O policial Ernesto Reis usou a experiência de pai para fazer partos

Desde menino o futebol nunca foi o seu grande objetivo. Nas ruas de São Paulo, o sonho mesmo era para ser polícial, militar, daqueles que usam farda. Aos 26 anos, ele conquistou a meta e olhando a carreira em retrospectiva, 15 anos depois, Ernesto sabe como ninguém as vantagens de ter trocado as chuteiras pelo coturno.

Hoje, aos 41 anos, sua vida de prender bandido, escoltar polícia, fazer ronda tem ao menos seis capítulos diferenciados. O soldado da Polícia Militar já precisou fazer seis partos em sua vida profissional, sempre com muita responsabilidade, ansiedade e improviso.

“No primeiro deles, não tínhamos equipamentos adequados. Peguei a menina recém nascida nas mãos e amarrei o cordão umbilical com o cadarço do meu coturno”, lembra , revivendo a apreensão e saboreando o orgulho da primeira experiência.

O soldado Reis fez carreira no bairro Cidade Tiradentes, periferia do extremo leste da capital paulista, bairro com 220 mil moradores, que até dois anos atrás não tinha um único hospital. “Isso fazia com que as ocorrências envolvendo partos fossem, de certa forma, até frequentes. Se a mulher morava em uma área de difícil acesso, o que não é difícil em Cidade Tiradentes, e esperava muito para parir, tínhamos que entrar em ação”, lembra.

É fato que com a ajuda das mãos de Reis já nasceu menino e menina, todos sempre após nove meses de gestação e quase sempre cabeludos. Já fazia uns três ou quatro anos que nenhum parto intercalava a rotina do soldado, quando no dia 28 de fevereiro, às 23h36, um chamado de uma mulher em trabalho de parto fez com que o solado/parteiro voltasse à ativa.

“Chegamos na Vila Matilde (bairro da zona leste também), embaixo de um viaduto e encontramos a mulher já deitada e gritando muito”. “Não dava para esperar mais nem um segundo e o parto começou. Depois de muita respiração e força nasceu um menino, forte, apesar de pequenininho. Já havia enrolado ele num pano para levar ao hospital quando a mãe me pegou no braço e disse: ‘soldado, espera. São dois. São gêmeos.”

Reis quase não acreditou. Duvidou mesmo daquela declaração da mãe e até tentou pensar que aquilo ali dentro do útero era só placenta. A mãe insistiu e fez ele voltar no tempo, 11 anos atrás. O soldado lembrou do dia do nascimento dos seus filhos, gêmeos também, que nasceram com paralisia cerebral. O motivo foi a demora para a realização do parto.

“Quando lembrei dos meus filhos, tive a certeza que não poderia demorar mais nada para terminar o parto. Pedi para a mãe fazer força e vi que o segundo nenê estava virado, com os pés primeiro em vez da cabeça. Puxei pelos pés mesmo e veio uma menina linda, um pouco menor, mas mais cabeluda do que o irmão.”

O final da operação parto começou a despontar. Os gêmeos e a mãe foram para o hospital e a plateia que assistia o nascimento embaixo do viaduto aplaudiu compulsivamente. Reis até ficou com vontade de correr para casa e abraçar os filhos que tanto ajudaram naquela operação. Não dava. Era pouco mais de meia-noite e o plantão só terminava às 7h.

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