Coração mais “emotivo” e pouco estudado pela ciência explica a diferença

O coração feminino é cheio de particularidades. Ele se apaixona mais, sofre um bocado, fica angustiado, bate apertado. A ciência agora descobriu que, também por ser mais suscetível às emoções, o músculo cardíaco das mulheres é bem mais frágil diante das turbulências da saúde.

Brittany Murphy morreu de infarto aos 32 anos. Quanto mais jovem a vítima, mais fatal é a doença
AP
Brittany Murphy morreu de infarto aos 32 anos. Quanto mais jovem a vítima, mais fatal é a doença
Os infartos são até 50% mais fulminantes em mulheres do que em homens. Em todas as faixas etárias, elas morrem mais do que eles por causa das panes cardíacas. Enquanto na população feminina do País a taxa de mortalidade é de 17,95 casos para cada 100 pessoas internadas, na masculina, a média cai para 11,89 casos no mesmo universo de hospitalizações.

A “culpa” da liderança feminina na falência cardíaca não é só resultado da síndrome do coração partido (nome já adotado pela classe médica para tratar do assunto). O histórico da medicina também contribuiu para o cenário, afirma a cardiologista Elizabeth Regina Giunco Alexandre, médica do Instituto Dante Pazzanesse de Cardiologia e autora do estudo sobre morte por infarto na população feminina.

“Em média, todas as pesquisas que já foram feitas sobre infarto usam 70% de pacientes homens e apenas 30% de mulheres”, afirma ela. “São esses ensaios científicos a base para criar tratamentos, técnicas de prevenção e até elaborar medicamentos para os infartos. Mas se o organismo masculino é tão diferente do feminino - basta comparar o aparelho reprodutivo - a área cardíaca provavelmente também não é igual. O que funciona para os homens nem sempre funciona para as mulheres”, completa.

Propor uma abordagem diferente às pacientes femininas, capaz de reverter a predominância de mulheres que não sobrevivem aos infartos, é o tema central do Congresso da Sociedade Paulista de Cardiologia que começa nesta quinta-feira, dia 29. Um dos palestrantes do tema, o cardiologista Antônio de Pádua Mansur, do Instituto do Coração (Incor), diz que já há uma tendência mundial de inserir mais mulheres em protocolos de pesquisas clínicas e também de conscientizar os especialistas para o reconhecimento dos sinais de problemas no coração delas.

Doença de “mulherzinha

Além de serem mais escassas nos projetos de pesquisa, as mulheres também não se reconhecem como possíveis vítimas de infartos. Nem elas, nem os médicos, alertou um estudo francês que acaba de ser publicado no American College of Cardiology (uma das principais publicação da área).

A análise de 3 mil mulheres concluiu que elas têm duas vezes mais riscos de morrer de infarto após 30 dias do que os homens e o motivo é que “as pacientes do sexo feminino dificilmente recebem as mesmas análises e tratamentos dados rotineiramente nos homens”.

Outro complicador é que os sintomas clássicos que anunciam o infarto, dor no peito que erradia para o braço, variam nas mulheres. “Elas podem ter falta de ar e uma dor na boca do estômago, confundidos com problemas digestivos. Isso faz com que demorem mais para procurar ajuda especializada”, afirma a cardiologista Elizabeth, do Dante.

Quanto mais jovem, mais fatal

A lista de problemas que explica a vantagem feminina nas sequelas graves do infarto ganha mais fatores entre as mais jovens. Antes dos 40 anos, inclusive, é registrada a maior diferença estatística de mortalidade por doenças cardíacas na comparação entre homens e mulheres.

De 30 a 39 anos, a taxa de mortalidade delas representa 13,33% do total de internações, enquanto, nos homens, cai para 5,61%. A explicação é que quanto menos idade, menos proteção tem o coração feminino. O grande vilão, entretanto, é o cigarro. Se combinado com o uso de pílula anticoncepcional, então, os riscos são triplamente aumentados.

“Os anticoncepcionais orais são superseguros. Orientamos as mulheres para que elas escolham, no entanto, se querem fumar ou usar pílula. Os dois juntos não são indicados”, recomenda Nilson Melo, presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

No final do ano passado, a atriz Brittany Murphy entrou para as estatísticas de mortes por enfarte aos 32 anos de idade. No Brasil, levantamento feito pelo Delas no portal do Ministério da Saúde, o risco da doença está mais comum em todas as faixas etárias. Entre 2008 e 2009, as internações subiram 6,22%, passando de 78.714 para 83.941. Em janeiro deste ano, já foram contabilizadas 7.049 hospitalizações femininas.

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