Médico alemão cria estratégia para individualizar a escolha do método anticoncepcional

Pílulas são práticas, mas os hormônios podem ser prejudiciais em algumas situações. Cada mulher deve passar por uma seleção personalizada do contraceptivo
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Pílulas são práticas, mas os hormônios podem ser prejudiciais em algumas situações. Cada mulher deve passar por uma seleção personalizada do contraceptivo
Não é raro uma conversa entre mulheres se voltar para o assunto da contracepção. E também não é incomum vê-las discordando sobre o melhor método para evitar a gravidez.

Na opinição do médico alemão Johannes Bitzer, isso acontece porque o tratamento contraceptivo deveria ser individualizado. “Se as mulheres não são iguais, os tratamentos também não devem ser”, afirma ele, um dos maiores especialistas do mundo em contracepção.

Bitzer esteve em São Paulo no início do mês para participar do XV Congresso Paulista de Ginecologia e Obstetrícia. Na ocasião, o médico, que preside a Sociedade Europeia de Contracepção, apresentou ao Brasil um procedimento que ajuda a individualizar a escolha do melhor contraceptivo.

Batizado de “Triangulo da contracepção”, o método consiste em três etapas para refinar o perfil da mulher e combiná-lo com uma das diversas formas de anticoncepcional disponíveis hoje. Em entrevista ao iG , o médico falou sobre sua técnica.

O médico alemão Johannes Bitzer criou o triângulo da contracepção
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O médico alemão Johannes Bitzer criou o triângulo da contracepção
iG: O que é o triângulo da contracepção?
Johannes Bitzer - O método consiste em três grandes variáveis que precisam interagir da melhor forma possível umas com as outras para fazer a contracepção funcionar e ser bem-sucedida. São elas: paciente (mulher), contexto e método.

iG: Como o médico deve lidar com essas variáveis?
Bitzer - Antes de tudo, o médico precisa compreender a paciente. Ele precisa entender as necessidades da mulher, seus desejos e seus ideais a respeito do planejamento familiar. O segundo passo é avaliar seu estado de saúde, incluindo fatores de risco físicos e psicológicos.

Depois disso, o médico parte para a segunda variável, o contexto. Nela, ele deve considerar fatores como idade, situação social, formação cultural e escolaridade. Por fim, o médico deve conhecer muito sobre métodos contraceptivos, sua eficácia, seu mecanismo de ação, seus riscos, efeitos colaterais e benefícios. Só então é possível fazer a melhor escolha dentro disso.

Essa abordagem ajuda a individualizar o aconselhamento para contracepção. O médico pode adaptar o melhor método para cada mulher.

iG: As mulheres reclamam dos contraceptivos de hoje?
Bitzer - Existem queixas muito variadas e elas estão ligadas ao método em uso. No caso dos contraceptivos hormonais, o problema são os sangramentos irregulares, a sensação de inchaço, o ganho de peso, a dor de cabeça e o desconforto gastrointestinal. Com DIUs (Dispositivos Intrauterinos), é a menstruação intensa e/ou dolorosa. Com os preservativos, é o impacto negativo no prazer sexual.

iG: É possível prescrever um anticoncepcional sem risco de complicações?
Bitzer - Não existe contracepção livre de riscos. Há métodos com risco baixo, como as camisinhas, mas com possibilidade de falhar, o que resultaria na gravidez indesejada. E se o tratamento for mais eficaz, como são as pílulas, podem haver riscos pequenos porém importantes para a saúde.

iG: O risco de gravidez indesejada ainda é a maior preocupação quando a mulher está escolhendo o contraceptivo?
Bitzer - Para a maioria das mulheres essa ainda é a motivação mais forte. Mas também existem outras preocupações importantes como os riscos à saúde que o método possui e as possíbilidades futuras de fertilidade e de contracepção. E não só isso. As mulheres se preocupam também com os efeitos colaterais do contraceptivo. Muitas perguntam como o método vai afetar sua qualidade de vida e sua vida sexual, por exemplo. Essas preocupações devem ser consideradas pelo médico.

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Conheça a história dos contraceptivos
iG: Em seus trabalhos acadêmicos, o senhor costuma dizer que a escolha do contraceptivo é uma decisão compartilhada entre médico e paciente. Na prática, como isso deve ser feito?
Bitzer - A decisão compartilhada é importante sempre que houver mais de uma alternativa de tratamento. Isso vale especialmente para a contracepção. Não há um método ideal porque cada mulher tem suas individualidades.

Para uma decisão compartilhada, médico e paciente devem assumir seus papéis. Cabe ao médico oferecer evidência baseada em informações para a mulher e ajudá-la a entender tais informações.

O papel da mulher na decisão compartilhada é definir seus objetivos e preferências com clareza e atribuir seu valor às informações passadas pelo médico, como os referenciais de eficácia, de segurança e as formas de uso do contraceptivo. Assim, juntos, médico e paciente vão chegar a um consenso.

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