Especialistas apostam em transplante ovariano pós-congelamento, indicado para mulheres jovens com câncer

Chance de gravidez com nova técnica de congelamento de óvulos é de 50%. Procedimento é indicado para mulheres com câncer
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Chance de gravidez com nova técnica de congelamento de óvulos é de 50%. Procedimento é indicado para mulheres com câncer
Novas técnicas de congelamento de óvulos surgiram nos últimos dois anos e aumentaram as chances de maternidade de mulheres com câncer de mama, linfomas e leucemia.

Os procedimentos atuais projetam a possibilidade, inclusive, de gravidez natural sem a necessidade de fertilização in vitro (FIV).

Estas evoluções do tratamento reprodutivo – apresentadas no último mês em congressos europeus e brasileiros de reprodução assistida – renovam não só a esperança de pacientes que têm problemas de saúde que comprometem a fertilidade, como também a de mulheres que, apesar de não terem nenhuma doença oncológica enfrentam dificuldades para engravidar.

Para que as técnicas sejam ainda mais aprimoradas, os especialistas em reprodução humana citam como o novo desafio a resistência de oncologistas, mastologistas e ginecologistas em participar do processo que torna possíveis os planos de gravidez de mulheres com câncer.

“Infelizmente, quase nunca a paciente jovem com câncer se preocupa espontaneamente com a preservação de sua fertilidade. O mais alarmante que os próprios médicos que conduzem o tratamento desta mulher também não discutem esse item vital para a manutenção da qualidade de vida de suas pacientes”, avalia Iúri Donati Telles de Souza, ginecologista especializado em reprodução humana, que atua na clínica Fertilitá em Aracaju (Sergipe), faz pesquisas sobre o tema e estava presente no último congresso brasileiro, que aconteceu entre 20 e 25 de agosto.

Avanços

O urologista Sandro Esteves, fundador da clínica Androfert, em Campinas, é um dos especialistas brasileiros que mais estuda o congelamento de óvulos. Ele conta que, inicialmente, o método só tinha como possibilidade estimular a ovolução da mulher por meio de medicamentos não-hormonais (já que em caso de câncer os hormônios poderiam agravar o quadro), retirar os óvulos e congelá-los para tentar a fecundação posterior.

Posteriormente, surgiu a possibilidade de fazer a maturação do óvulo já no processo de fertilização. Hoje, diz ele, a grande aposta são os transplantes de tecidos ovarianos, procedimento que aumenta as chances de gravidez efetiva e diminui o índice de abortamento espontâneo, dois efeitos colaterais perigosos que eram mais recorrentes nas técnicas mais antigas de congelamento.

De maneira simples, o procedimento mais evoluído consiste em retirar os óvulos da mulher antes dela passar pelo tratamento anticâncer (quimioterapia e radioterapia), retirar e congelar o tecido ovariano e reimplantá-lo após a cura. O tempo de espera médio indicado após o fim do tratamento para os tumores malignos é entre dois e cinco anos.

“A experiência mundial indica que já são 50 mulheres que receberam o transplante ovariano. Destas 50, já são 14 crianças nascidas, sendo que uma das mulheres beneficiadas teve dois filhos”, afirma Esteves ao completar que esta técnica, iniciada na Dinamarca, tem com uma das vantagens a possibilidade da gravidez ser natural e não apenas por fertilização in vitro.

Investimento futuro

A necessidade da fertilidade entrar para a lista de preocupações oncológicas aparece com o último relatório divulgado pelo Ministério da Saúde, no final de 2008. O câncer de mama, por exemplo, figura como a 5ª causa de morte em mulheres férteis (10 a 49 anos). Por ano, são 50 mil novos casos deste tipo de câncer. As leucemias e os linfomas também podem comprometer a fertilidade das mulheres e as duas doenças fazem, juntas, quase 20 mil vítimas anuais. Outro problema é que a quimioterapia e a radioterapia, necessárias na maior parte do tratamento de tumores, também podem deixar as pacientes estéreis.

“Mesmo assim, de acordo com algumas publicações, apenas 18 % dessas mulheres referem que seus médicos discutiram com elas vida sexual e preservação da fertilidade”, completa Iuri Telles de Souza.

Para a ginecologista Ana Lúcia Beltrame, especializada em reprodução humana pela USP e diretora da clínica Engravida em São Paulo, a ausência desse tipo de orientação a mulheres que passarão por tratamento contra o câncer, priva muitas pacientes de ter acesso aos avanços da medicina reprodutiva nesta área.

“Temos avanços diários. O congelamento de óvulos hoje tem uma taxa de sucesso muito mais alta do que há três anos, por exemplo. A mulher que recebe o diagnóstico do câncer, pode congelar os óvulos e quando quiser ter filhos daqui cinco anos, por exemplo, a medicina provavelmente estará ainda mais evoluída nesta área”, acredita a médica.

Resultados, custos e dúvidas

Atualmente, a técnica de transplante ovariano tem 50% de taxa de efetividade para a gravidez e, apenas o procedimento, tem o valor médio de R$ 2.500 a R$ 5.000. Adicionadas aos custos, estão as taxas cobradas para o armazenamento dos tecidos congelados. Os especialistas orientam ainda que, caso a fertilização in vitro seja necessária, os valores podem subir para R$ 10 mil. É importante ressaltar que nem sempre é possível a gravidez natural.

“A grande indicação para a utilização do congelamento de óvulos e de tecido ovariano é para a mulher em idade fértil que recebe o diagnóstico de câncer”, afirma o diretor científico da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana e da clínica Profert, Direceu Henrique Mendes Pereira.

“Mas é fato que a maternidade é um plano cada vez mais tardio para as mulheres, por isso, avalio que a indicação social tende a crescer no futuro.”

Hoje a possibilidade de usar esses recursos para adiar a maternidade ainda é enxergada com restrição pelos especialistas. “Os médicos quando atendem as mulheres precisam deixar claro quais são os limites da fertilização. Elas (pacientes) precisam ter ciência de que são técnicas novas e de que não sabemos quais serão os exatos efeitos para a saúde deste bebê”, diz o especialista Sandro Esteves.

“Já existem dados consistentes de que os casos de malformações congênitas são mais numerosos em bebês nascidos por fertilização. Por isso, essas técnicas hoje só devem ser utilizadas por quem não tem outra possibilidade.”

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