Após os 40 anos, maioria absoluta dos casos é em pacientes homens

Uma mesma doença apresenta características totalmente diferentes dependendo da idade do paciente.

Se o doente tiver mais de 40 anos, a maioria dos portadores de câncer de boca é homem, fumante e também consumidor de bebidas alcoólicas. Agora, se a doença surgir precocemente, mais mulheres estão entre as estatísticas e o consumo de cigarro e álcool não será hábito recorrente.

O comportamento do câncer de boca foi estudado em pesquisa pioneira da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O dentista Alan Roger Santos da Silva, especializado em estomatologia, quis mapear as principais características do tumor bucal em língua e cavidade oral em pessoas mais novas, apesar da incidência ser bem mais rara antes dos 40 anos.

Pesquisa mostra que em pacientes mais novos, câncer de boca acomete mais mulheres do que entre os mais velhos
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Pesquisa mostra que em pacientes mais novos, câncer de boca acomete mais mulheres do que entre os mais velhos
“Reunimos todos os casos de pacientes nesta faixa etária atendidos nos últimos 20 anos em quatro centros especializados de países diferentes”, afirma o autor do estudo. “A proposta de avaliar casos do Brasil, da Guatemala e da Inglaterra foi justamente para avaliar pessoas com hábitos e culturas diferentes.”

“Fizemos a análise laboratorial de 37 pacientes, um número que pode parecer pequeno mas é o maior já estudado pela literatura”, justificativa Silva. Os dados não variaram de país para país, mas as características encontradas nos pacientes mais novos contrastaram com os dados históricos da doença.

Nos mais novos, 43% dos pacientes eram mulheres, metade não fumava e 41% não bebiam, conjunto de especificidades muito diferente das mapeadas pela pesquisa nacional de câncer na cavidade oral publicada na Revista Brasileira de Otorrinolaringologia. Neste trabalho feito com 300 pacientes de todas as idades (idade média foi 57 anos), 81% eram homens, 76,8% tabagistas e 74% consumidores de álcool.

Culpa da genética

A resposta para as características tão diferentes do câncer de boca de acordo com a faixa etária ainda não é clara, mas o pesquisador da Unicamp tem um ponto de partida. “As análises que fizemos mostraram que entre os mais novos há muito mais carga genética relacionada ao câncer do que entre os mais velhos”, diz Alan Roger Silva. “Ainda não sabemos se esta instabilidade de genes é resultado de uma herança familiar, desencadeada por um fator ambiental ou ainda comportamental. Isso ainda exige mais estudos. O nosso próximo passo será avaliar se existe relação do câncer de boca com o vírus HPV (transmitido por relação sexual desprotegida principalmente)”, afirmou o dentista.

A hipótese de relação do câncer de boca com o vírus HPV – que se não tratado pode evoluir para câncer de colo do útero – já apareceu em outros ensaios científicos que identificaram que portadores de câncer de traqueia e amígdala tinham o vírus do HPV, mas ainda não há consenso de que um interfere no aparecimento do outro.

Apague o cigarro

Ainda que entre os pacientes de câncer de boca mais novos o cigarro tenha aparecido em menor escala, é importante ressaltar que metade dos portadores é fumante. De forma geral, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) coloca o álcool e o tabaco como fatores principais para o desenvolvimento do câncer na boca. Só para este ano, são projetados pelo governo federal 14.160 novos casos pelo governo federal, sendo 10.380 homens e 3.780 mulheres.

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