Myrna foi vítima da doença e fez “do limão uma limonada”

Ela nunca imaginou que aos 34 anos pudesse entrar para a estatística do acidente vascular cerebral (AVC). Talvez um dia, pensava, quando estivesse mais velha, descuidasse da pressão poderia ser vítima, mas assim tão cedo?

Myrna: blog com pseudônimo para falar abertamente do problema
Arquivo pessoal
Myrna: blog com pseudônimo para falar abertamente do problema
É, o corpo humano tem dessas coisas. Um dia ela acordou e a dor de cabeça intensa virou um bicho papão. As estatísticas mostram que o AVC tem aparecido cada vez mais cedo .

Myrna teve medo durante as nove horas que passou no pronto-socorro em saber o que acontecia. O medo virou pavor quando soube que era AVC e que ele poderia trazer sequelas como a paralisia. Nos 35 dias que ficou internada a paulistana virou Myrna, pseudônimo que criou para poder falar à vontade sobre a experiência de ter enfrentado a doença que mais mata a população brasileira hoje.

Deitada no leito, ela conta que conheceu o amor-próprio. E a vida ganhou outro sabor. No mesmo hospital, conheceu outro amor. A colega de quarto, também mulher vítima de AVC, recebia a visita do filho, hoje namorado de Myrna. Toda a experiência ela conta em um blog, cujo objetivo é ajudar outras pessoas que enfrentaram a mesma viagem. A seguir, trechos da entrevista concedida ao iG.

iG: Você tinha 34 anos quando sofreu um AVC. Imaginava que tão jovem poderia ser vítima de uma doença como essa?
Myrna: Nunca soube de nenhum caso até acontecer comigo, não fazia idéia do assunto, achava que era doença de idoso, hipertenso ou obeso.

iG: O que você sentiu quando estava tendo o AVC?
Myrna: Passei mais de nove horas sentindo dor e pressão infernais do lado direito da cabeça, pescoço e ombro, vomitando sem parar, com a visão dobrada (via duas pessoas) e tudo girando em volta, como se fosse um tubo de TV quebrado. Não conseguia ficar em pé sozinha para ir ao banheiro.

iG E os primeiros sentimentos depois de acordar?
Myrna: Parecia que eu tinha levado uma surra. O corpo doía, meu lado direito formigava, parecia que um ímã me puxava sem parar para o lado direito. Estava com a mão direita boba, quebrava até copos plásticos. Mancava ao andar e tinha a visão perturbada, como se as pessoas e coisas andassem sozinhas, sempre para o lado direito. O raciocínio e a fala permaneceram inalterados.

iG: Você teve medo de sequelas?
Myrna: Nas primeiras horas tive medo de não conseguir mais ler ou andar direito. Depois tive fé e aceitei tudo como um aprendizado, ou melhor, como o pagamento de um débito anterior, pois sou espírita. A partir daí, a cada dia, tudo começou a se encaminhar para a melhora.

iG: O que é mais difícil hoje?
Myrna: Às vezes, quando estou muito cansada – e agora me canso mais fácil do que antes –, estressada ou doente, meu lado direito formiga e a parede começa a andar sozinha. Então tenho de parar tudo o que estou fazendo e descansar, nem que seja por meia hora. Hoje o mais chato é o controle da anticoagulação, tomo Marevan, faço exames de sangue semanais, não posso me cortar, não posso beber, o anticoncepcional foi liberado há pouco tempo.

iG: O que mais mudou?
Myrna: Sempre digo que a doença física me trouxe a cura emocional e mental, além de ter trazido o meu namorado. Sim, ele é filho de uma colega de quarto que também teve AVC. Eu o conheci no hospital. Hoje sou uma pessoa muito mais alegre, forte, determinada, bem resolvida, agradecida, criativa, que valoriza cada dia. Antes eu fazia drama à toa. Durante uma vida inteira escrevi e rasguei tudo. Depois do AVC me tornei "cara de pau" e comecei o blog Diário de Myrna , o que me faz muito feliz.

iG: Qual o seu alerta para os mais jovens em relação ao AVC?
Myrna: Quando um jovem sentir qualquer dor de cabeça mais estranha do que o normal, ou uma vertigem muito forte, ou dor no pescoço, ou a visão estranha, deve ir a um pronto-socorro ou marcar uma consulta sem perder tempo. Se o primeiro médico não der importância, insista com outro até que se faça uma tomografia. Há muitos médicos que acham que AVC em jovens são casos raros e não vão acontecer com os clientes deles. Insista.

iG: Você era cuidadosa com a sua saúde, controlava pressão, visitava o médico antes do AVC?
Myrna: Minha pressão sempre foi baixa. Nunca fui muito de médico, só ia ao ginecologista uma vez por ano, me considerava muito saudável.

iG: O que mudou a sua vida depois do AVC? Conheceu outras pessoas que também sobreviveram?
Myrna: Sou muito mais cuidadosa e vivo aconselhando todo mundo a se cuidar também.

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