Obesidade atinge mais o sexo feminino do que o masculino e eleva o risco de gordura acumulada no fígado

A cirrose esteve associada por muitos anos ao consumo exagerado de bebidas alcoólicas. Mas o grande vilão do fígado está mudando. A ameaça agora vem das comidas gordurosas e do excesso de peso.

Um levantamento recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia) revelou que pelo menos 60% dos brasileiros adultos estão acima do peso . E o pior: a obesidade já atinge 12,4% dos homens e 16,9% das mulheres. Neste grupo, a incidência de gordura no fígado pode chegar a 97%.

Gordura abdominal aumenta o risco de gordura no fígado
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Gordura abdominal aumenta o risco de gordura no fígado
Este problema tem aumentado gradualmente nos últimos 30 anos e passou a refletir na causa da cirrose. “Estima-se que pelo menos 20% dos adultos tenham excesso de gordura no fígado e 15% deste grupo, mais cedo ou mais tarde, vai desenvolver cirrose”, afirma o hepatologista baiano Raymundo Paraná, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH).

Na avaliação do gastroenterologista carioca Henrique Sérgio Moraes Coelho, eleito presidente da SBH para o biênio de 2011-2013, a doença hepática alcoólica ainda tem um patamar alto, mas pelo menos está estável.

“Enquanto isso, tem sido preocupante o aumento da doença gordurosa do fígado, comumente associada à obesidade, ao diabetes e à hiperlipidemia (excesso de gorduras no sangue)”, alerta.

Cicatriz no fígado

É normal ter algum estoque de gordura no fígado. “É uma função natural do órgão, ele estoca energia”, explica o infectologista Fernando Lopes, do Hospital das Clínicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“O órgão armazena açúcar (carboidratos) em forma de glicogênio”, detalha o gastroenterologista norte-americano Jaime Michel Aranda, diretor da Divisão de Transplantes da Mayo Clinic, em entrevista ao iG .

Quando há excesso desta gordura, situação comum em pessoas acima do peso, as células do órgão são lesionadas e deixam de funcionar. No lugar delas, surgem fibroses (cicatrizes) e há também o risco de inflamações. “Gordura no fígado com inflamação é chamada de esteatose hepática”, explica Jaime. “Esta doença pode levar a doença crônica do fígado e consequentemente a cirrose hepática”, completa.

Em alguns casos, o paciente pode até desenvolver um câncer de fígado. “O problema é que a doença é pouco sintomática. Ela começa a dar mais sinais quando já está avançada, próxima de uma cirrose”, afirma a médica carioca Nathalie Leite, membro da SBH.

Um dos principais fatores de risco está se tornando o excesso de peso. “Em obesos, a prevalência de gordura no fígado varia entre 60% e 97%, depende do estudo usado como referência”, afirma a especialista. Por isso, quem está fora de forma deve fazer exames constantes, pelo menos uma vez por ano, para verificar a saúde do fígado.

“É preciso reduzir a ingestão de gordura e aumentar a prática de exercícios. Pacientes com complicações decorrentes da cirrose como ascite (barriga d’água) precisam seguir uma dieta de restrição de sódio (aproximadamente 2 g por dia). Também precisam ter uma dieta rica em proteínas para evitar a perda de proteínas e da massa muscular”, recomenda Jaime.

Em crianças

O risco da gordura no fígado é ainda maior em crianças por dois motivos. “Elas costumam ter uma inflamação mais agressiva, que evolui mais rapidamente”, aponta Paraná.

Além disso, a adesão ao tratamento geralmente é menor. “É difícil fazer uma criança mudar sua atitude e passar a praticar mais exercícios ou adotar uma dieta”, acrescenta o médico.

E o pior de tudo é que esse problema também está aumentando. A obesidade já atinge 16,6% dos meninos e 11,8% das meninas com idade entre 5 e 9 anos. O índice aumentou 6,5 vezes desde 1974, segundo o IBGE.

“Quando mais cedo a criança tem gordura no fígado, maior a chance dela ter complicações ainda na infância ou na vida adulta”, afirma Paraná.

Mas não é só excesso de peso

A chamada esteatose hepática não-alcoólica nem sempre é causada por excesso de peso. Pessoas com predisposição genética ou resistência à insulina também podem desenvolver a doença.

“Na resistência à insulina, o paciente está em uma situação que antecede o diabetes”, alerta Nathalia. A gordura no fígado também atinge pessoas relativamente magras, que têm o IMC normal, mas têm acúmulo de gordura visceral, na região do abdômen.

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