Para especialista, risco maior está na higiene dos óculos usados pela plateia

Óculos: higienização precária pode facilitar a transmissão de conjuntivite
Getty Images/Photodisc
Óculos: higienização precária pode facilitar a transmissão de conjuntivite
A preocupação com a saúde dos olhos não pode ficar de fora do convite para as sessões de cinema em três dimensões. Depois do sucesso Avatar, de James Cameron, outros títulos entram na onda do 3D e trazem a preocupação sobre o impacto do recurso na visão humana.

Nesta sexta-feira, 5 de março, estreia nos Estados Unidos mais um filme em três dimensões, o Alice no País das Maravilhas – do diretor Tim Burton. Outros títulos como Sherek 4, Jogos Mortais VII e Meu Malvado Favorito estão na fila para trazer os efeitos especiais à telona com o auxílio dos famosos óculos.

Pois não é que a pergunta “será que os olhos são beneficiados ou prejudicados pela visão 3D”, muito antes do sucesso de filmes com projeções tridimensionais, já despertava a curiosidade de um oftalmologista da Paraíba?

Osvaldo Travassos de Medeiros, hoje com 65 anos, começou a pesquisar a técnica em 1977, enquanto fazia doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais. Considerado um médico à frente do seu tempo, deu a primeira aula na Universidade Federal da Paraíba em 3D há 12 anos, muito antes de Cameron sonhar com a possibilidade de ganhar um Oscar.

“Os alunos ficavam muito interessados quando distribuía os óculos na sala e começava as apresentações. Era bem mais atrativo do que o Power Point. Fazia e ainda faz sucesso”, se diverte. É fato que a visão 3D, nas pesquisas de Medeiros, eram mais focadas em descobrir maneiras mais eficientes de realizar transplantes de córneas ou exames oftalmológicos mais precisos – duas áreas já premiadas pelas entidades médicas e patenteadas por ele.

Aula em 3D: exposição por até 4 horas não prejudica os olhos
Divulgação
Aula em 3D: exposição por até 4 horas não prejudica os olhos
Ainda assim, desde que os filmes em terceira dimensão invadiram os cinemas, o médico vai às sessões para saber se o uso da tecnologia foi exagerado, se pode ser prejudicial à saúde dos olhos e se as pessoas podem ter segurança nas sessões. No início do ano, uma pesquisa feita pela Universidade de Nortwestern, de Chicago, alertou que a exposição prolongada ao filme 3D podem agravar crises de enxaqueca.

Osvaldo Medeiros, entretanto, discorda. Avatar e Viagem ao Centro da Terra “usaram doses exatas de tecnologia que não chegam a prejudicar os olhos”, afirma. Ele diz ainda que as produções precisam contar com equipes de oftalmologistas para avaliar se não há problemas e faz um outro alerta: “Para não prejudicar os olhos mesmo, é preciso higiene com os óculos. Eles sim podem facilitar a contaminação por vírus ou bactérias". Abaixo, confira trechos da entrevista do professor universitário e membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia.

iG: O senhor assistiu a algum dos filmes dessa nova safra em 3D? O que achou?
Medeiros: Fui às sessões de Avatar e Viagem ao centro da Terra e achei os dois muito bem produzidos. Não percebi em nenhuma das produções um exagero de efeitos especiais que ameaçassem a saúde ocular. Na minha avaliação, não há risco nessas produções. Foi perfeitamente tolerável.

iG: Mas algumas pessoas relataram que ficaram com náusea, dor de cabeça após o filme. Existe este risco?
Medeiros: O uso da terceira dimensão significa uma vantagem muito grande porque dá às pessoas uma ideia da profundidade real e não só parcial, como acontece com as telas convencionais. O que ocorre é que o cérebro funde as imagens captadas por cada olho. Com o recurso dos óculos especiais distribuídos no cinema, as imagens projetadas são isoladas e ampliadas. Isso exige um esforço muscular, ainda mais quando a capacidade de visão de cada olho é diferente uma da outra. Mas o incômodo não é regra. Acontece em casos pontuais.

Medeiros: aulas em 3D desde os anos 70
Divulgação
Medeiros: aulas em 3D desde os anos 70
iG: Além dos muitos filmes, existe a previsão de que até mesmo a televisão exibirá programação em 3D. Nestes casos, a exposição prolongada pode ser arriscada?
Medeiros: Sim. Acredito até que as próprias produções de filmes contem com equipes de especialistas em saúde ocular que avaliam se há ou não risco para a visão, ocorrência de dor de cabeça e outras coisas. No caso do 3D na programação de TV, para não causar mal-estar, será preciso criar horários e programações específicas com conteúdo tridimensional. A exposição por mais de quatro horas pode ser danosa, causar crises de enxaqueca.

iG: Além do impacto na visão, quais outros cuidados precisam ser tomados nas sessões de cinema 3D?
Medeiros: Principalmente cuidados com a higiene. Se os óculos não forem limpos corretamente podem facilitar o contágio de doenças como conjuntivite ou outras inflamações. O ideal é que sejam óculos descartáveis.

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