Obsessão com a maternidade ou medo dela podem gerar distúrbios como a gravidez psicológica, tema abordado em Ti-ti-ti

Luisa, personagem da novela Ti ti ti, não aceita que sofre de gravidez psicológica
Divulgação Rede Globo
Luisa, personagem da novela Ti ti ti, não aceita que sofre de gravidez psicológica
Na maioria das vezes, as novelas globais pouco traduzem o retrato da realidade. Na trama Ti-ti-ti, porém, uma das personagens possui um componente verossímil. Luisa, interpretada pela atriz Guilhermina Guinle, sofre de gravidez psicológica .

Embora a doença não seja um novo drama da mulher moderna – pelo contrário, é antiga, com registros nos relatos do psicanalista Freud – ela facilmente combina com os dilemas femininos atuais.

O nome é autoexplicativo. A mulher fantasia uma gravidez, sente todos os sintomas típicos da gestação e, em alguns casos mais agudos, tem dificuldade para aceitar que o bebê não passa de imaginação.

Romper com a ficção, para essas pacientes, requer um trabalho conjunto entre ginecologistas e terapeutas. Ao crer-se gestante, o cérebro da mulher faz com que o corpo trabalhe na reprodução da fantasia, explica o psicanalista do Hospital Nove de Julho, Catulo Barros.

O hipotálamo é uma parte do cérebro intimamente ligada à produção hormonal. É ele quem emite neurotransmissores, uma espécie de mensagem, responsável por determinar diversas reações do organismo.

Na gravidez psicológica, explica o especialista, o cérebro, convencido da ilusão, manda mensagens para o corpo, que passa a vivenciar a gestação. A mulher produz leite, o abdômen cresce, ela sente enjôos e desejos repentinos.

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Para algumas pacientes, a ultrassonografia é um choque de realidade suficiente. A abordagem do obstetra, porém, deve ser cuidadosa, acolhedora, defende Barros.

“O gatilho do transtorno é quase sempre emocional. Essas mulheres estão angustiadas, deprimidas. É preciso que o profissional passe segurança e indique um acompanhamento psicológico.”

Quando o quadro é mais severo, a paciente tende a achar que o profissional consultado inicialmente está errado, e permanece em busca de outro obstetra. Tais casos exigem tratamento com antidepressivos durante aproximadamente quatro meses, além de acompanhamento do terapeuta.

“Tratar o psicológico é fundamental. Enquanto a mulher está no processo de sair da idealização, ela ainda sofre, tem dificuldades de aceitar que criou a doença. Quando consegue romper com isso, resolver as questões, ela fica tranquila e aceita, humildemente, que os nossos desejos podem alterar o nosso corpo.”

O fenômeno não é exclusivo das mulheres. Os pensamentos podem modificar e induzir diversas reações no organismo. Segundo Barros, em situações limites, até mesmo um homem, para salvar a vida de uma criança recém-nascida, na falta total de recursos, pode produzir leite. As glândulas mamárias masculinas são atrofiadas, mas em casos desesperadores, o cérebro é capaz de estimular e permitir a amamentação.

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Extremos

Embora não exista uma relação de causa e efeito direta, dois contextos sociais são favoráveis ao problema. Nos tempos de residência médica, em um hospital público de São Paulo, o obstetra do Hospital Sírio Libanês, João Antônio Dias Junior, atendeu a uma paciente com cólicas fortes, dores e supostamente entrando em trabalho de parto. O exame clínico, porém, demonstrou que ela não estava grávida.

“Em alguns casos o transtorno se dá por falta de conhecimento sobre a importância do pré-natal.”

Hoje, o contexto da mulher moderna - que posterga a gravidez  mas sonha em ser mãe ou teme a maternidade - são situações favoráveis ao distúrbio.

Catulo Barros afirma que a gravidez psicológica tende a acometer grandes executivas, que atropelaram o emocional em função da carreira. “Essa cultura milenar da mulher como reprodutora ainda se mantém viva. A identidade feminina pode ficar abalada em determinada fase da vida.”

A incidência para os casos mais severos, entretanto, é baixa. Aproximadamente a mesma que existe nos quadros de depressão e ansiedade: 4% da população feminina pode sofrer tal distúrbio, explica Catulo Barros.

Vale aletar, porém, que sentir-se grávida e apresentar sintomas leves não define o quadro de gravidez psicológica, explica Osmar Ribeiro Colas, obstetra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “O receio de gravidez pode atrasar a menstruação, favorecer os sintomas. Sentir-se grávida é normal, mas a ficção desmorona rapidamente.”

Barros corrobora com a ressalva de Colas. Para o psicanalista, o sintoma é um fenômeno emocional que faz parte da humanidade, mas não compõe o quadro, é apenas uma sensação de curta duração.

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