Mais comum em mulheres jovens, diagnóstico precoce e novas possibilidades de tratamento dão qualidade de vida aos pacientes

O nome pouco diz sobre as causas da esclerose múltipla. No conhecimento popular, o primeiro termo remete à falta ou perda de memória. Na definição do dicionário e na medicina, entretanto, significa o endurecimento do tecido de um órgão. No caso da esclerose múltipla esse processo acontece no sistema nervoso, especificamente nas ligações entre os neurônios, dentro do cérebro.

As ligações entre os neurônios são encapadas, protegidas por uma bainha de mielina, proteína que o organismo produz e detona a cada segundo. Beny Schmidt, chefe do laboratório de patologia neuromuscular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a função da mielina é fazer com que o estímulo elétrico das ramificações dos neurônios, a informação entre eles, seja mais rápida. “O que ocorre é uma espécie de miopia do sistema de defesa. A mielina é destruída a uma velocidade muito maior do que aquela que o organismo usa para produzí-la”, define o especialista.

Diagnóstico por exclusão

Ressonância magnética é um dos exames que deve ser feito para investigar a doença, mas não o único
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Ressonância magnética é um dos exames que deve ser feito para investigar a doença, mas não o único
A imprevisibilidade da doença tem sido vencida pelas possibilidades de diagnóstico. Confirmar o quadro de EM, segundo os especialistas, é uma matemática de exclusão. A ressonância magnética mapeia as regiões do cérebro que podem estar lesionadas por uma doença auto-imune, mas não comprovam a existência da EM. “Lesões no cérebro podem ser provocadas por uma infecção, carência de vitaminas ou outras doenças auto-imunes como o Lúpus", alerta Maurício Hoshino, neurocirurgião do Hospital Santa Catarina, em São Paulo.

A confirmação da esclerose, aponta o médico, só se dá através de uma série de diagnósticos e exames: ressonância magnética, testes clínicos, um exame chamado líquor – que recolhe líquido da medula espinhal –, acompanhamento de seis meses do quadro, além da negativa para as outras possibilidades.

“É preciso respeitar o tempo para fazer o diagnóstico. O paciente precisa apresentar sintomas clínicos, com intervalos de seis meses, e lesões no sistema nervoso central em locais diferentes. Os sintomas de muitas doenças nutricionais, vasculares e infecciosas se parecem com os da Esclerose Múltipla.”

Reconhecer os sintomas não é fácil. A doença acontece no cérebro, mas reage em diversas partes do corpo. Alteração visual, desequilíbrio e perda de sensibilidade são alguns dos efeitos. “Muitos pacientes procuram oftalmologistas, ortopedistas, nunca um neurologista em primeiro lugar.”

Há registros da EM desde o século 20. Segundo dados da Academia Brasileira de Neurologia, no mundo, existem dois milhões de portadores da doença. No Brasil, estima-se 25 mil pacientes. A Esclerose Múltipla afeta mais as mulheres, numa proporção de três para um. Segundo Hoshino, é possível que a incidência no público feminino tenha alguma relação com a questão hormonal, mas ainda não há dados que confirmem essa hipótese.

O diagnóstico na faixa entre 20 e 40 anos é mais comum por uma característica das doenças auto-imunes. "A doença se revela em uma fase da vida que o sistema imunológico é forte, mais combatente, reagindo às informações que o organismo dá com maior intensidade. Na esclerose, a informação dada ao sistema imunológico é errada, mas a reação é mais rápida e intensa, por isso os surtos podem ser mais severos na juventude.”

A confirmação precoce do problema, porém, não deve ser encarada negativamente. Na visão dos médicos, ela é fundamental e eleva as chances de tratamento da doença. “Do ponto de vista psicossocial é um baque, mas quanto mais precoce o diagnóstico, maiores as possibilidades de proteção e cuidados. A medicação protege as lesões, evita que elas se solidifiquem e afasta as chances de sequelas.”

