Tratamento com agulhas ajuda reduzir os efeitos colaterais da quimioterapia

Elizabeth espera não sentir mais dor com a ajuda da técnica chinesa
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Elizabeth espera não sentir mais dor com a ajuda da técnica chinesa
Em agosto de 2009, a balconista Josenilde Gomes de Oliveira, 41, passou por uma cirurgia para retirar um tumor de dois centímetros na mama esquerda. O câncer era maligno e fez com que ela perdesse grande parte do seio.

Após a cirurgia, Josenilde deu continuidade à quimioterapia. A dor e a secura da boca fizeram com que os médicos a encaminhassem para um tratamento paralelo, que tem mostrado bons resultados em hospitais públicos do Brasil: a acupuntura.

Desde março, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) aplica técnicas da acupuntura em pacientes com câncer. Segundo a fisiatra Rebeca Boltes Cecato, o objetivo da terapia é sanar a dor e amenizar náuseas, vômitos, fadiga, ansiedade, depressão e diarréia, efeitos colaterais comuns após as sessões de quimioterapia e radioterapia.

Após cinco sessões, a balconista afirma que a acupuntura a faz esquecer a doença. “Sentia uma dor muito forte na mama esquerda. Tinha muita dificuldade de realizar simples tarefas domésticas. Agora posso dizer que não tenho mais nenhum sintoma que me lembre da doença.”

O tempo de tratamento é relativo, varia conforme o quadro clínico de cada paciente, explica a fisiatra do Icesp. “No caso de Josenilde, a dor, motivo de maior reclamação, já foi sanada e ela deve ter alta nos próximos dias.” A balconista, porém, continuará recebendo acompanhamento médico. Caso volte a sentir algum desconforto, as sessões podem ser retomadas. “Em muitos casos, conseguimos acabar com os sintomas. Não podemos prever se eles voltarão, mas a eficácia tem sido constante”.

No mesmo ambulatório, Elizabeth Ambrosio, 74, está deitada na maca, esperando receber as agulhadas da doutora Rebeca pela primeira vez. A aposentada relata que teve três tumores malignos na mesma mama. O mais recente, afetou a axila e comprometeu os movimentos da mão esquerda. Em tratamento com quimioterapia e radioterapia há quatro anos, ela espera que a medicina chinesa acabe com a dor e possa ajudá-la a relaxar. “Tenho uma cabeça boa, sou confiante. Tenho certeza que esse tratamento me ajudará a relaxar o braço, a mente e acabar com a minha dor.”

Usar a acupuntura como aliada no tratamento do câncer tornou-se um estratégia de diversos hospitais públicos do País. No Rio de Janeiro, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) incorporou a técnica há oito meses. As sessões são realizadas na Clinica da dor, ambulatório que oferece terapia ocupacional, fisioterapia e auxilio psicológico aos pacientes com câncer.

Segundo o anestesista e médico da Área de Controle da Dor, Marco Antônio da Costa, no Inca, o alcance do tratamento tem sido bem variado. Não é possível resolver os efeitos colaterais de todos os tipos de câncer, mas os resultados têm superado as expectativas. “Começamos a usar a acupuntura para tratar a dor, mas estamos conseguindo evoluções positivas em casos mais pontuais da doença.”

Pacientes da radioterapia têm uma imunidade muito baixa, o que pode desencadear um tipo de herpes menos comum, desenvolvido no tórax, comenta Costa. Nesses casos, a acupuntura trabalha os pontos do sistema nervoso para estimular as células de defesa e reequilibrar o organismo.

Outro exemplo de sucesso relatado pelo médico foi em um paciente com câncer de cabeça e pescoço. O tumor provoca uma contratura da boca, impedindo que a pessoa fale e se alimente. O tratamento estimula o relaxamento da mandíbula e permite que o paciente coma sem a sonda. “A sonda é muito invasiva, exige uma cirurgia para ser colocada. A acupuntura melhorou o quadro clínico e deu bem estar ao paciente.”

Os resultados, aponta o anestesista do Inca, devem aparecer rapidamente e, para serem satisfatórios, precisam ter 90% de resposta. No caso do combate a dor, o índice deve chegar, na maioria das vezes, a 100%. “Fazemos tratamentos individualizados. Nem todos respondem da mesma forma, mas isso é facilmente notado. Um resultado de 30% no caso de dor pode ser um alivio para o paciente, mas para o tratamento é sinônimo de fracasso.”

Técnica antiga

As agulhas são aplicadas em diversos pontos pelo corpo
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As agulhas são aplicadas em diversos pontos pelo corpo
Em Porto Alegre, a professora Lúcia Miranda Monteiro dos Santos, chefe do serviço de Tratamento da Dor e Medicina Paliativa do Hospital das Clínicas, aplica as agulhas nos pacientes com câncer desde 1981. A medicina chinesa não é novidade para o hospital. A acupuntura é usada desde 79, época em que o tratamento ainda não era reconhecido pelo Conselho Nacional de Medicina.

No HC de Porto Alegre, porém, o foco é mais abrangente. Pacientes com diabetes, dor de cabeça crônica, dor na coluna cervical, além dos casos de câncer, são tratados com a técnica. O objetivo, em todos eles, é acabar com a dor e amenizar os efeitos dos remédios, reequilibrar o organismo. Em média, 80 pessoas, com os mais variados problemas, são atendidas semanalmente pelo serviço.

Segundo a professora, o câncer exige um acompanhamento mais longo, que é feito juntamente com a quimioterapia. “Enquanto o paciente estiver tomando os medicamentos a acupuntura está ao lado, com sessões semanais.”

Lúcia relata que alguns medicamentos usados no combate ao câncer provocam uma sensação de queimação nas mãos e nos pés. Ela revela que o remédio age no tumor, mas causa uma agressão aos nervos periféricos. “A acupuntura reequilibra o organismo e ajuda a recuperação do tecido nervoso, eliminando o problema.”

Em casos mais graves, quando o câncer já avançou e não reage mais aos tratamentos convencionais, a acupuntura tem de ser permanente, comenta. “A dor é persistente e contínua. Os tumores evoluem e o tratamento é eterno, atrelado a medicações.”

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