A gerente de marketing Andrea Longhi, 44 anos, tem expediente puxado, filhos e obteve índice para a desejada Maratona de Boston

A gerente de marketing Andrea Longhi:  vitoriosa após a Maratona de Berlim
Arquivo pessoal
A gerente de marketing Andrea Longhi: vitoriosa após a Maratona de Berlim
A atividade física de Andrea na infância e adolescência foi o balé.

“Nunca tive o perfil de esportista; era uma negação em esportes coletivos. Então segui pelo caminho da dança”.

Aos 20 e poucos anos, se rendeu à natação. Aos 30, depois do primeiro filho, resolveu procurar um treinamento mais orientado.

“Queria alguma coisa mais intensa. Por conta do horário, acabei caindo no treino dos triatletas, que era bem puxado. Resultado: na gravidez tinha engordado 10 quilos e com a natação emagreci 14”.

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Mas os treinos eram difíceis. Foi aí que seu treinador sugeriu a corrida. “Comecei a ter performance na corrida, muito mais do que na natação. A corrida entrou na minha vida primeiro como uma maneira de manter a forma, mas rapidamente se tornou fonte de conquista e satisfação pessoal”.

Em 1997, um ano depois que começou a correr, Andrea arriscou-se na primeira maratona. “Treinei um pouco, mas não tinha a menor noção do que realmente significava a distância. Foi mais uma decisão do meu marido do que minha. Íamos tirar férias, viajar para San Diego, e aproveitaríamos para correr”.

Ela conta que, embora tenha feito um tempo considerado bom para uma amadora (quatro horas), a estreia nos 42 quilômetros foi sofrida. “Não tinha lastro, não tinha o preparo necessário, mas despertou o gosto pelas provas. Me estimulou a treinar mais forte”.

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Em 2002, em Chicago, Andrea repetiu a dose de maratona e conquistou seu melhor tempo até hoje. “Meu objetivo era completar em 3h45m. Finalizei com 3h38m. Foi com essa prova que me tornei a corredora que sou hoje: alegre, competitiva, determinada, forte”.

Nesse período a corrida teve importante papel na vida da gerente de marketing. “Eu havia me separado e carregava uma tristeza enorme dentro de mim. Correr me livrava desse sentimento". E ela deixava tudo de ruim pelo asfalto.

"Em uma determinada época da vida, parece que a mulher dentro da gente fica esquecida. Na corrida eu resgatei esse lado mulher de novo. Quando corro não estou agradando meu chefe, meu marido, meus filhos. Estou agradando a mim”.

Em uma prova de revezamento em Florianópolis: nenhum obstáculo é intransponível para Andrea
Arquivo pessoal
Em uma prova de revezamento em Florianópolis: nenhum obstáculo é intransponível para Andrea

Outro momento de superação na corrida, que Andrea acredita ser o mais marcante em sua trajetoria esportiva, aconteceu em 2011. Desde o início do ano, ela estava decidida a correr a Maratona de Berlim, em setembro, para obter índice para a Maratona de Boston – prova que exige tempo classificatório para o corredor se inscrever.

“Mas no final de 2010 rompi o ligamento do joelho e o médico que procurei me aconselhou a esquecer maratona em 2011. Procurei outro especialista, que disse que eu poderia tentar. Iríamos devagar, dentro de um planejamento bem cauteloso”.

As respostas positivas começaram a aparecer. “Fiz seis meias maratonas em seis meses. E isso foi me fortalecendo”.

Mas a 20 dias de Berlim, Andrea ganhou uma lesão na panturrilha. “Um certo pânico se misturou ao meu otimismo nato. Corri para o médico e avaliei o estrago. Felizmente era uma lesão levinha. Um pouco de fisioterapia e daria tudo certo”.

Um dia antes da maratona, porém, a dor voltou. Ela não conseguia colocar o pé no chão. “Foi uma decisão do coração: estava ali, iria fazer a prova. Tinha que voltar com medalha, que significava muito para mim”.

Na Maratona de Nova York, em 2007
Arquivo pessoal
Na Maratona de Nova York, em 2007
Do primeiro até o 11º quilômetro, tudo foi bem, apesar de uma dorzinha. “No 11, o que parecia uma câimbra me tirou o humor, a segurança e o sorriso do rosto. Não conseguia por o pé no chão, não conseguia me desentortar, mas não ia parar. Desistir não era opção", conta.

Aos poucos, ela se acostumou com a dor e foi em frente. "Foi como um parto normal, você sente dor, mas não tem como fugir da mesa. Sei que corri e corri forte e não morri. Consegui o tal do índice ao descobrir que dá para enfrentar a dor de frente, com espadas imaginárias nas duas mãos e confiança nas duas pernas”.

Andrea terminou a maratona de Berlim em 3h48m, tempo mais do que suficiente para classificar-se para Boston (que exige 3h55m na faixa etária da corredora).

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A experiência de superação do esporte também é levada para o dia a dia. “Quando estou em uma situação difícil, vou lá no dia da maratona e penso no que enfrentei para chegar”.

Sobre como consegue distribuir seu tempo em meio a tantas atividades, ela conta que tudo se encaixa quando você decide fazer bem as coisas.

“Não entendo quando as pessoas dizem que não têm tempo para a atividade física. Na verdade você ganha tempo, porque se sente melhor e seu dia rende. A corrida é um dos meus pilares, junto com meus filhos, meu trabalho e meus amigos”.

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Mãe de dois meninos, ela sempre encontra tempo e faz questão de estar com os filhos. E gosta de lembrar uma situação com o mais velho. “Ele era pequeno e eu estava encapando os cadernos da escola quando ele virou para mim e disse: ‘você é a mãe que mais trabalha e a melhor encapadora de cadernos’. A vida ganha importância nas coisas que você escolhe fazer bem. Acredito que sou boa mãe, boa profissional, boa amiga e boa corredora”.

Depois de Berlim com dor e o índice para Boston, agora Andrea alimenta o desejo de uma maratona em 3h30m. “Sempre tive esse sonho. Mas havia ficado distante. Em Berlim me aproximei dele novamente. Posso evoluir mais”, acredita.

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