Amanda estava no 8º mês quando o órgão se rompeu. A doença é rara e mata na maioria dos casos, mas esta história teve final feliz

“Larguei minha vida para ficar no hospital. Saí do trabalho, esqueci de mim. Amanda é a minha razão, meu chão. Não consegui nem conseguiria viver sem ela”. Este parece ser o relato de um homem apaixonado. Mas, muito mais que isso, é de um pai e um esposo angustiado, que viu o sonho da paternidade ser ameaçado por uma doença rara e que mata na maioria dos casos.

A secretária Amanda Arantes, de 33 anos, teve uma gravidez tranquila. Quando estava na 32ª semana de gestação (o equivalente ao oitavo mês), começou a sentir fortes dores no estômago. “Achei que tinha comido algo ruim. A dor persistiu e, por recomendação do meu médico, fui para o hospital. Essas dores já eram contrações. Fiquei uma semana internada e voltei para casa, para ficar mais cinco dias em repouso”, comenta.

Bruna é uma menina saudável e não apresenta
nenhuma sequela
Arquivo pessoal
Bruna é uma menina saudável e não apresenta nenhuma sequela

Só que as dores voltaram e desta vez na nuca e no abdômen. Mais uma vez voltou ao hospital. Exames médicos apontaram uma forte anemia e uma mancha escura acima do fígado. “Naquele instante decidimos pela cirurgia. Embora a paciente não tivesse o quadro clínico de ruptura hepática, desconfiamos do problema. Em 40 minutos montei a equipe e partimos para a cirurgia”, explica o obstetra Alberto D’Auria, diretor da Maternidade Santa Joana, em São Paulo.

Momento crucial
Era uma questão de minutos para salvar a vida da mãe e da pequena Bruna. Para ser mais exata, dois minutos para abrir o abdômen da gestante, retirar o bebê e cortar o cordão umbilical. Geralmente, os médicos levam de quatro a cinco minutos para realizar o procedimento. O tempo limite era por causa da anestesia geral, que precisava ser dada para avaliar o problema no fígado.

“A anestesia reduz o fluxo sanguíneo no cérebro do feto, deixando sequelas irreversíveis. Fizemos uma incisão mediana, diferente da cesariana, para colocar compressas no órgão. Por causa da ruptura e da cirurgia, Amanda perdeu 18 litros de sangue”, conta o obstetra. Dois dias depois, uma nova operação precisou ser realizada para retirar essas compressas.

Mas este não era o fim do martírio de Alexandre Paton, pai de Bruna. Complicações do quadro clínico e infecções inerentes aos dois procedimentos surgiram e levaram à equipe da maternidade a manter Amanda em coma induzido por 88 dias. A doença é raríssima e somente 120 pessoas no mundo inteiro tiveram o problema sem apresentar um aumento da pressão arterial. 98% das vítimas não sobrevivem.

Sem se alimentar direito, Alexandre emagreceu
12 quilos, largou o emprego e ficou quase 4
meses morando no hospital
Arquivo pessoal
Sem se alimentar direito, Alexandre emagreceu 12 quilos, largou o emprego e ficou quase 4 meses morando no hospital
Conhecida como Síndrome de Hellp, a ruptura hepática ocorre por causa da hipertensão arterial, por distúrbios de coagulação ou tumores pré-existentes que desencadeiam a situação de emergência. “A única forma de prevenção é fazer o pré-natal corretamente, cuidar da hipertensão arterial e escolher uma boa maternidade, que tenha infraestrutura para atender casos de emergência”, recomenda Alberto D’Auria.

Enquanto a mãe lutava pela vida, Bruna teve alta e não pode ser amamentada. O pai passava o dia no hospital mesmo só tendo direito a duas visitas no período. “Lá dentro de mim sentia que, estando perto, ela se sentiria amparada. Ouvi muitas coisas como ‘se prepara’, mas nunca deixei de acreditar que Amanda ficaria entre nós. Por incrível que pareça, em minhas orações cheguei a brigar com Deus”, relata Alexandre, que emagreceu 12 quilos.

Quando Amanda acordou, encontrou à sua volta inúmeras fotos da família, de momentos alegres e da pequena Bruna. “A sensação era que tinha acordado da anestesia e que tinha acabado de dar a luz. Olhei aquele bebê e pensei: ‘que menina linda. Quem será?’. Mal eu sabia que era a minha filhinha”, diz emocionada.

O mural serviu como uma corrente de energia positiva para a paciente. “Mesmo estando em coma, Amanda abria os olhos de vez em quando. O cérebro registra isso como um estímulo, equilibrando os radicais livres, e o coração passa a bater de uma forma mais cômoda. O marido dela teve papel fundamental em sua recuperação”, relata o obstetra.

O sufoco enfim acabou. Mãe e filha estão em casa há cerca de um mês e sem sequelas – somente um probleminha no joelho que Amanda provavelmente já tinha antes de todo este drama.


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