Jovem mãe recorda a experiência de passar 16 horas em trabalho de parto para ter sua primeira filha. Médicos são contra

Eliane Ogata com a filha Sayuri
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Eliane Ogata com a filha Sayuri

Os depoimentos postados em inúmeros blogs são mesmo comoventes. As mulheres que tiveram seus bebês em casas de parto descrevem a experiência em detalhes, sem poupar palavras nem parágrafos.

A proposta das casas de parto é mesmo ser diferente dos hospitais. O ambiente é mais acolhedor, lembra uma residência e não uma sala de cirurgia. Sequer é obrigatório haver médicos nestes espaços, todo o trabalho pode ser realizado apenas por enfermeiras especializadas em obstetrícia e auxiliares de enfermagem.

Mas antes de se entregar a este ambiente acolhedor e tão defendido por muitas mamães, é preciso saber algumas coisas. Primeiro, as casas de parto só aceitam gestações de baixo risco. “A mulher não pode ter pressão alta, diabetes e gestação gemelar, entre outras condições”, afirma a enfermeira Najila Cristine Pinheiros Santos, do Centro de Parto Normal David Capistrano da Costa, em Belo Horizonte (MG).

Segundo, é preciso ter um número mínimo de consultar pré-natal. Tais consultas são fundamentais para determinar o risco do parto, acompanhar a evolução da gravidez e para orientar a gestante. O pré-natal é visto como uma garantia de que a mulher realmente possui um risco reduzido de complicações durante o parto.

Terceiro, faça ao menos uma visita à casa de parto antes da internação. “É interessante conhecer o ambiente, as pessoas, o procedimento. Isso ajuda a mulher a já estar familiarizada com o processo quando chegar a hora do parto”, recomenda a enfermeira.

Sem medicação

As casas de parto praticam o chamado parto natural. O conceito é mais amplo do que simplesmente evitar o corte na região abdominal, característico das cesárias. A gestante não usa ocitocinas para acelerar o processo. Isso significa que ela estará sujeita a enfrentar muitas horas em trabalho de parto.

“Já tivemos uma paciente que ficou muito assustada com as contrações e pediu para ir ao hospital. Não havia nada de errado, ela só estava com medo”, recorda enfermeira Thais Talarico de Andrade, da Casa de Parto Sapopemba, na zona Leste de São Paulo. O caso ilustra a necessidade da mulher estar preparada psicologicamente para este tipo de parto. “Não são raros os casos que passam de 15 horas”, afirma Thais.

A única medicação utilizada é anestesia local para quando for preciso fazer uma pequena incisão no períneo (região entre vulva e ânus) para facilitar a saída do bebê.

E se algo acontecer?

Toda casa de parto precisa ter obrigatoriamente uma ambulância com motorista disponível, o tempo todo. “Temos uma vaga sempre aberta para pacientes nossas no Hospital Vila Alpina, a cinco minutos daqui”, afirma Thais.

Algumas casas de parto estão diretamente ligadas a hospitais, o que agiliza ainda mais a intervenção médica em situações de emergência. Pediatras o obstetras podem integrar equipes complementares em casas de parto, embora sua presença não seja obrigatória.

Existem 27 centros de parto natural (CPN) no País, nome dado às casas de parto pelo Ministério da Saúde. Os espaços puderam ser criados a partir da portaria MS/GM nº 985, de agosto de 1999.

Eliane (de roxo) ao lado de uma enfermeira com Sayuri, na Casa de Parto Sapopemba
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Eliane (de roxo) ao lado de uma enfermeira com Sayuri, na Casa de Parto Sapopemba
Acompanhantes

A maioria das casas de parto aceita mais de um acompanhante na sala. “O número de pessoas não importa, mas recomendamos apenas quem vão contribuir, de alguma forma, com o processo do parto”, diz Thais.

O tempo de trabalho de parto pode ser menor nos casos em que há acompanhantes presentes, de acordo com o Ministério da Saúde. O órgão reuniu 14 estudos científicos, nacionais e internacionais, para sustentar a recomendação. Há também menos risco de depressão pós-parto.

As enfermeiras recomendam ainda outras estratégias bem simples para acelerar o trabalho de parto. “Comer, andar, tomar banho morno de chuveiro”, enumera Thais.

“Dizem que fui corajosa”

A professora de química Eliane Ogata, de 32 anos, teve sua primeira filha há cinco meses, em julho deste ano. Foram 16 horas para Sayuri nascer na Casa de Parto Sapopemba. “Dizem que fui corajosa, mas tudo é mais simples e mais fácil do que se imagina”, afirma.

A ideia do parto natural veio aos poucos. A princípio, Eliane resolveu evitar a cesariana, procedimento cirúrgico e três vezes mais arriscado . Uma pesquisa recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) revela que a mortalidade materna, a necessidade de fazer transfusão de sangue e o encaminhamento dos bebês após o nascimento para Unidade de Terapia Intensiva (UTI) são 2,7 vezes maiores em cesarianas.

Ao optar pelo parto normal, Eliane planejou o nascimento de sua primeira filha no hospital de sua confiança. Contudo, tal atendimento estava fora da cobertura do plano de saúde. Foi então que sua professora de ioga para gestantes recomendou uma visita a um grupo de grávidas, no qual eram compartilhadas informações sobre parto normal.

Lá, a gestante descobriu as casas de parto e o conceito do parto natural. “Minha bolsa estourou às 6h, mas só tive minha filha às 22h15”, recorda. Mas vale à pena. Trinta minutos depois do parto, Eliane já havia tomado banho e resolveu jantar. Logo depois, foi dormir. “Era tudo tranquilo. Só passei o segundo dia na casa de parto porque estava difícil a amamentação. Mas as enfermeiras passavam com milho, canjica, vinham oferecer mesmo estando fora do cardápio”, lembra-se.

Essas longas horas em trabalho de parto somadas aquelas cenas tão propagadas pelo cinema, das mulheres berrando de dor ao dar à luz, são argumentos recorrentes entre as mulheres que optam pela cesariana. Tal procedimento representa cerca de 80% dos nascimentos no sistema privado de saúde na capital paulista.

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