Conheça um lado da cirurgia plástica que vai além do silicone e da lipo

Na mesa do cirurgião plástico Luiz Carlos Garbossa, o bisturi tem muito mais trabalho por causa da violência urbana do que por motivações estéticas – lipoaspiração e implante de silicone ficam em segundo plano.

Em maioria, mulheres vítimas de agressões doméstica, jovens deformados em acidentes de carros ou por conta de dívidas de tráfico de drogas “pagas” literalmente com o corpo dos devedores dividem os leitos da clínica do especialista.

As cirurgias plásticas não são só estéticas. Elas corrigem também marcas da violência e de doenças
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As cirurgias plásticas não são só estéticas. Elas corrigem também marcas da violência e de doenças
“Pela minha experiência, 70% das cirurgias plásticas são para corrigir deformações e não por insatisfação com alguma parte do corpo”, afirmou Garbossa, que atua em Sorocaba, interior de São Paulo. “É um lado muito importante da plástica, desconhecido pela maior parte do público. Nós cirurgiões somos muito mais conhecidos pela área estética dos procedimentos”, completou o especialista.

Os seios turbinados e cinturas afinadas são, de fato, as grandes estrelas da cirurgia plástica brasileira, vitrines dos cirurgiões do País no exterior e campeãs numéricas de procedimentos realizados (superam as cirurgias cardíacas e pulmonares).

Já a chamada plástica reparadora, apesar de muito frequente, não conta com o glamour típico da sua “prima-irmã”. Os cirurgiões plásticos, então, se reuniram para tentar reverter a desvalorização dos procedimentos que, só para citar dois exemplos, reconstroem a pele de pessoas queimadas e desenham novamente o nariz e boca de agredidos em brigas de rua.

10 cirurgias por hora

Uma das estratégias para atrair os olhos da população para a importância da cirurgia plástica reparadora começou nesta terça-feira, dia 25, no Estado de São Paulo. Incentivados pela Sociedade Paulista de Cirurgia Plástica, oito hospitais “abraçaram” a causa para realizar um mutirão de cirurgias reparadoras.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBPC), Sebastião Guerra, pelas projeções, em dois dias de mutirão serão realizadas 500 plásticas do tipo, uma média de 10 por hora.

Um dos hospitais participantes foi o Vila Penteado, na zona sul da capital paulista. Em quatro horas, foram três plásticas, duas para queimados e uma para reconstruir o coro cabeludo de um motoqueiro acidentado. “A nossa rotina de cirurgia plástica é silenciosa, sem divulgação”, afirma o cirurgião responsável pelo hospital, José Antônio Cezaretti. “A visão da plástica é restrita, quase fútil. Seria importante as pessoas conhecerem essa função de devolver a beleza para quem perdeu em um acidente.”

Não apenas para divulgar o lado sem glamour da plástica serve o mutirão. Diminuir a demanda reprimida de pacientes que aguardam na fila para conseguir voltar a encarar o espelho também é uma necessidade. A cirurgia plástica reparadora, em alguns casos, é considerada um procedimento eletivo. A fila de espera pode se arrastar por anos. Em dias normais, em vez de 500 cirurgias, as unidades participantes realizariam só 20 cirurgias no mesmo intervalo de tempo.

Próximos capítulos

O último levantamento da SBPC, divulgado em janeiro do ano passado, mostrou que anualmente são em média 54.300 pessoas que precisam de uma cirurgia plástica após uma queimadura, um acidente de carro ou doméstico, além de outras formas de violência. Quase 100% dos casos acabam no Serviço Único de Saúde, que não tem estrutura ou recursos para absorver toda esta demanda.

A plástica reparadora, quase sempre, funciona como o próximo capítulo de um episódio violento, a chance da vítima voltar a procurar uma vida normal. Foi assim para as duas jovens que este ano tiveram parte do corpo queimado após um ataque de traficantes no Rio de Janeiro, que incendiaram dois ônibus quando os veículos circulavam pelo bairro Cidade de Deus.

As marcas do câncer

Além dos pacientes queimados e vítimas de agressões, tentativas de homicídio ou batidas de veículos, a cirurgia plástica reparadora também serve para amenizar as marcas de doenças graves como o câncer.

Os tumores quase sempre deixam cicatrizes e para reverter as sequelas físicas é preciso o trabalho minucioso dos cirurgiões plásticos. A pesquisa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mostra que os cânceres e tumores englobaram 42% das 159 mil cirurgias reparadoras feitas no País.

A reconstrução da mama é um dos principais procedimentos feitos e, da mesma forma que a cirurgia para corrigir a violência, ajuda as pacientes a escrever o próximo capítulo de suas vidas após doença. Foi assim com a pedagoga Tânia Gomez que descobriu o câncer aos 52 anos e já saiu da mesa de cirurgia com o seio reconstruído, pronta para seguir sua jornada. Foi assim também com as mulheres contempladas pela “plástica do bem”, atendidas no mutirão de São Paulo que começou esta semana.

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