Judiara ficou cega e só então enxergou que o diabetes tipo 1 era perigoso

Quinze anos completos, uma festa de debutantes e o sonho daquela garota, que ali virava mulher, parecia finalmente ter sido realizado. Mas, uma semana após o evento que foi notícia em quase toda Salvador, as reações do organismo não pareciam ser só resposta aos hormônios aflorados na adolescência.

“Comecei a sentir uma sede que não esgotava, ia freqüentemente ao banheiro, uma fraqueza nas pernas, taquicardia. Não estava bem”, afirmou Jundiara Maria Ribeiro da Silva, hoje com 48 anos.

Jundiara descobriu o diabetes aos 15 anos e demorou para ter disciplina com a doença
Divulgação
Jundiara descobriu o diabetes aos 15 anos e demorou para ter disciplina com a doença
Depois dos desmaios, os pais da moça resolveram levá-la ao médico e o diagnóstico não tardou a alertar: Jundiara, que sempre foi tão magrinha e comeu de forma saudável, tinha diabetes. “Ninguém da minha família nunca tinha nem ouvido falar da doença. Era novidade para todos e eu não gostei nada, nada daquela notícia”, lembra ela ao informar que o exame de glicemia alterado foi a chave para um comportamento rebelde.

“Não sei se coincidiu com a fase adolescente, mas sei que me rebelei contra enfermeiros, médicos e minha família. Toda vez que diziam que eu não podia fazer alguma coisa, era aí que eu fazia. Saia escondido da minha mãe só para comprar chocolate na venda. Comia uma caixa inteira e passava mal depois.”

O diabetes que tanto revoltou Jundiara é chamado no meio médico de tipo 1. Antigamente, também era conhecido como diabetes juvenil, justamente por aparecer ainda na infância ou adolescência. Não está muito relacionado aos hábitos alimentares nocivos e o estilo de vida prejudicial. Sedentarismo e obesidade são mais comuns em pacientes que desenvolvem o tipo 2 do diabetes e – em geral – estes casos acometem quem já passou dos 35 anos de idade.

No Brasil, a estimativa da Sociedade Brasileira do Diabetes é que 90% dos 11 milhões de diabéticos tenham o tipo 2 da doença. Jundiara faz parte dos 10%, que precisam injetar insulina diariamente, seguir uma dieta rigorosa para não enfrentarem as conseqüências mais sérias da patologia. A rebeldia levou a então menina Jundiara para este caminho mais difícil do tratamento.

A fase mais pesada

Foi no escuro que ela viveu a fase mais pesada da doença. Por não seguir os conselhos dos médicos – e os apelos da mãe – ela acabou desenvolvendo a cegueira relacionada ao diabetes. “Passei, primeiro, a enxergar as coisas mais embaçadas. Em um piscar de olhos passei a só ver sombras e vultos”, lembra.

Foram oito meses de escuridão e, daí sim, ela percebeu quanto era importante seguir à risca as orientações de saúde. “Vi que é muito mais fácil comer de forma saudável, a cada três horas, sem abusar. Fazendo isso, que deveria ser comportamento de qualquer pessoa, seja diabética ou não, é possível ter uma rotina completamente normal.”

Quando o diabetes ficou controlado, os problemas oftalmológicos também foram embora. “Me lembro que a primeira imagem que enxerguei com nitidez foi o rosto da minha mãe. Vi aquele semblante sofrido, de um período de extrema dedicação a mim. Prometi ali mesmo que nunca mais seria rebelde com o diabetes. Respeito a minha doença.”

Jundiara Ribeiro da Silva cresceu e de tanto estudar sobre sua saúde acabou tornando-se especialista na saúde dos outros, Virou auxiliar de enfermagem e anos depois descobriu a explicação genética do seu diabetes. A mãe, que tanto cuidou dela, descobriu ser diabética tipo 2. “Meu sobrinho eu identifiquei, por causa dos sintomas tão parecidos com os meus no início da doença, que ele poderia ter o diabetes tipo 1. Os exames confirmaram a doença nele”, diz com orgulho de ter sido responsável pela intervenção precoce. “Também fico de olho bem aberto na minha filha e na minha neta. Qualquer sintoma, corremos para o posto de saúde”, diz. Ninguém nunca mais da família Ribeiro da Silva vai precisa ficar cego para saber que com o diabetes não se brinca.

Conheça outras histórias de mulheres diabéticas

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.