Estudo mostra necessidade de combate simultâneo do tabagismo e da obesidade

Pesquisa defende combate simultâneo ao tabagismo e obesidade
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Pesquisa defende combate simultâneo ao tabagismo e obesidade
As mulheres que têm o cigarro como companhia quase sempre dizem ter receio de abandonar o vício por causa da balança. Ao parar de fumar, uma das consequências negativas é o ganho de peso e, para quem já é obeso, uma pesquisa acaba de mostrar que esta sequela é ainda mais forte.

Durante oito anos, foram acompanhados 840 fumantes que estavam tentando parar de fumar. Ao final do período de análise, apenas 85 – pouco mais de 10% – haviam conseguido. Neste grupo, a média de ganho de peso foi de 8,3 quilos e o número variou de acordo com o índice de massa corpórea (IMC) de cada um. (*para calcular o IMC é preciso dividir a altura pelo peso ao quadrado).

Entre os que já eram “gordinhos” antes do estudo começar – ou seja, que iniciaram a análise com índice de massa corpórea (IMC) entre 23 e 30 – os ponteiros da balança subiram 10 quilos no intervalo de anos monitorado. Já os obesos mórbidos (com IMC acima de 35) ganharam 19,3 quilos, uma média de 2,4 quilos por ano que não fumaram. Os ex-tabagistas com peso normal acumularam 7,8 quilos em oito anos de estudo.

Deborah Lycet, autora do estudo feito pela Universidade de Birmingham, no Reino Unido, afirmou na conclusão da pesquisa que muito mais do que provar que o “parar de fumar” pode impulsionar o ganho de peso, o trabalho indica que é preciso criar fórmulas de combater o tabagismo e a obesidade de forma simultânea, já que as duas condições são maléficas à saúde.

A boa notícia, afirma a presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso) Rosana Radominski, é que é possível parar de fumar sem engordar. Ela explica que são dois os fatores que fazem as pessoas associarem o cigarro à manutenção do peso.

“Primeiro porque o tabaco aumenta os batimentos cardíacos e a temperatura do corpo, o que faz o gasto calórico ser maior. O outro motivo é que o ato de fumar altera o paladar. Ao parar de fumar, as pessoas começam a sentir melhor o gosto e o sabor dos alimentos. Por isso, comem mais.”

Mas, atenção defensores do fumo: a especialista da Abeso diz que o mesmo cigarro faz com que o processo de acúmulo de gordura seja maior na região abdominal.

“O cigarro não é tão culpado assim pelo ganho de peso. As mulheres, principalmente, que ficam muito preocupadas com o prejuízo estético sem o fumo, precisam entender que a ansiedade acaba interferindo mais neste processo”, diz ela.

“Por isso, se atrelado à tentativa de parar de fumar, as pessoas fizerem um controle alimentar e praticarem exercícios, é perfeitamente possível não engordar.”

Táticas

Uma das dicas é aproveitar o “novo paladar” para saborear alimentos saudáveis como frutas e verduras que ajudam a melhorar o humor , em substituição aos calóricos chocolates, balas e chicletes, inimigos de qualquer dieta.

Outra tática é usufruir da melhora no fôlego obtida após o fim do hábito de fumar. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, após 72 horas sem fumar, a capacidade pulmonar aumenta em 30%, o que pode ser um grande incentivo para começar uma atividade física.

O sedentarismo, inclusive, é uma das explicações para os obesos fumantes ganharem mais peso ao parar de fumar. Como a maior parte já não praticava uma única atividade, o cigarro era o único gasto calórico. Sem ele, o peso extra é consequencia que pode ser prevenida.

Mais risco

Uma das cautelas com as conclusões da pesquisa da Universidade de Birmingham é a falsa ideia de que parar de fumar não traz benefícios. É fato que algumas pesquisas já revelaram que as pessoas acima do peso sofrem, atualmente, muito preconceito – dificuldade para conseguir emprego, promoções e até relacionamentos afetivos. Esta constatação, entretanto, não pode fazer com que o tabagismo seja encarado como um risco menor do que a obesidade.

T

abagismo é fator predominante entre os novos registros de câncer, afirma o Instituto Nacional do Câncer (Inca), responsável por mais de 90% dos casos de neoplasia maligna de pulmão, boca, laringe e faringe.

Um levantamento feito pelo Hospital do Coração (HCor) com 27 mil pessoas mostrou que o risco de infarto aumenta em 63% nas pessoas que fumam menos de dez cigarros por dia. Entre os que fumam entre 10 e 19 cigarros, a possibilidade é ampliada em 2,6 vezes. Mais de um maço (20 cigarros ou mais), a ampliação do risco de dano cardíaco é de 4,6 vezes.

Kit fissura

Ainda que a obesidade também apareça na lista de fatores de risco cardíaco e oncológico, o mecanismo de ação é diferenciado do tabaco. A pessoa que fuma tem problemas cardiovasculares por falhas na circulação, aumento de pressão arterial e possibilidade aumentada de “entupimento” das veias, primeiro passo para o infarto ou acidente vascular cerebral. Já os obesos têm risco aumentado também por causa da hipertensão, mas há ainda o processo inflamatório do peso excessivo, que compromete os vasos cardíacos.

“Isso indica que a pessoa que fuma e tem excesso de peso convive com dois fatores de risco cardiovasculares independentes”, acrescenta a presidente da Abeso, Rosana Radominski.

Como estratégia para combater os dois males à saúde – obesidade e tabagismo – o Cratod (Centro de Referência e Treinamento de Álcool, Tabaco e Outras Drogas), elaborou o chamado “Kit fissura”. Indicado para aqueles que estão tentando abandonar o cigarro, mas ficam muito impacientes quando não fumam e correm para um doce, os nutricionistas da instituição distribuem um saquinho formado por composto por fibras naturais, como damasco, uva passa, cravo, canela e casca crocante de laranja. Sempre que tiver vontade de fumar, a pessoa pega um pouquinho da mistura, coloca na boca e alivia a vontade de fumar, sem consumir excesso de calorias.

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