.”

Elizabeth acrescenta que os diferencias no coração da mulher fazem com que os próprios sinais do infarto sejam mais diferenciados, muitas vezes enganando não só a paciente como também os médicos. “Não fica limitado à dor clássica no peito. A mulher que está infartando pode apresentar uma dor na boca do estômago, nas costas, na mandíbula, ânsia de vômito. Por isso, elas demoram mais tempo para procurar ajuda, o que agrava ainda mais o quadro.”

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