Projeto trata mulheres que sentem dor ou que não conseguem prazer no sexo

Quando tinha cinco anos de idade, a família de D. C. R não tinha telefone em casa. Usava, na necessidade, o aparelho de um casal de idosos, moradores do andar de cima do sobrado onde viviam, na zona sul de São Paulo. Enquanto a mãe usava o telefone, D. C. R era molestada pelo vizinho, um senhor de 60 anos.

Por medo e culpa a menina não contava para mãe. A esposa do senhor sabia de tudo, mas também se calava. Quando a mãe da menina descobriu, a atitude que tomou foi mudar-se do bairro.

A falta de diálogo e a repressão imposta pela família de descendência oriental fizeram com que a estudante crescesse calada, tendo sonhos, flashes dos acontecimentos da infância. D. C. R, hoje com 21 anos, só foi começar a resolver o trauma quando estava no cursinho, tentando uma vaga em uma faculdade pública de medicina.

Na época, a ansiedade, a timidez e a dificuldade de conseguir passar no tão sonhado vestibular, fizeram com que D. procurasse a terapeuta da instituição de ensino. Foi conversando com a médica que a menina se deu conta do tamanho de seu trauma e as implicações dele na sua vida afetiva e  sexual.

Quando conseguiu entrar na universidade, D. C. R procurou o serviço médico de apoio ao aluno. Após passar novamente por uma terapeuta, ela foi encaminhada para o ambulatório de sexualidade da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), onde conheceu o Projeto Afrodite.

Desde 2005, na Unifesp, a ginecologista Carolina Carvalho Ambrogini, coordenadora do Projeto Afrodite, atende mulheres que foram vítimas de abuso, sentem dor ou não conseguem ter prazer durante a relação sexual. O programa combina as áreas de psicologia, fisioterapia e ginecologia.

Para serem atendidas, as pacientes devem participar de três palestras sobre sexualidade que ocorrem mensalmente no ambulatório de ginecologia da Instituição. Depois, as mulheres que procuram por ajuda, passam por uma triagem para que as médicas identifiquem o problema e indiquem o tratamento mais adequado.

O Programa começou com o foco limitado, voltado apenas para mulheres na menopausa. Segundo a médica, nessa etapa de vida, a dificuldade para ter prazer é maior. “O apetite sexual diminui, a musculatura pélvica é mais flácida e compromete o desempenho sexual.”

O trabalho da fisioterapia, nesses casos, é fundamental. “As mulheres aprendem a fortalecer o músculo pélvico e descobrem que o prazer não tem idade.” Por conta da demanda no atendimento, muitas mulheres procuravam o ambulatório reclamando dos mais variados problemas, o trabalho ganhou um leque ilimitado de abrangência. “Tratamos todos os tipos de problemas ligados à sexualidade da mulher.”

No caso de D. C. R, o histórico repressivo, cultural, somado ao abuso sofrido na infância, provocou hipertrofia da musculatura vaginal, um distúrbio chamado vaginismo. A jovem entrava em pânico quando pensava em ter uma relação sexual.

“Minha mãe me colocava muito medo, nunca tratou o assunto com naturalidade. O pavor de que eu engravidasse e fosse uma vergonha para minha família fez com que eu não pensasse em sexo por muito tempo.”

Reeducação

No ambulatório de sexualidade, a estudante tem acompanhamento semanal com uma terapeuta e uma fisioterapeuta. Maria Angélica Alcides, fisioterapeuta da Unifesp, trabalha diariamente reabilitando mulheres.

O trabalho de fisioterapia na área da sexualidade ainda é muito novo no Brasil. Segundo Alcides, a Unifesp é a única instituição pública que trabalha com esse tipo de tratamento. “Existem muitos aparelhos que ajudam a tratar esses distúrbios, mas no País o tema ainda é novo e o acesso à tecnologia é pequeno.”

O problema de D. C. R é comum dentro do ambulatório. A fisioterapeuta relata que muitas mulheres, por algum trauma do passado, apresentam esse distúrbio. “A dificuldade para ter uma relação é enorme. A contração não é só do músculo pélvico. Elas travam coxa, abdômen e glúteos, o que impossibilita a penetração. São reações típicas de pânico.”, esclarece a especialista.

O primeiro passo da fisioterapia é fazer com que essas mulheres olhem para o próprio corpo. As participantes precisam se conhecer, gostar do que vêem. Não ter medo de se tocar também é essencial. O tratamento é feito com exercícios físicos, aparelhos específicos para estimular o equilíbrio entre relaxamento e contração pélvica. Angélica também ensina controlar a respiração, a ansiedade e orienta a relação sexual, indicando posições que deixem a mulher mais segura e confortável. “Realizamos um trabalho de reabilitação, orientação e educação sexual.”

As pacientes são acompanhadas, em média, durante quatro meses. Inicialmente, as consultas são semanais. Conforme a melhora do quadro, passam a ser quinzenais. O ambulatorio atende mais de 50 mulheres por mês.

Hoje, D. C. R já consegue ter relações sexuais  com o namorado, tem consciência de seu corpo e não encara o sexo como um tabu. "Demorei mais de dois anos para transar com meu namorado, mas já consigo ter prazer e lidar com o sexo de uma forma mais natural."

Relato da dor

A secretária paulista R.P.N perdeu a virgindade aos 17 anos. Mesmo sem nenhum passado de abuso ou repressão, a experiência foi traumática. A menina sentiu muita dor e não conseguiu manter uma vida sexual com o namorado após a primeira vez. Um ano depois, ficou grávida de sua primeira filha, entre as poucas tentativas de ter sexo com o parceiro.

A dor, porém, a impediu de transar durante os nove meses de gestação. O quadro de vaginismo se agravou após um exame de toque, feito poucos meses antes do bebê nascer. O pânico gerado com a experiência ruim fez com que a secretária deixasse de realizar exames de rotina com o ginecologista.

Angélica explica que, no caso de R.P.N, o tratamento combinou atendimento ginecológico com fisioterapia. “A dor durante a relação gerou o vaginismo acentuado. O medo de sentir dor impedia que qualquer tentativa de relação tivesse sucesso, transformando o sexo em algo apavorante.”

Em setembro de 2009, R.P.N começou o tratamento. Segundo ela, as primeiras consultas foram difíceis. Maria Angélica dava como “lição de casa” exercícios de respiração e pedia que a jovem buscasse conhecer o próprio corpo. “Perder a vergonha de si, esquecer o medo e descobrir o próprio corpo não é tão simples”, relata.

Hoje, aos 20 anos, casada com o pai de sua filha, oito meses após o inicio da fisioterapia, ela conta que já consegue controlar o medo, relaxar e ter prazer. Aprendeu também quais posições não provocam dor. Mas confessa que ainda se assusta com a maca. “Ainda travo um pouco, mas já tenho coragem de fazer os exames”.

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