Excesso de semelhança entre pai e mãe pode provocar falha imunológica durante a gestação

O desafio de ter um filho é enorme para casais com problemas de compatibilidade imunológica. Até que essa falha no organismo da futura mãe seja descoberta, a mulher pode sofrer diversos abortos.

O desgaste emocional é duplo nestes casos. Ele acontece pelas gestações interrompidas e também porque o diagnóstico é feito por exclusão. Isso significa que a mulher passará por diversos exames, em busca de problemas mais frequentes e simples de identificar, até chegar às causas imunológicas.

Problema de compatibilidade imunológica entre o casal pode demorar para ser diagnosticado
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Problema de compatibilidade imunológica entre o casal pode demorar para ser diagnosticado
São feitos testes para infecções, deficiência hormonal e falhas anatômicas, por exemplo. Mas os resultados mostrarão que tudo está em ordem. “Isso é muito angustiante para mulheres e médicos”, comenta Silvia Daher, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e membro da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia).

Uma forma de identificar o problema imunológico é por um exame chamado cross-match. Ele investiga se o sangue da mãe tem anticorpos contra o sangue do pai, mais especificamente contra um elemento do sangue, os glóbulos brancos.

Diferente ou muito parecido?

Os problemas de compatibilidade imunológica são causados quando há muita semelhança entre o casal, e não quando há muita diferença. O ideal é que os dois sejam bastante incompatíveis, do ponto de vista genético.

Os componentes genéticos do casal formam o feto, sendo parte da mãe e parte do pai. Essa combinação gera uma formação imunológica diferente, que é identificada como um corpo estranho dentro do organismo da mãe. É algo semelhante à reação do corpo ao implante de um órgão em pessoas transplantadas.

O organismo reage para se proteger. Ele cria anticorpos, instrumentos naturais de defesa, para atacar o corpo estranho. No caso dos transplantados, medicamentos são dados para agir sobre a resposta imunológica.

Já no caso das grávidas, o próprio organismo cria mecanismos para impedir que a resposta imunológica leve a um aborto. Quando há falha neste processo, a gestação é interrompida. "Quando o organismo rejeita a gravidez, esse tipo de aborto se chama alo-imune, e o problema deve ser identificado e tratado antes da mulher engravidar", alerta o ginecologista Joji Ueno, diretor da Clínica Gera e do Instituto de Ensino e Pesquisa em Medicina Reprodutiva de São Paulo.

Abortos e mais abortos

Quando uma mulher tem a gravidez interrompida, a chance disso acontecer outra vez é de 15%. “O risco sobe para 24% no caso de dois abortos, e cresce mais ainda para 30%, no caso de três abortos”, revela o obstetra e imunologista Leandro Gustavo de Oliveira, professor da Unifesp.

Para se configurar um quadro de aborto de repetição, a mulher precisa ter sofrido três ou mais perdas. “Isso acontece com pouco menos de 5% das mulheres que engravidam”, afirma Oliveira.

Vacina personalizada

Uma das formas de tratar o problema de compatibilidade do casal é com a chamada terapia imunológica, ou imunoterapia. Ela consiste na aplicação dos linfócitos do pai no organismo da mãe, antes da gestação, para forçar uma resposta imunológica adequada.

É como criar uma vacina personalizada, produzida com os glóbulos brancos do pai, para que o embrião seja reconhecido quando chegar ao útero materno.

“Estudos mostram que o procedimento tem resultados positivos em 80% dos casos”, ressalta Oliveira.

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