A artista plástica Denise Berretta, uma das vítimas do silicone PIP, trocou a prótese, mas ficou com cicatrizes e dores

Denise Berretta: luta para ser ouvida pelas autoridades no caso das próteses PIP
Arquivo pessoal
Denise Berretta: luta para ser ouvida pelas autoridades no caso das próteses PIP
Para a artista plástica gaúcha Denise Berretta, 56 anos, a decisão de colocar próteses de silicone aconteceu somente depois dos 50.

“Casei nova, tive duas filhas, e sempre me cuidei, procurei me manter magra e saudável ao longo dos anos. Mas com o tempo surgiu a vontade de melhorar o aspecto das mamas. Demorei a decidir pelas próteses porque não tinha coragem”, conta Denise, que hoje vive no Rio de Janeiro.

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Com a vida mais tranquila e a situação financeira estável, em 2007 finalmente ela foi atrás de realizar seu sonho estético.

“Fiz muitas pesquisas, queria o melhor para mim. Cheguei ao consultório da minha médica com o nome de uma marca de prótese. Sutilmente ela foi me fazendo mudar de ideia, argumentando sobre outra marca. E após quatro consultas, me convenceu”.

Mesmo assim Denise procurou saber mais sobre a prótese que havia sido indicada – a francesa PIP. “Na época não encontrei nada que desabonasse a marca. Mas se tivesse lido que em 2000 as autoridades sanitárias dos EUA haviam feito um alerta para os riscos dessas próteses mamárias, com certeza não teria colocado”.

Sempre atenta à própria saúde, a artista plástica cuidou de continuar fazendo seus exames anuais. Em 2009 fez a mamografia , passou pela médica e tudo parecia bem. Mas tomando banho, sentiu um caroço no seio esquerdo. Preocupada, ligou para a especialista, que a tranquilizou dizendo que pelos exames estava tudo bem e que o nódulo possivelmente era apenas um linfonodo, algo normal.

“Com essa explicação, achei que não era nada mesmo. E viajei para visitar minha filha na Europa. Quando voltei, já em 2010, ainda com o incômodo no seio, fiz outros exames e em uma ressonância magnética foi constatado o rompimento da prótese”.

Denise, então, buscou novas informações da PIP na internet. “Fiquei apavorada, só encontrei problemas. E a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) havia suspendido a importação, a distribuição, o comércio e o uso em todo o território nacional”.

Em abril de 2010 a agência reguladora emitiu um alerta para profissionais de saúde e pacientes. Leia aqui a notificação. A decisão foi tomada pela Diretoria Colegiada da Anvisa após o alerta sanitário divulgado pela Agência Francesa de Saúde, que detectou um aumento no número de casos de rompimento das próteses. A agência francesa registrou ainda que a empresa utilizava matéria-prima não autorizada para a fabricação dos produtos. No Brasil, as próteses eram importadas pela empresa EMI Importação e Distribuição LTDA.

A artista plástica procurou sua cirurgiã. “Como eu comprei o trabalho dela já incluindo a prótese, não tinha nenhum contato com a PIP. Mas a médica se fez de tonta e disse que iria ligar para a importadora”.

Não satisfeita, Denise também foi atrás. “Fizeram pouco caso, disseram que o rompimento não era uma coisa possível de acontecer. E me ofereceram outra prótese, que obviamente recusei. Falei que iria entrar com um processo por meio de meu advogado e nem se abalaram, nunca me procuraram para nada”.

Enquanto isso, a médica sugeriu a troca da prótese o mais rápido possível, apresentando alguns custos à paciente. “Recusei pagar qualquer coisa e a cirurgiã acabou fazendo a operação sem que eu desembolsasse nada, arquei apenas com o hospital, pelo plano de saúde”.

Mas o estrago no corpo de Denise não havia sido pequeno. O silicone tinha se espalhado, o que levou a uma cirurgia demorada e que deixou enorme cicatriz, além de sequelas como dores, limitação de movimentos e linfonodos inchados.

“E agora ainda terei de fazer outra cirurgia, indicada pelo meu mastologista, para retirar uma tumoração que pode necrosar”.

Paralelamente, a artista plástica travou uma luta por seus direitos e pelo posicionamento das autoridades em relação ao assunto. Começou com uma queixa ao PROCON. O órgão de defesa do consumidor tentou acionar a importadora – sem retorno. Depois Denise entrou com uma ação no Tribunal de Pequenas Causas – que da mesma forma não avançou por não ter conseguido qualquer contato com a importadora.

A Anvisa também foi procurada por Denise, em um primeiro momento por meio da ouvidoria do órgão, no site da agência na internet. “Fiz a ocorrência e recebi um e-mail padrão: ‘em breve entraremos em contato’. Isso nunca aconteceu. Tenho todos os protocolos das minhas tentativas de contato, tudo documentado”.

A artista plástica se diz indignada com o descaso das autoridades. “Me sinto abandonada. Primeiro houve negligência da Anvisa em relação aos critérios para aprovação da comercialização da prótese. Depois, fizeram pouco caso com relação às denúncias e nunca houve qualquer acompanhamento das vítimas. Eu esperava que a Anvisa tivesse dado algum retorno, mostrado algum interesse pela nossa saúde. Muitas mulheres colocaram o silicone por questão estética, mas muitas outras o fizeram em decorrência de uma mastectomia. Foi uma prótese, mas poderia ter sido um medicamento. As autoridades deveriam ter agido”, desabafa Denise.

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Como parte de sua luta, a gaúcha criou uma página sobre as próteses PIP no Facebook e diz que tem recebido muitas mensagens de mulheres preocupadas, pedindo orientações.

“Não sou médica, nem quero fazer alarmismo. Procuro apenas passar minha experiência. Mas recomendo, sim, retirar essas próteses, que se rompidas podem provocar um estrago grande no corpo”.

Para quem pensa em colocar silicone, seja por questões estéticas ou de saúde, Denise aconselha: “Procure um bom cirurgião, que nunca vai usar produtos de segunda linha. O barato sai caro. Exija o certificado da sua prótese, com número de série e lote – os médicos têm que fornecer essas informações. E faça sempre um bom controle médico”.

Em relação ao pronunciamento da Anvisa ontem, em Brasília, Denise diz: "Estão tentando fazer média para remediarem a péssima imagem que ficou. Um órgão criado para preservar nossa saúde, fazendo um papelão desses... Quero ver daqui para frente, na prática, como ficarão as coisas".

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