Tratamento em evolução

Embora as causas da esclerose múltipla ainda sejam pouco claras para a medicina, o tratamento, a cada ano, avança e oferece mais tranqüilidade para quem convive com a doença, independente da idade. O neurocirurgião do Hospital Santa Catarina explica que os medicamentos para abrandar os surtos provocados pela enfermidade, hoje, são mais eficazes e menos agressivos.

“Antigamente, o tratamento era feito a base de cortisona e sempre na hora da crise. Hoje temos como acompanhar o crescimento das lesões no cérebro e controlar a intensidade dos surtos.”

O tratamento da EM é feito a base de imunomoduladores. Hoshino ensina que o medicamento bloqueia o sistema imunológico, impede a produção de anticorpos e permite que o organismo produza a mielina (remielinização) parcial ou completamente. No Brasil, por enquanto, esse medicamento existe apenas em versão injetável e os efeitos colaterais não são poucos. “Alguns pacientes reagem de uma forma mais crítica, com febre, dor no corpo, cansaço. A reação é semelhante a uma gripe forte.”

Em fase de aprovação pela ANVISA, já há uma nova possibilidade, com efeitos colaterais menores e em forma de comprimido. Os especialistas acreditam que até o final do ano o medicamento esteja, de fato, disponível no mercado. "A promessa é que o medicamento seja liberado no segundo semestre de 2010. Usamos apenas a injeção, pois nenhum comprimido, até então, era capaz de sobreviver ao ácido estomacal."

O especialista do Santa Catarina acrescenta que o a proposta dos imonomoduladores não é evitar o surto, pois essa reação não é possível antever. O remédio faz com que a crise seja menos agressiva. “O medicamento não diminui a incidência de surto, mas acomete de forma muito mais leve. As chances de recuperação são muito maiores, e rápidas.”

A cortisona ainda é uma aliada no tratamento, mas seu uso é prescrito durante a crise e por um curto período de tempo, revela o médico. “Recomendamos uma dosagem alta por três a cinco dias, para aliviar o quadro. Não tratamos a doença cronicamente com corticóides.”

Na visão de Beny Schmidt, o transplante de medula óssea não é uma solução para os pacientes de EM. O especialista comenta que pouquíssimos testes foram feitos e os resultados não foram positivos. "Temos que tratar com respaldo da literatura médica e não há comprovação científica de que o transplante seja eficaz para essa doença. As crises não diminuem e nem mudam a intensidade."

A doença não tem cura, mas, segundo os médicos, perde força com o avanço da idade. "Em um idoso os surtos não são mais intensos, a resposta do sistema imunológico é mais fraca, assim como ocorre com a enxaqueca. Ela não tem cura, mas perde força com a idade."

Alegria é remédio

Doenças que atacam diretamente o sistema imunológico exigem dos pacientes uma postura diferenciada. A depressão é uma grande inimiga da Esclerose Múltipla. Embora não existam ainda dados que comprovem o poder da felicidade no tratamento, manter uma qualidade de vida, atividade física, evitar o estresse e encarar a o problema com tranqüilidade, favorecem a estabilidade da doença.

“A forma como o paciente encara a doença influencia no sistema imunológico. Conviver com menos ansiedade e mais esclarecimento auxilia no tratamento", afirma Hoshino.

Beny Schhmidt, especialista da Unifesp, sugere um acompanhamento psicológico paralelo ao tratamento médico. Na visão dele, doenças auto-imunes estão diretamente ligadas à qualidade de vida e ao equilíbrio emocional. "Não sabemos as causas do problema, mas a relação com a felicidade, alegria de viver, na minha visão, é direta. A terapia é uma maneira de recuperar esse amor, ânimo para aproveitar a vida, enfrentar, superar desafios."  

Os médicos ainda alertam para a quantidade de informações sensacionalistas e equivocadas sobre a doença na internet. “Há casos graves e leves para todas as doenças. O Google não é a melhor referência tampouco fonte de informação. É através de um médico, de um especialista que se tem o diagnóstico", assevera Hoshino.

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