Tumores em menores de 9 anos tendem a ser de origem genética e de uma linhagem distinta do câncer em adultas

Na semana passada, a imprensa internacional noticiou o caso de uma menina de 4 anos, moradora de Toronto (Canadá), que precisou fazer quimioterapia e até mastectomia (cirurgia para retirada da mama) por causa de um câncer no local.

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As informações publicadas no jornal Daily News dão conta de que a garota já está curada e que o tumor seria na região da mama, mas em decorrência de neoplasias linfáticas. O Delas fez um levantamento no banco de dados do Ministério da Saúde e constatou que de janeiro de 2008 até novembro de 2010 – último mês disponível para consulta – foram registrados 111 internações por câncer de mama em pacientes de 0 a 9 anos de idade no Brasil, o que representa menos de 0,1% do total de casos (118 mil).

Ainda que a própria quantidade numérica já sugira o câncer de mama como uma raridade para as pacientes infantis, o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica, Cláudio Galvão de Castro Júnior, acrescenta que até mesmo estas estatísticas podem estar superestimadas.

“São registros pouco precisos porque os médicos, quando fazem a notificação, registram os diversos cânceres que podem acometer a região da mama da criança”, enfatiza.

“Em pacientes desta faixa-etária, em geral, tratam-se de sarcomas, tipos de tumores de uma linhagem diferente dos carcinomas, estes sim frequentes na mulher adulta e praticamente inexistentes nas crianças”, explicou o presidente da Sociedade.

Uma revisão médica publicada no Journal of Surgical Research, em 2008, analisou 75 casos de cânceres na região da mama em meninas de 11 a 19 anos e confirma a avaliação de Castro Júnior. Mesmo nesta faixa-etária um pouco mais velha – que já poderia ter influência dos hormônios femininos para o desenvolvimento da doença – os pesquisadores norte-americanos concluíram que 45% dos casos tratavam-se mesmo de sarcomas, que não necessariamente são cânceres de mama.

O mastologista Roberto Gomes, presidente da Federação das Sociedades de Cancerologia da América do Sul, afirma que este tipo de tumor tem origem, em especial, em mutações genéticas.

“Na criança, a hereditariedade fala mais alto, porque os fatores externos (como alimentação, estresse e bebida alcoólica) não tiveram tempo de agir. As alterações nos genes nestas condições são muito fortes e temos casos de pacientes infantis que já desenvolvem o câncer no útero da mãe.”

O tratamento e as chances de cura dependem do estágio do tumor e da região afetada. Roberto Gomes afirma que em linhas gerais a quimioterapia é indicada e mastectomia também pode ser necessária. A reconstrução da mama é feita quando a paciente torna-se adolescente.

Por lidarem com o diagnóstico precoce de uma doença mais recorrente no universo adulto, as pacientes infantis exigem um acompanhamento médico mais constante ao longo da vida, mesmo quando curadas. Isto porque, assim como acontece com o câncer de pele – que dobra os riscos dos aparecimento de outros tipos de tumores – estas garotas também entram para o grupo de mais suscetível a outras formas da doença.

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