A escritora Lya Luft e a empresária Helô Pinheiro contam como foi viver o surgimento do anticoncepcional e a revolução que causou

Educação rígida: garota de Ipanema foi criada por militares
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Educação rígida: garota de Ipanema foi criada por militares

Helô Pinheiro

“Eu fui educada por militares, então tive uma educação muito rígida e me casei virgem. Naquela época, isso era o mais comum. Minha avó costumava dizer: 'Querida, não abra o cofrinho para ninguém, ele é seu bem mais precioso até o casamento'. Só perdi a virgindade em 1966, aos 19 anos, na lua-de-mel. Não queria engravidar logo, queria aproveitar o casamento, viajar, curtir o meu marido. Fui ao médico, ele me receitou e eu tomei durante um ano, sem nenhum problema. A gente não ouvia falar da pílula com a credibilidade que ela tem hoje. Havia certo receio porque era algo novo, algumas pessoas pensavam que se tomassem o remédio nunca mais conseguiriam ter filhos. Mas, para mim, foi ótimo, eu viajei, aproveitei bastante.

A pílula ajudou a mulher a se organizar para ter filhos quando realmente tivesse vontade. Antes dela, não tinha outras fórmulas muito seguras. Acho que a liberdade para a mulher passou a existir a partir daquele momento. Elas podiam estar com a pessoa que amavam sem ter de se preocupar com uma possível gravidez. Começava ali uma libertação da mulher, ela ganhava liberdade na vida sexual, sabia que podia ter relações que não engravidaria. Tive muitas amigas que passaram por essa experiência de liberdade sexual.

Eu tive três filhas e o que eu sempre tentei passar para elas com relação à sexualidade é que elas escolhessem o homem certo. Não precisava ser aquele com quem elas iriam se casar, mas sim aquele por quem elas estivessem apaixonadas. Eu sempre frisei que elas deviam se entregar com amor, com consciência. Essa coisa de ficar, de ter relações com qualquer um, eu não acho legal. Quando o assunto anticoncepção veio à tona, eu indiquei a pílula, porque achava mais segura. Todas elas experimentaram e optaram pelo método mais eficiente e conveniente para cada uma. É impressionante o quanto os métodos anticoncepcionais evoluíram, hoje a mulher tem muitas opções, tem até camisinha feminina.”

Sem preconceitos: escritora casou cedo e não deu importância à polêmica sobre a pílula
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Sem preconceitos: escritora casou cedo e não deu importância à polêmica sobre a pílula

Lya Luft

“Eu era uma menina questionadora, mas não em assuntos de sexualidade. Sempre fui tímida e recatada. Não por razões religiosas, pois não praticávamos, mas por querer me guardar para um amor bonito e ter maturidade suficiente. Não tive vida sexual cedo, nem grandes problemas com isso. Dos 15 aos 19 anos tive um namorado, só isso. Em 1963, aos 24 anos, me casei.

Comecei a ouvir falar da pílula quando já era casada. Escutava que a igreja católica proibia, mas também ouvia que o remédio regulava a menstruação. Na época, não dei muita importância porque casei louca para engravidar logo. Iniciei com a pílula depois do segundo filho, pois a primeira e o segundo nasceram com menos de um ano de diferença. Desde que casei ia ao médico regularmente e comprar minha primeira cartela foi natural como comprar aspirina. Não recordo quanto custava então, mas lembro que achei barato. Foi em Porto Alegre, acho que em 1967.

Quanto à polêmica que a pílula causou, a verdade é que nunca dei bola para isso. Não gosto desses preconceitos. Penso que a pílula foi uma grande libertação: a mulher começou a ser responsável por parte de sua vida, não era mais uma máquina de gerar. E podia, se quisesse, ter uma vida sexual mais livre, mais normal.

Com minha filha, que hoje é médica, foi normal também. Ela foi uma adolescente tranqüila, e esses assuntos eram muito naturais em nossa casa. O pai de meus filhos tinha sido religioso, mas era uma linda cabeça, culta e privilegiada. Quando chegou a vez dela, nem comentamos sobre isso. Não era um tabu, e ela tinha sido muito bem educada, era uma adolescente lida, informada e muito responsável. Não houve alarde sobre o tema.”

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