Problema é mais comum em mulheres e estudo mostra que elas recorrem aos medicamentos por conflitos na família

MiGComponente_C:1237537156972 Durante o ciclo de uma hora percorrido pelo ponteiro do relógio, dez pessoas precisaram pedir afastamento do trabalho para tratar depressão, síndrome do pânico e outros transtornos de humor. Os 83.209 casos registrados entre janeiro e novembro de 2009 no País ¬– levantados pelo Delas no site do Ministério da Previdência Social – não são separados por sexo, mas os especialistas atestam que o problema, em maioria, é feminino.
Pesquisas já mostraram que mulheres aparecem até duas vezes mais do que os homens nas estatísticas (informações da Associação Brasileira de Psiquiatria) e um dos motivos é que elas são mais vítimas dos dois vilões depressivos: o estresse e ansiedade. Segundo dados já divulgados em um levantamento feito pela seguradora de saúde SulAmérica, no sexo femino 51% são estressadas contra índice de 28% na parcela masculina.

“Além do estresse, as mulheres são mais vulneráveis por questões químicas mesmo”, afirma o psiquiatra Ricardo Moreno, membro da ABP e diretor do Grupo de Estudos de Doenças Afetivas do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Os hormônios, presentes desde a infância até a época da menopausa, são influentes nas manifestações depressivas”.

Democrática, a depressão não escolhe classe social antes de bater à porta. Pode trazer seus impactos tanto na vida profissional da maior executiva da empresa quanto da funcionária encarregada pela faxina. Isso porque, em especial no recorte feminino, a depressão não é despertada pelo cargo exercido. Segundo os especialistas, o “gatilho” do problema em geral é o acúmulo de funções sociais e empregatícias. A dupla jornada, é sabido, está em todos os lares.

De acordo com Moreno, a influência dos transtornos de humor e depressão no emprego é total porque, além da tristeza, melancolia, falta de ânimo, é uma “síndrome que acarreta dificuldade para pensar e raciocinar. Influencia também na concentração e no raciocínio, agravada pelas possíveis alterações do sono e do apetite”, informa o médico. O rendimento é comprometido e o que só parece tristeza, na verdade, funciona como um bloqueio sólido da execução de tarefas.

Banalização da depressão

Apesar do ano de 2009 ter colecionado 252 casos diários de afastamentos para tratar depressão e outros transtornos de humor, o cenário é de diminuição de registros. Na comparação com o ano de 2008 (94.887 casos) a redução de casos é de 14%.


Um dos motivos para o declínio, acreditam os especialistas, é a melhora do acesso aos tratamentos psíquicos e também medicamentos para os problemas de saúde. Dados da indústria farmacêutica apontam aumento de 44% das vendas de antidepressivos e ansiolíticos nos últimos quatro anos, com movimentação estimada de R$ 977 milhões anuais.

Além do setor privado, o Sistema Único de Saúde (SUS) também tem aumentado a oferta de remédios desta classe terapêutica. Em 1999, o Ministério da Saúde fornecia seis tipos de medicamentos desta linha e, em 2008, a quantidade aumentou para 14. A Furp – fabricante paulista de remédios – aumentou em 3,4% a distribuição de antidepressivos.
Ainda que os especialistas brindem a melhor oferta de ferramentas para amenizar os danos acarretados pela depressão, todos são unânimes ao ressaltar um efeito colateral da venda crescente das pílulas: o mau uso.
Levantamento do Centro Brasileiro de Informações Sobre Dorgas Psicotrópicas, feito com 10.919 receitas de um popular antidepressivo, confirmou o uso irregular. Metade dos receituários era associado a outras drogas, todas com foco em emagrecer. O uso estético da medicação psiquiátrica é equivocado e, além de dependência, pode trazer outros efeitos coletarais graves, como taquicardia.

Remédio sem conversa


A banaliazação do uso dos antidepressivos também foi mapeada pelo professor de ciências farmacêuticas da Universidade Federal de Goiás, Reginaldo Mendonça. Ele acompanhou por dois anos 23 usuárias destes remédios e atestou que elas buscam nas pílulas formas de amenizar conflitos familiares.


“O uso medicamento, quando necessário, não é um problema”, afirma Mendonça. “A questão é que na maior parte das vezes esse uso é feito sem um acompanhamento próximo do especialista (psiquiatra ou psicólogo) e sem diálogo. A medicação, portanto, torna-se a única forma que a mulher encontra para conviver com o problema e não resolvê-lo”, completa ao citar um exemplo. “A mulher busca ajuda do antidepressivo porque estava nervosa demais, sendo muito agressiva com os filhos e marido. O pano de fundo do nervosismo, exemplifica o pesquisador era um casamento complicado, sem conversa e parceria.
“Se ela só tomar o remédio, sem o suporte de uma terapia ou acompanhamento, a paciente só vai ficar mais calma e não reagir pela mudança. Ela não ataca a raiz do problema que é a melhora da relação.”

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