Nervos grossos demais e fora do lugar previsto dificultam a aplicação de anestésicos

Não é raro encontrar quem reclame de dor na cadeira do dentista, mesmo quando ele aplica boas doses de anestésico. Quem já passou por isso diz que a anestesia "não pegou” e quando essa situação se torna frequente, dá a impressão de haver uma espécie de tolerância às medicações. Mas afinal, o que acontece quando a anestesia falha?

“Existem duas causas básicas”, resume Carlos Eduardo Lopes Nunes, presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA). A primeira é anatômica. “Ninguém é igual a ninguém. Estamos sujeitos a variações de anatomia que podem resultar em nervos um pouco afastados dos locais previstos”, explica o médico.

Dor persiste quando a anestesia falha
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Dor persiste quando a anestesia falha
Com o nervo mais distante, mesmo que apenas poucos milímetros, o efeito do anestésico pode ser prejudicado. Isso é um problema grave especialmente na anestesia condutiva.

Nesta técnica, a medicação é aplicada nos nervos para bloquear a transmissão da informação de dor para o cérebro. “É por isso que o dentista aplica uma anestesia na gengiva e a ponta do queixo fica dormente”, esclarece o médico.

Mas existe outro tipo de anestesia, na qual a medicação é aplicada na pele e proporciona apenas um efeito no local a ser tratado. “É essa anestesia que se aplica na pele quando o paciente vai receber pontos em um corte não muito profundo”, exemplifica.

Nervo protegido

As anestesias também podem falhar quando os nervos são revestidos por uma camada protetora muito espessa. Todo nervo tem uma capa externa chamada de bainha de mielina. Em portadores de esclerose múltipla, por exemplo, o desgaste desta camada favorece a perda de movimentos.

No caso do uso de anestésicos, a bainha de mielina muito espessa pode reduzir a quantidade de medicação que chega ao nervo. Resultado: a sensibilidade do paciente não é totalmente eliminada. O princípio vale para anestesias usadas em procedimentos odontológicos e médicos.

Tornozelo de Aquiles

Um ponto fraco das técnicas de anestesia fica em evidência nas cirurgias de tornozelo. “O tipo de fibra nervosa que sai da espinha e vai para o tornozelo é muito grosso”, afirma o médico. Isso pode dificultar o efeito da anestesia peridural.

Esse tipo de anestesia é aplicado nas costas, para impedir que as informações de dor cheguem até a parte inferior do corpo (da cintura para baixo). “Não é raro o paciente perder a sensibilidade das pernas, mas ainda sentir o tornozelo”, conta. Nestes casos, o jeito é recorrer a formas complementares de bloqueio da dor.

Região inflamada

Aplicar anestesia em regiões inflamadas é um desafio a parte para médicos e dentistas. “Áreas inflamadas têm um pH muito baixo e isso prejudica o efeito dos anestésicos”, afirma Patrícia de Oliveira Afonso Pereira, da Associação Brasileira Odontologia (ABO).

Segundo a dentista, essa é a razão de alguns pacientes ainda sentirem dor em tratamentos de canal. “A região está inflamada”, ressalta. A solução é recorrer a um bloqueio mais amplo da região, com a aplicação do anestésico mais próximo da origem do nervo, onde não haja inflamação.

Para ajudar, a dentista pode ainda fazer uma sedação consciente, com o uso de calmantes. “Nervosismo e ansiedade são outros problemas que podem agravar a percepção de dor”, aponta a especialista.

Ela comenta que muita gente tem medo de ir ao dentista e, por isso, acaba tendo a tolerância à dor reduzida. “O paciente está tão ansioso que sente qualquer estímulo como se fosse dor”, conta. Para resolver o problema, é preciso fazer um trabalho de combate à ansiedade e ao medo de dentistas.

Reação alérgica

O medo de dentista também pode ser confundido com reações alérgicas ao anestésico. “O paciente diz que desmaiou, mas isso é mais comum quando se tem medo do tratamento. Não é alergia”, afirma Patrícia.

Se o paciente realmente tiver uma resposta alérgica, vai reclamar de coceira e inchaço. Em casos mais extremos, há risco da respiração ser prejudicada, o que requer intervenção médica imediata.

Antes de aplicar uma anestesia, todo dentista deve questionar se o paciente tem alguma alergia. Existem basicamente duas substâncias que provocam respostas alérgicas, o parabenos e os sufitos. O primeiro é um conservante e o segundo se refere a um conjunto de antioxidantes. Ambos podem ser substituídos.

A situação fica complicada quando a pessoa é alérgica ao sal do anestésico, porque ele está presente em todas as anestesias de dentistas. Nesta situação, o dentista pode recorrer a um antialérgico que tem efeito anestésico local.

“Ele pode ser usado em casos de urgência, quando o paciente não sabe ao certo a origem de sua alergia”, afirma.

Solução infalível

Anestesias locais podem falhar e deixar o paciente com alguma sensibilidade, mas a anestesia geral não. “Ela funciona sob outro princípio”, ressalta Lopes Nunes.

O anestésico é aplicado na corrente sanguínea do paciente ou inalado na forma de gás. Assim, ele logo chega ao cérebro e deixa a pessoa inconsciente, livre dor.

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