Transmissão do HIV de mães para filhos caiu 41% nos últimos 12 anos. Conheça a história de uma jovem que venceu o risco

Andreia ao lado do filho saudável
Arquivo pessoal
Andreia ao lado do filho saudável
Há dois anos, Andréia Fernandes realizou um sonho antigo: ser mãe. Contra todas as previsões leigas e pessimistas, ela assumiu o risco de transmitir para seu filho – e de conviver com a culpa se isso acontecesse – o HIV que há oito anos descobriu ser portadora.

Apesar das críticas de alguns médicos e amigos, Andréia defendeu seus direitos reprodutivos. Com o acompanhamento cuidadoso no pré-natal e as medicações recebidas no centro de saúde onde foi atendida, seu filho nasceu saudável.

“Quando peguei o resultado definitivo do teste dele e vi que tinha dado negativo, a sensação foi de tirar quilos dos ombros. Eu tinha feito tudo certo, mas há um pensamento de culpa que fica até o dia do resultado. Venci mais essa”, afirma a jovem, hoje com 28 anos.

Andréia contribuiu para uma estatística que, para o Ministério da Saúde, é motivo de comemoração. Desde 1998, a taxa de incidência de aids em crianças menores de cinco anos de idade caiu 40,7% (passou de 5,9 para 3,5 casos por 100 mil habitantes). É por esse índice que o órgão monitora a transmissão do HIV de mães para filhos – a transmissão vertical.

Entre 1980, quando a aids foi identificada, e 1997, 4.640 crianças menores de cinco anos foram diagnosticadas com a doença. Em 1998, outros 947 casos nessa faixa etária foram identificados. De lá para cá, o número de infectados por ano vem diminuindo. Em 2010, chegou a 482 e, até junho deste ano, outras 178 crianças receberam o diagnóstico.

A taxa de transmissão vertical de 3%, de acordo com o diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Dirceu Greco, está dentro das metas estabelecidas pelo órgão. Até 2015, o Brasil se comprometeu a eliminar a transmissão vertical o que significa reduzir o índice para menos de 1%.

“Não é fácil, mas é factível. A transmissão vertical já chegou a ser de 30% e hoje há vários serviços que não têm mais transmissão nenhuma. O tratamento é extremamente eficaz”, ressalta.

Greco lembra que os testes rápidos oferecidos durante o pré-natal, a medicação tomada pela mãe no período, os cuidados durante o parto e o tratamento dos recém-nascidos têm feito a diferença para os bons resultados.

Garantir recursos para testes e medicamentos é essencial para o sucesso desses tratamentos. Porém, ainda há desafios. A queda não ocorreu de forma homogênea pelo Brasil. Em 2010, a maior taxa de incidência de aids em menores de cinco anos ocorreu na região Norte (5,1 em cada 100 mil), seguida pela região Sul (4,6), o maior número de casos no ano passado. O Nordeste aparece em seguida, com 3,4 casos em 100 mil habitantes.

“Oferecer um pré-natal de qualidade em todo o País é um desafio para nós. A Aids está concentrada em cidades maiores, mas já chega em cidades pequenas. Os testes rápidos que serão distribuídos farão uma diferença muito grande e a comunicação também tem papel fundamental nisso”, destaca Greco. Serão distribuídos 4,5 milhões de testes rápidos para Aids e sífilis pela Rede Cegonha.

Falta informação

Estudante de Serviço Social e militante da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids, Andréia acredita que os direitos reprodutivos são negados às mulheres soropositivas. Em unidades de saúde de todo o País, a maternidade não entra na pauta de médicos e pacientes.

“Mesmo entre os profissionais de saúde, falta informação sobre o vírus. Falta também um serviço de reprodução assistida no SUS, para que os soropositivos sejam pais e mães. Hoje, as pessoas se expõem, assumem riscos para realizar o desejo da maternidade”, critica.

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Andréia relata o risco que o pai de seu filho correu, transando sem camisinha, para que ela ficasse grávida. “Ele correu o risco, mas não se infectou”, conta.

Depois de enfrentar uma depressão quando soube que tinha o vírus no organismo, aos 20 anos, Andréia luta para que os direitos dos soropositivos sejam respeitados. “Com o trabalho em uma organização não-governamental, vi que não estava sozinha e estudei o que eu tinha, para entender o que aconteceria comigo a partir dali”, afirma.

No mundo

Relatório da Organização das Nações Unidas divulgado nesta quarta-feira mostrou que, no mundo, apesar da queda na transmissão de mães a filhos, cerca de 3,4 milhões de menores vivem com o HIV. Além disso, 48% das grávidas infectadas receberam medicação eficaz para evitar a transmissão ao bebê e 6,6 milhões de pessoas portadoras do vírus em países pobres e em desenvolvimento estão em tratamento.


Transmissão vertical por região

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