Brasil tem dez bancos públicos de coleta. Estrutura abastece o necessário, mas interesse das gestantes em doar cresce

Interesse das gestantes em doar para bancos públicos cresce no Brasil
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Interesse das gestantes em doar para bancos públicos cresce no Brasil
O nome Sara foi escolhido após um sonho. A definição das cores das roupas e a decoração do quarto não fugiram do rosa, após a confirmação do sexo do primeiro filho de Cristiana Fiusa Carneiro e Cristiano Ferreira de Sampaio Doria.

As escolhas que antecedem o nascimento de uma criança pouco mudaram ao longo dos anos. A tradição, entretanto, ganhou um componente extra em algumas famílias, proporcionado pelos avanços da medicina. Doar o sangue do cordão umbilical à rede pública, ou pagar uma anuidade e guardá-lo em unidades privadas de armazenamento do material, hoje, já é capaz de nortear a seleção da maternidade.

Nos muitos alarmes falsos que Sara deu aos pais, poucas semanas antes de nascer, Cristiana foi levada às pressas a uma maternidade privada, próxima ao bairro onde mora. A unidade, embora atendesse às demandas da família, só servia para aliviar o susto e dar segurança. Não era o local escolhido pela professora de xadrez para realizar o parto da primeira filha.

A decisão de doar o cordão umbilical de Sara a um banco público fez Cristiana escolher um hospital e maternidade filantrópica, credenciada a rede do INCA em São Paulo, para agendar o parto do bebê. Antes de começar o pré-natal, Cristiana revela que tinha um conhecimento equivocado sobre a utilidade das células-tronco presentes no sangue do cordão. “Acreditava que funcionaria como um seguro de vida para a minha filha.”

Dois pediatras amigos do casal explicaram que o sangue não poderia ser usado para curar possíveis doenças futuras da própria criança. “Quando soubemos desse fator, decidimos doar para ajudar outras pessoas, já que nossa filha não seria beneficiada.”

O interesse da familia Fiusa tem sido uma realidade no Brasil. Quando as gestantes entendem a importância dos bancos públicos, geralmente, querem doar, explica Luís Fernando Bouzas, diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e coordenador da BrasilCord – rede que reúne os Bancos Públicos de Sangue de Cordão Umbilical.

Embora não sejam concorrentes diretos, o Ministério da Saúde é contra o trabalho oferecido pelas bancos privados. Na visão de Bouzas, essas empresas reforçam a idéia de que o material colhido logo após o nascimento é uma espécie de seguro de vida, algo absolutamente equivocado.

“É um engodo, uma mentira. Eles não deveriam ser chamados dessa forma. Não funcionam como tal. Quem paga uma anuidade e deixa o sangue reservado está colocando o dinheiro unicamente em pesquisa, no futuro. Isso precisa ficar claro. Quem tem dinheiro e quer fazer isso, investe, no máximo, em uma aposta. Mas não existe, atualmente, nada que prove que esse material será útil para a criança ou alguém da própria família.”

Segundo o especialista, as células-tronco, em geral, são utilizadas pra fazer transplante de medula óssea de um paciente para outro, sem relação de parentesco. Funcionam como uma alternativa de tratamento. Entretanto, se o material é oriundo do próprio paciente, esse efeito não acontece.

O País já realizou 110 transplantes de células tronco, todos com material oriundo da rede BrasilCord. Os bancos públicos têm, atualmente, 10 mil unidades de sangue de cordão.

“Essas células são úteis para o momento, não para um futuro incerto. Não sabemos qual o tempo de armazenamento delas. Temos experiência de que em 25 anos o material se mantém útil. A chance de conseguir opções de tratamento será nos bancos públicos, não no material armazenado.”

Na opinião do médico, frente à realidade mundial, o Brasil tem uma rede de bancos públicos de sangue do cordão bastante razoável. São dez unidades em diferentes estados, a última inaugurada recentemente em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Até janeiro de 2011, Belo Horizonte deve receber o HemoMinas. A idéia do Ministério da Saúde é ter um banco de sangue e tecidos acoplados, ampliando as chances de transplantes de osso e córnea, por exemplo.

“O projeto preconiza que o Brasil tenha de 65 a 70 mil unidades de sangue armazenado. Queremos que esse centro que será inaugurado em Minas Grais, unindo sangue e tecido, seja replicado nos próximos bancos.”

Kit de coleta

Hoje, a decisão de doar determina automaticamente a escolha da maternidade. Em São Paulo, há quatro hospitais filantrópicos credenciados ao INCA. Em outros estados, a opção é única. Tal realidade, embora limite o acesso das gestantes interessadas, não representa um gargalo e tampouco uma fragilidade do setor público, garante o coordenador do BrasilCord.

"Não é necessário colher material de toda a população. Os hospitais e homocentros credenciados dão conta das metas estipuladas para o programa. A rede foi planejada dessa forma. Precisamos de amostragem da população, apenas. A logística não é viável. Não temos como coletar o material de todos os bebês que nascem fora dos hospitais públicos e isso não é necessário."

Kits de coletas do material são usados fora das unidades credenciadas, apenas em casos especiais. A idéia é tentar atender à demanda de gestantes que procuram o INCA para saber como devem fazer para doar, quando optam por ter o filho em maternidades particulares. Tal iniciativa, porém, não é o foco do projeto. Segundo ele, na rede cadastrada, 50% do material coletado não é aproveitado. Fora dos hospitais especializados, esse índice pode aumentar.

"Precisamos treinar o obstetra dessa paciente para que o trabalho – e os gastos – não sejam em vão. Não queremos desmotivar a doação, mas sabemos que na rede credenciada o trabalho será feito com qualidade, por uma equipe treinada para realizar a coleta diariamente."

Quem pode doar?

Os critérios para a doação são rigorosos, e mesmo assim, nem todo material será útil. A gestante precisa fazer um pré-natal criterioso, assinar um termo de consentimento e responder a um questionário sobre a vida da família.

“Precisamos de segurança nesse tipo de doação. Não serão utilizados materiais de gestantes com algum tipo de doença ou que não atendem a esses pontos. Em redes não credenciadas a chance desse protocolo não ser seguido à risca é maior.”

Hoje, para que o sangue possa ser doado, a futura mãe precisa ter entre 18 e 36 anos. Até o final do ano, porém, não existirá mais limite máximo de idade. "Esse corte foi feito no começo do projeto. Na época, achava-se que em mulheres acima dos 36 anos as chances de problemas na gravidez eram maiores, o que não é verdade."

Outro fator limitante é a quantidade de sangue coletada. Para que seja utilizado em um transplante, é preciso ter no mínimo 70 ml. A média, aponta o médico, é 100 ml, mas existem cordões com volumes de até 200 ml. O que pode inviabilizar o congelamento do material é a forma incorreta de coletá-lo.

“Se o profissional interrompe a coleta antes do tempo, terá uma quantidade insuficiente. Precisamos coletar até o fim, o máximo possível. Equipes treinadas sabem fazer isso e têm paciência.”

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