Câncer nem sempre impede a gestação

Descobrir um tumor durante a gravidez não significa abortar. Hoje é possível tratar a doença sem prejudicar o bebê

Bruno Folli, iG São Paulo

Eduardo Cesar / Fotoarena
Márcia Barros, de 40 anos, com o filho Waldemir (o nome foi uma homenagem ao médico que a tratou)
Um momento que deveria ser de alegria se transformou no pior pesadelo da professora Márcia Barros. Quando ela finalmente conseguiu engravidar do segundo filho, aos 37 anos, os exames pré-natais revelaram um tumor no seio direito.

Três médicos disseram que a gestação representava um risco muito alto de vida, por isso o melhor a fazer seria um aborto. “Já tinha passado por um aborto espontâneo e estava com medo de não conseguir engravidar outra vez. Não queria abrir mão do meu filho”, recorda.

Márcia enfrentava um verdadeiro dilema. Ela poderia postergar o tratamento para depois do parto, mas os mesmos hormônios necessários à gestação também alimentavam o tumor e faziam ele crescer mais rápido.

Por outro lado, ela poderia abortar para combater o câncer, mas havia o risco dela nunca mais conseguir engravidar. “Isso assustava os médicos. Ninguém queria cuidar de mim”, afirma.

Somente o quarto especialista que ela procurou, o obstetra e mastologista Waldemir Rezende, deu alguma esperança de sucesso para um tratamento combinado com a gestação. “Ele retirou meu seio doente no terceiro mês de gestação e depois começamos a quimioterapia”, lembra a professora.

O remédio certo

Quando recebeu a paciente, Rezende trabalhava no Hospital das Clínicas de São Paulo, onde surgiam cerca de dez novos casos de gestantes com câncer por mês. O médico conta que o tratamento destes pacientes não é simples, por isso muitos outros especialistas acabam recomendando o aborto. “Mas a maioria dos cânceres pode ser tratável”, afirma.

Os mais delicados são os tumores alimentados pelos hormônios femininos, caso do câncer de mama. “A solução é retirar o tumor”, aponta o médico, que hoje trabalha no Hospital Santa Catarina e escreve artigos para o site Atmosfera Feminina .

Já existem anestesias para a operação que podem ser usadas em pacientes grávidas. Contra a dor pós-operatória ou do próprio câncer, a mulher pode usar medicamentos opióides, como morfina e codeína.

Contudo, todo antiinflamatório deve ser evitado. “Eles podem atacar placenta, rins e coração do feto”, alerta Rezende. Também é preciso ter cuidado com os antibióticos. Devem ser evitados os aminoglicosídeos, pois eles representam risco de surdez para a criança. “Podem ser usados cefalosporina, ampicilina e penicilina”, afirma.

Quimio e radio

Após a cirurgia, como na maioria dos pacientes com câncer, é necessário quimioterapia. “Quase todo quimioterápico pode ser usado em gestantes. Basta esperar a 12ª semana de gravidez, quando os órgãos do feto se formam”, afirma.

O problema é a radioterapia. “Ela só deve ser usada em último caso, porque é difícil conter a radiação”, explica o mastologista. O bebê pode até nascer saudável, mas com sequelas que só vão se manifestar com o passar dos anos. "Existem problemas que só se manifestam depois de 20 ou 25 anos", conta o médico.

Divulgação
Gabriel Vinícius com a mãe, Marileide
Particularidades

O grande desafio da medicina em gestantes com câncer é avaliar a situação da paciente e do tumor para adequar o tratamento da forma mais individualizada possível.

Márcia, a personagem no início da reportagem, passou por uma cirurgia radical, com a retirada total do seio direito e ainda foi submetida a um tratamento pesado com quimioterápicos. “Perdi todo o cabelo e tive que usar peruca”, recorda ela.

Mas a investida teve sucesso. Ela conseguiu ter o filho, hoje com dois anos e oito meses, mas precisou ter o ovário removido durante o parto. “O médico suspeitava que poderia haver metástase lá. E exames posteriores mostraram que realmente havia”, afirma.

O tumor de ovário é considerado mais complicado durante a gestação. Quando diagnosticado cedo, Rezende recomenda tirar parte do órgão durante a gravidez e, depois, o restante no parto.

Gravidez inesperada

O caso da professora Marileide Franzine, de 44 anos, surpreende por ser o inverso do que normalmente acontece. Enquanto as gestantes normalmente descobrem o câncer no pré-natal, Marileide descobriu a gravidez quando se preparava para a quimioterapia.

“Já tinha passado por duas cirurgias para retirar um tumor do seio direito e estava fazendo exames para começar a quimioterapia”, recorda ela.

Por mais que quisesse um filho, a professora não acreditava que a gestação fosse vingar. “Tinha passado por três abortos espontâneos até os 31 anos. Não achei que aos 40 anos e fazendo quimioterapia fosse conseguir levar a gestação até o final”, admite ela.

E o tratamento não foi fácil. Desde a primeira sessão de quimioterapia, Marileide começou a ter febre. “Era todo dia. De manhã, à tarde e à noite. Tive febre por um ano. Até minha mãe adoeceu de me ver tão mal”, conta.

Mas o desejo de ter um filho lhe dava forças. “Estava vendo meu filho evoluir bem e isso me dava esperança de poder tê-lo, da gravidez dar certo”, conta. Rezende, que também foi médico de Marileide, explica que a motivação da mãe tem efeito comprovado na recuperação e na evolução do tratamento contra o câncer.

Hoje, a professora se recuperou do câncer e voltou ao trabalho. Seu filho, Gabriel Vinícius, está com 3 anos. “E eu estou aqui, contando história”, comemora.

Outros desafios

Em outra paciente, conta o médico, havia risco dela sofrer uma anemia aguda após a cirurgia para remoção de um tumor ósseo na perna. “Isso poderia causar descolamento da placenta e sequelas no sistema nervoso central do bebê”, explica.

Por isso, o médico propôs à paciente fazer uma transfusão de sangue antes da cirurgia. E deu certo. Isso evitou a anemia e ainda permitiu um parto normal. "Ela estava cheia de pinos na perna, mas conseguiu fazer um parto normal”, recorda.

O câncer de tireóide, por exemplo, é um dos mais simples de ser tratado. Basta uma cirurgia para retirar a glândula e, depois, a paciente vai precisar dos hormônios artificiais, sem mais riscos para a gestação.

Diagnóstico prejudicado

Para o mastologista José Roberto Filassi, do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), a gravidez pode prejudicar o diagnóstico do câncer de mama. “Como a gestação pode causar um certo enrijecimento da mama, alguns tumores sensíveis ao toque passam despercebidos pelo médico, que acha que aquilo é normal”, alerta o especialista.

Ele conta que a maioria dos diagnósticos é feita entre o quarto e quinto mês da gestação. E isso em pacientes jovens. “Elas têm entre 32 e 34 anos, em média, mas já atendemos pacientes com 22 e 19 anos”, afirma. “Esse número está dentro da média mundial para países desenvolvidos”, acrescenta.

Uma solução para isso, recomenda o médico, é fazer exames para detectar câncer de mama sempre que houver qualquer suspeita de alterações nos seios. Se a paciente tiver histórico familiar ou outros fatores de risco, como menarca precoce, a atenção deve ser dobrada.

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