Projetos paralelos ao tratamento dão suporte emocional ao paciente e elevam as chances de cura

Internautas podem participar do Doe Palavras pelo Twitter ou no site do projeto
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Internautas podem participar do Doe Palavras pelo Twitter ou no site do projeto
“Nossos pensamentos positivos te levam cada dia mais longe.” A frase pode soar clichê quando lida sem contexto. A mensagem acima foi enviada a pacientes em tratamento de câncer no Hospital Mario Penna, em Belo Horizonte, e faz parte de um projeto de humanização hospitalar da Instituição.

Ações simples, que buscam aproximar o médico do paciente, oficinas paralelas que oferecem apoio moral durante todo o processo da doença, embora ainda não tenham dados numéricos de seus efeitos benéficos no tratamento, apresentam, segundo especialistas, um resultado visivelmente positivo do ponto de vista clínico: reduzem o tempo de internação dos pacientes e ajudam no processo de cura.

Para o superintendente do Hospital Mario Penna , Cássio Eduardo Rosa Resende, mensagens de apoio dentro do ambiente hospitalar, mesmo que de remetentes desconhecidos, têm seus efeitos positivos multiplicados.

“O câncer abala, debilita. Qualquer forma de manifestação de carinho, solidariedade ajuda na defesa imunológica. O estado de fé e esperança contribui para melhorar a energia, dá estímulo pra sair do quadro mais rapidamente e eleva as chances de cura.”

A iniciativa do hospital mineiro é uma espécie de trabalho voluntário virtual. Com 12 televisores instalados nas salas de quimioterapia e radioterapia, em duas unidades do hospital e uma casa de apoio, pessoas de qualquer lugar do mundo podem enviar textos curtos, citações que melhorem a autoestima e dêem conforto, alegria aos pacientes em tratamento.

“O resultados é visível e imediato. As mensagens são uma forma de entretenimento. Eles esperam, aguardam pra ler o que será publicado e vibram com o conteúdo oferecido", exalta Resende.

A comoção é triplicada quando os pacientes recebem o apoio virtual de famosos. A cantora Ivete Sangalo, o vice-presidente da Republica José Alencar e o apresentador Luciano Huck já participaram. “A reação é de alegria, animação. Eles ficam felizes quando reconhecem o post de alguma celebridade.”

As mensagens são enviadas pelo site doepalavras.com.br ou pelo Twitter. Nas duas ferramentas, há um espaço de 127 caracteres para que as notas sejam postadas. Mais de 20 pessoas trabalham no monitoramento do conteúdo, disparado para as unidades através de um software. A equipe é responsável por aprovar as mensagens enviadas."Não há censura, apenas controle para evitar má fe, humor negro." diz o superintendente. O conteúdo é armazenado em um banco de dados, e permite que mesmo sem novas postagens, os pacientes não fiquem sem o "conforto" 24 horas por dia.

Com apenas um mês de existência, Resende revela que mais de 170 mil mensagens já foram lidas pelos pacientes do Mario Penna, e 4.000 são publicadas diariamente. “Mensuramos o resultado satisfatório pelo estado de espírito das pessoas, pela reação, pelo comportamento.”

A idéia do Doe Palavras é compilar as mensagens e transformá-las em um livro, que deve ser distribuído para outras instituições do País.

Hospital ou hotel?

Em 2009, José Vanderlei Siqueira, 57, foi levado às pressas para o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) . O diagnóstico de câncer no pâncreas foi confirmado algumas horas depois. O atendimento emergencial impediu Siqueira de participar do Programa Acolhida.

A psicóloga e coordenadora de humanização do Icesp, Eliana Ribas, explica que a proposta desse projeto é receber o paciente da forma mais carinhosa possível, tratá-lo como um hóspede.

“Temos o serviço de check in e check out, da mesma forma que um hotel. O paciente é bem-vindo, precisa ter confiança na equipe, na Instituição. Assim que ele chega, um concierge o acompanha até o quarto, apresenta o hospital, as salas de entretenimento, as oficinas. Depois, ele é recebido pelos médicos para que possa tirar todas as dúvidas sobre o tratamento.”

Após o susto inicial e com os sintomas da doença controlados, a equipe de especialistas foi até o quarto de Siqueira, explicou o que era a doença e como seria feito o tratamento. “O médico foi conversar comigo. Eu não sabia o que tinha, precisava de esclarecimento, atenção, carinho. Tive tudo isso. Essa atenção especial ajuda a controlar o medo, a ansiedade e acreditar na cura.”

Segundo Eliana, a proposta do Icesp é transpor, na medida do possível, a rotina do paciente, o ambiente caseiro, para dentro do hospital. “Oferecemos mais de 50 programas de humanização. Tratamos da autoestima dos pacientes, prezamos pelo bem-estar dos acompanhantes e também trabalhamos a qualidade de vida dos nossos profissionais. O envolvimento emocional dá segurança, é fundamental para a saúde dos pacientes.”

Troca de experiências

Vanessa Gomes teve suporte do projeto Amor à vida no hospital A.C Camargo
David Santos Jr/FOTOARENA
Vanessa Gomes teve suporte do projeto Amor à vida no hospital A.C Camargo
A humanização na medicina tem focos e metodologias variadas em cada Instituição, mas o objetivo parece ser senso comum. Em São Paulo, o Hospital A.C Camargo reúne semanalmente mais de 40 mulheres no programa Amor à Vida.

Todas as sextas-feiras, Vanessa de Cássia Lapo Gomes, 35, procura ir às palestras do projeto. Em 2009, após já ter confirmado o diagnóstico de esclerose múltipla, a comerciante teve que encarar um câncer de mama maligno. No grupo de apoio, conseguiu ajuda para enfrentar os efeitos colaterais do pós-cirúrgico e da quimioterapia.

Segundo Vanessa, as experiências de outras pacientes deram coragem para que ela raspasse a própria cabeça, com a ajuda da filha de seis anos. “Tive tanta segurança, aprendi a usar lenço, me deixar bonita, gostar de mim, contornar os danos da doença. Passei tudo isso para minha filha, que encara essa fase com tranqüilidade.”

Fabiana Makdissi, mastologista do A.C Camargo, defende a humanização e participa ativamente dos projetos, pois acredita que em gente feliz, o tratamento dá certo. “Essas reuniões apresentam o hospital, a equipe, abordam temas desconhecidos pelos pacientes, ajudam a não perder a vaidade, permitem a troca de experiências. O carinho dos médicos dá força, equilíbrio emocional. Não podemos dizer que essas ações blindam o sistema imunológico, mas os resultados, embora ainda não mensuráveis, são efetivos e duradouros. Em paciente feliz, o tratamento dá certo."

Estatísticas só na pediatria

O Hospital Pequeno Príncipe , em Curitiba, é uma das poucas instituições que conseguiu medir a eficácia da humanização hospitalar. O Projeto Família Participante é monitorado há mais de 10 anos. Segundo Tatiana Forte, coordenadora do programa, incluir a presença dos pais e parentes no tratamento da criança diminuiu a média de internamento de 15 para 4,7 dias. Os dados são medidos mensal e anualmente.

“A presença dos pais, as oficinas de apoio, o acompanhamento escolar dão qualidade de vida a criança doente. Ela tem melhores condições de lidar com o tratamento e essa aceitação eleva os níveis de imunidade.”

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