Afetados pelo uso indiscriminado do medicamento querem fim de efeitos colaterais em gestantes

A talidomida é um medicamento lançado em 1957, na Alemanha, para combater inflamações que logo se mostrou eficiente para combater os enjôos matinais.
Logo caiu no gosto das gestantes, mas sem pesquisas clínicas eficientes, os efeitos colaterais nos bebês não foram calculados.

No Brasil a droga também chegou com sucesso perto dos anos 60 e, tempos mais tarde, a chamada “geração talidomida” estava formada. Entre as sequelas, a má formação congênita é a principal, em especial dos membros superiores e inferiores.

A droga foi proibida para gestantes mas ainda é usada no tratamento de hanseníase – popularmente conhecida como lepra. A administradora de empresas Cláudia Marques Maximino, uma das vítimas do medicamento, preside a Associação Brasileira da Síndrome da Talidomida e, em entrevista ao Delas , comenta os resultados da pesquisa que acaba de mapear o alto índice de gestantes (60%) que não recebe uma única orientação sobre riscos de remédios durante a gravidez.

Para ela, a ciência precisa investir em muito mais pesquisas sobre os efeitos colaterais durante a gravidez. Isso evitará que mais uma nova geração, vítima de outro medicamento, seja formada.

Delas: Qual é o sentimento entre os filhos da talidomida?
Cláudia: Nascer com má formação, seja por qualquer motivo, sempre gera algum tipo de frustração. Os pais esperam uma criança perfeita e, no início, há dificuldade para lidarem com isso. Saber que a má formação é resultado de um medicamento é mais doloroso ainda porque o sentimento é de muita culpa. Mesmo as mulheres que não sabiam dos possíveis efeitos colaterais da talidomida vivem pedindo desculpas para seus filhos.

Delas: Mesmo depois de tanta informação, ainda existem vítimas recentes da talidomida?
Cláudia: É uma luta desde 50 anos. Nós tivemos um boom de nascimentos das vítimas da talidomida entre 1966 e 1998. Depois disso, entre 2005 e 2006, identificamos cinco casos. Neste grupo de nascimentos mais recentes, temos negligência médica e também automedicação. Casos como o de um marido que levou a droga para casa e a mulher tomou sem prescrição.

Delas: A automedicação é de fato um problema brasileiro. Qual a sua avaliação sobre o índice de 60% de grávidas que não recebem orientações sobre os riscos dos remédios na gravidez?
Cláudia: Ao mesmo tempo em que temos uma facilidade enorme em comprar qualquer tipo de drogas nas unidades farmacêuticas, temos dificuldade imensa em conseguir uma consulta no Sistema Único de Saúde (SUS). É preciso equalizar isso. Se a pessoa for esperar passar pelo médico antes de tomar o remédio ela morre de dor. É uma equação desigual cujo denominador comum eu não sei como achar. Eu mesma, que sou vítima dos efeitos colaterais de um medicamento, vivo com dores e já fiz uso da automedicação. Um erro.

Delas: O que é preciso mudar no cenário dos medicamentos?
Cláudia: Falta investir em pesquisa. Em muitos medicamentos já aprovados, o risco de uso em gestantes não foi sequer estimado o risco de uso.

Delas: A conquista mais recente da luta de vocês foi o direito a indenização para os portadores da síndrome da talidomida (em dezembro do ano passado). Como foi conquistar isso?
Cláudia: Foi o reconhecimento de uma longa e árdua luta. Mas tem um outro lado que aparece agora: muitas pessoas que nos procuraram interessadas na indenização não são vítimas da talidomida. De 300 e-mails que recebemos até agora, só dois são vítimas do medicamento. Sei também que muitas pessoas querem entender a causa de suas más formações congênitas, é um anseio. Mas a talidomida não é a resposta para tudo.

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