Vinte e dois por cento da população brasileira sofre pela morte de um bebê

Meses, dias, horas, segundos. Não importa por quanto tempo aquele bebê fez parte da família. Nenhuma métrica é capaz de mensurar a dor de quem perde um filho.

Carolina viveu na família Cohn Mor durante sete meses (de gestação) e cinco dias, mas sua morte vai acompanhar para sempre a vida de seus pais, Paula e Israel. “Não tem um dia que eu não me lembre da minha filha”, diz a mãe. “A minha dor é igual a de qualquer mãe que perdeu um filho, independentemente de quanto tempo ela tenha vivido”.

Não existem estatísticas sobre o número de enlutados no país, mas calcula-se que para cada morte infantil (até o primeiro ano de idade) pelo menos duas pessoas – pai e mãe – estão nessa situação. Isso sem incluir na conta outros familiares como avós, tios, primos e amigos. Portanto, somente em 2009, esse número estaria em volta de 85.368 pessoas – o equivalente a 22% da população brasileira.

Milhares em um

Para muitas mulheres, o sentimento de maternidade começa quando as duas barrinhas do teste de gravidez aparecem. A partir dali, sonhos e desejos vão tomando forma mês a mês até a concretização do início de uma nova vida. A morte do bebê após o parto ou um aborto logo no início desse processo interrompe repentinamente o futuro.

“Ter um filho é uma das relações mais projetivas pelas quais a gente passa. Nós projetamos no outro uma serie de expectativas. Quando um filho morre, tudo isso morre junto, mesmo que você tenha outros filhos sobreviventes. É uma experiência muito mutilante”, afirma a psicóloga Gabriela Casellato, especialista em luto familiar, do Instituto Quatro Estações.

Por reunir todos esses sonhos, Gabriela explica que o luto parental é complexo. “Não é só a perda do filho em si, mas as várias perdas secundárias e não menos importantes. É o aniversário de um ano que ela nunca fará, os primeiros passos que aquela criança nunca vai dar”, diz.

E os sentimentos que afloram nesse momento independem de quanto tempo aquela gestação ou aquela vida durou. “É comum banalizar a perda do feto, deixar com uma importância menor do que tem”, relata a pediatra Jussara de Lima e Souza, coordenadora da UTI neonatal do CAISM (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher, da Unicamp).

“Não é só perder um bebê que eles acabaram de conhecer. Cria-se um vínculo que não é proporcional ao tempo de gestação.”

Quem passa por um aborto costuma ouvir frases do tipo: “Não chora, você pode ter outro”, “Mas você nem chegou a conhecer”, “Ainda bem que morreu cedo, assim vocês não se apegaram”, entre outros argumentos que só fazem dessa uma experiência ainda mais silenciosa. “A dor passa a ser calada já que o vínculo não é socialmente reconhecido”, afirma Gabriela. É como se a sociedade estivesse negando o direto ao luto e querendo mostrar que aquele sentimento é inadequado.

A interiorização desse sentimento pode abrir espaço para depressão, ansiedade, problemas conjugais, relações com os filhos futuros e um maior isolamento social. Também abre caminho para processos jurídicos, já que algumas mães, como é o caso de Márcia Helena, reivindicam juridicamente o “adeus” que nunca poduderam dar ao bebê .

Luto concreto

Na França, os hospitais são encarregados do corpo de bebês que morreram logo após o nascimento ou foram abortados. Para esses pais, sem direito a velório ou caixão sobre o qual chorar, o serviço funerário organiza uma cerimônia a cada três meses. No Brasil, a solução para alguns destes casos é responsabilidade do hospital. Em geral, os fetos são incinerados ou, caso seja vontade da mãe, doados para pesquisa.

Apesar de o luto ser vivido de forma individual, os casais que passam por essa situação tem de poder escolher se querem ou não concretizá-lo e de que maneira querem fazer isso. “Eu converso com as mães que perdem os filhos na sala de parto, se elas não querem vê-los, se despedir deles”, afirma Jussara. As crianças que estavam internadas e faleceram são colocadas nos braços da família. “Particularmente acho importante ter um momento de despedida, em que se possa ter a ideia concreta da perda. Não sei se esse tempo é longo ou curto, só sei que é sofrido”, completa.

Velório, enterro e outras cerimônias podem ser essenciais para o momento. Para Gabriela Cassollato, o mais importante é que o luto possa ser vivido em sua plenitude e o tempo de cada um seja respeitado. “A despedida deve ser gradual e no ritmo do casal. São eles que decidem o que fazer com as roupinhas, com os brinquedos, por exemplo”, afirma.

Paula, a mãe de Carolina, sente por não ter dado na filha um último beijo e nem dito o quanto a amava antes de sair da sala para dar lugar aos médicos. “Apesar de saber que o procedimento era arriscado, na minha cabeça de mãe, mesmo que esse último esforço não fosse suficiente para salvá-la, eu teria a chance de vê-la viva e segurá-la nos meus braços uma última vez. Mesmo diante da inevitável perda, queria poder ter estado ao lado dela até o seu último suspiro. Por mais que possa parecer ingenuidade, eu não entendi em momento algum que ao deixar a sala não teríamos mais a chance de sentir o corpo quente da nossa menina”, conta.

Quem sou eu?

A morte leva também a identidade da mulher, que se preparou para adotar um papel que não tem como realizar. “Eu tive um caso de uma moça que perdeu o filho. E ela me dizia: ‘eu tenho corpo de mãe, mas não tenho bebê, não sou só uma recém-casada, não sei mais quem sou’.” A mãe que ela poderia ser se vai junto com aquele bebê.

“É preciso pensar a situação de luto de uma forma ampliada: não é só a perda de um ente querido, mas a perda de uma função”, reforça a psicóloga Patricia Bader, do Hospital São Luis.

Para ajudar

Ouvir e respeitar. São essas as duas regras básicas na convivência com pais em luto. Na angústia de tentar encerrar aquele sofrimento, amigos e familiares podem piorar a situação. Neste momento, as especialistas recomendam oferecer ajuda sem, no entanto, ser invasivo.

“Não devemos impor um significado para aquela perda. Um olhar ou um abraço podem ser melhores do que várias frases. Se oferecer para fazer a compra do supermercado, pagar contas, fazer tarefas do dia a dia. Essas coisas práticas podem ser uma ótima ajuda”, aconselha Gabriela. Manter-se sempre presente também é essencial para que esse casal se sinta amparado.

“É comum haver certa dispersão tempos depois do ocorrido e os pais se vêem sozinhos”, completa.

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