A mesatenista Jane Karla Rodrigues é pura superação: aprendeu a lidar com as sequelas da pólio e venceu um câncer de mama

Jane Karla Rodrigues comemora ponto em jogo disputado na Polônia
Arquivo pessoal
Jane Karla Rodrigues comemora ponto em jogo disputado na Polônia
Aos 35 anos de idade, a jogadora de tênis de mesa Jane Karla Rodrigues é uma das mais expressivas representantes brasileiras nos esportes paraolímpicos. Ganhou importantes títulos, nas muitas competições das quais participou.

Sua mais recente conquista aconteceu ontem, 20 de setembro, com uma medalha de ouro histórica no Torneio Individual do Circuito Mundial da República Tcheca, em Ostrava.

Seu sonho agora é estar presente e levar a medalha de ouro nas Paraolimpíadas de Londres, em 2012. “Falta essa vitória”, diz a atleta, que mora em Aparecida de Goiânia (GO).

E pensar que Jane começou a carreira há tão pouco tempo...

Conheça a Enciclopédia da Saúde do iG Saúde

Aliás, quem a ouve falando sobre sua trajetória, com paixão nas palavras e um brilho especial no olhar, nem imagina as dificuldades pelas quais já passou.

Quando estava com três anos, uma febre alta a levou ao médico. Os sintomas pareciam de uma infecção de garganta. Uma semana depois, no entanto, com o enfraquecimento das pernas, foi diagnosticada com poliomielite . “Eu havia tomado as vacinas, mas faltou o reforço”, conta.

Jane parou de andar. A mãe não tinha condições financeiras para bancar sozinha o tratamento de fisioterapia. A menina passou a usar um aparelho ortopédico para ficar de pé, mas não tinha forças nas pernas para se movimentar. “Até que um ortopedista disse que o aparelho não ajudaria: era preciso muitos estímulos para que eu voltasse a caminhar. E minha mãe fez de tudo para que isso fosse possível novamente”.

Consulte o Guia de Exames do iG Saúde

Na infância, via os amigos correndo e alimentava esse sonho. Apesar da perna atrofiada e da limitação de movimentos, sequelas da paralisia infantil, não se intimidou com a vida. “Sempre brinquei, minha mãe nunca me prendeu. Procurava participar das atividades de forma adaptada. Não podia pular corda ou elástico, mas segurava para minhas amigas”.

Até andar de bicicleta Jane aprendeu. “Minhas amigas, duas de um lado e duas do outro, me ensinaram”, lembra emocionada.

Oito anos depois, Jane coleciona inúmeras conquistas
Arquivo pessoal
Oito anos depois, Jane coleciona inúmeras conquistas
E a vida seguiu. Jane casou e teve dois filhos. Cuidava da casa e da família. Em 2003, então com 28 anos, acompanhando o marido nos treinos de tênis de mesa na Associação de Deficiente Físicos do Estado de Goiás (ADFEGO) foi convidada a experimentar alguns esportes adaptados. “Fiz vôlei sentado, basquete na cadeira de rodas, tentei vários. O último foi tênis de mesa. Foi amor à primeira raquetada”, diz.

Pouco tempo após o início de seu treinamento, foi convidada a integrar a equipe de tênis de mesa do Parapan - era a segunda edição do evento para atletas portadores de deficiência física e visual das Américas, realizada em Brasília (DF). “Era mesmo só pela exigência de completar o grupo. Não joguei, mas foi um grande momento para mim. Pude ver grandes atletas em ação e coloquei na cabeça que teria de treinar muito para fazer igual, até chegar às Paraolimpíadas”.

Jane passou a treinar com afinco e tornou-se uma grande representante do tênis de mesa. “A cada participação nos campeonatos tinha mais vontade de obter bons resultados. Descobri que era competitiva, queria melhorar cada vez mais”.

Veja também o Guia de Primeiros Socorros do iG Saúde

Brilhou em competições regionais, nacionais e internacionais. Entre as grandes conquistas estão duas medalhas de ouro no Parapan do Rio (2007), troféu de melhor atleta das Américas (2007 e 2009), participação nas Paraolimpíadas de Pequim (2008) e terceiro lugar do16º Nahe Cup na Alemanha (2008), jogando contra atletas sem deficiência. Depois de ganhar medalhas no continente Americano conseguiu em 2008 sua primeira medalha na Europa, no German Open. Em 2010 completou os continentes ganhando medalha de prata em Taipei Open, na Asia.

Durante a preparação para os jogos em Pequim, Jane Karla, então separada do marido, foi fazer um treinamento na Alemanha. “Foi ali que conheci o amor da minha vida”, revela feliz. Era ninguém menos do que o treinador responsável por ministrar o curso aos atletas, o alemão Joachim Gögel.

Com os filhos Lucas, 11 anos, Lethicia, 8, e o segundo marido, Joachim Gögel
Arquivo pessoal
Com os filhos Lucas, 11 anos, Lethicia, 8, e o segundo marido, Joachim Gögel
“Eu não sabia falar inglês, muito menos alemão. Ele me convidou para tomar um sorvete e levou o computador para colocar as palavras no tradutor. Teve muita paciência”.

De volta ao Brasil, continuaram se falando. Namoraram e hoje estão casados.

Em 2009, a atleta obteve mais conquistas: venceu no Parapan de Tênis de Mesa, disputado na Venezuela. E a partir dali seu objetivo passou a ser o título mundial na Coreia do Sul, em 2010. E começou a treinar forte.

No início de 2010, acompanhando a mãe em um tratamento de câncer de mama , também descobriu um tumor no seio. “Era um tipo agressivo, felizmente descoberto no início”. Rapidamente submeteu-se a cirurgia e iniciou o tratamento de quimioterapia . “Precisei ser forte para minha mãe não se abalar ainda mais. Mas de vez em quando me fechava no quarto, chorava, sentia medo”.

Afastada do tênis de mesa, perdeu a chance de participar de alguns torneios. Em meio ao tratamento do câncer , que aos poucos indicava a regressão da doença, foi autorizada a voltar aos treinamentos e participou do Brasil Open, competição realizada no Rio de Janeiro. “Ganhei duas medalhas de ouro e uma de bronze. Foi uma grande emoção subir ao pódio. Não me controlei e chorei muito. Foi como ganhar a primeira medalha da minha vida. Isso renovou minhas esperanças”.

Acompanhe o @delas e o @igsaude no Twitter

O esporte para Jane Karla representa pura superação. “Contribuiu para minha reabilitação e elevou minha auto-estima. Eu era apenas uma dona de casa e hoje sou atleta. Sinto muito orgulho de mim. A cada dia supero meus limites e vejo que a gente pode tudo na vida, basta acreditar”.

Recuperada do câncer e mais determinada do que nunca, agora ela se prepara para participar dos Jogos Parapan-americanos, em novembro, em Guadalajara, no México. “Vou garantir a vaga para as Paraolimpíadas de Londres”.

Conheça outras histórias de superação

Maria Eugênia Lara sobreviveu à dependência do crack
Fabio recebeu um rim do pai e livrou-se da hemodiálise
Ana Carina Perez só tinha 1% de chance de vida e largou o cigarro
Fauzer Simão superou a obesidade correndo
Victor nasceu com menos de 700 gramas e hoje esbanja saúde

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.