Carla Amaral, 37 anos, espera pela cirurgia de mudança de sexo "desde que nasceu"
Quando ela passa, os homens esticam os olhos para tentar acompanhar por mais tempo o andar cheio de gingado, que tenta equilibrar a cintura fina, o quadril largo e os seios fartos. O corpo feminino de Carla Amaral não desperta só interesse. A mesma “gatona” também já escutou que é uma “aberração”, só um dos exemplos de violência que enfrentou.
Carla não nasceu Carla, mas sempre soube que era mulher, apesar do registro indicar “sexo masculino”. O último resquício que carrega da identidade que nunca assumiu é o pênis, que garante ser usado, de forma desconfortável, só para urinar. “Hoje está até atrofiado”, diz. Ela, há 13 anos, espera que o bisturi torne mais adequada a anatomia que reconhece como errada desde a maternidade.
A cada 15 dias, o procedimento cirúrgico tão aguardado por Carla é realizado em um paciente do Sistema Único de Saúde (SUS). A chamada cirurgia de mudança de sexo foi um dos últimos atos cirúrgicos reconhecidos pelo governo brasileiro e entrou para a lista de procedimentos gratuitos só em 2008. De lá para cá, 73 cirurgias foram realizadas, sendo 10 no primeiro ano, 31 em 2009 e 32 até novembro de 2010. A estatística é crescente, mas ainda irrisória perto da fila de espera formada por pessoas que, assim como Carla Amaral, sentem ter nascido no corpo errado.
Mulheres na alma
Eles não são travestis, homossexuais, drag queens ou transformistas. O nome é transexual, condição reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um transtorno de gênero. Não há nenhuma doença psíquica associada. Os que fazem parte deste grupo nascem com um órgão sexual que não condiz com a sua personalidade, explica o psiquiatra da PUC de São Paulo Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade, de Gênero e Orientação Sexual.
São “mulheres na alma” (dizem todas), mas que têm pênis. “Homens na cabeça” que nascem com vagina, tentam explicar assim. Desde que o mundo é mundo, eles tentam corrigir o equívoco de nascença com técnicas arriscadas, que envolvem automutilação, silicone industrial, hormônios proibidos e isolamento social. Carla Amaral foi vítima de todos estes perigos nos anos 80, 90 e 2000.
Carrinhos, bonecas e princesa
Era a segunda gravidez da mãe que já tinha um primogênito. A vontade de um “casalzinho” fez Maria Amaral desejar uma menina durante os nove meses da gestação. O nascimento, em 1973, trouxe ao mundo mais um varão aos Amaral. Mas daquela vez parecia ser diferente. A confirmação das diferenças veio com a chegada do terceiro filho, mais um menino. As semelhanças só surgiram após o nascimento da quarta filha, desta vez uma garota. “Eu era diferente dos meus dois irmãos e muito parecida com a minha irmã", conta hoje Carla.
"Usava modelos de roupa unissex, cabelos na altura dos ombros e quando ouvia a pergunta 'o que você quer ser quando crescer/?', imaginava sempre uma mulher alta, com seios grandes, feminina e poderosa.”
Se quando criança, o problema maior era ter de brincar com carrinhos e bola quando a vontade era ninar bonecas e vestir-se como princesa, na adolescência a vida ficou ainda mais complicada. O nome de batismo – que Carla se nega até hoje a pronunciar – foi virando ofensa. O relacionamento com o pai já havia “subido no telhado”. Ele não aceitava ter um filho tão parecido como uma filha. A mãe já não assistia à postura feminina do seu segundo garoto com naturalidade, mas a vontade de ser mulher parecia aflorar em Carla. A entrega sexual precoce aos 13 anos para um vizinho só reforçou que a homossexualidade não era explicação suficiente para aquela condição.
“Mais do que gostar do sexo masculino, eu queria morar num corpo parecido com a minha mente.”
Sem dinheiro e sem apoio, Carla procurou o silicone industrial e passou a tomar doses de hormônio por conta própria. “Sabia dos riscos, sabia que podia morrer por causa daquilo, mas juro que tudo parecia menos ofensivo do que continuar com o corpo de homem.”
Menos mistério na medicina, mais tormentos pessoais
Nas duas últimas décadas, a medicina passou a prestar mais atenção aos pacientes com transtornos de gênero e a cirurgia de troca de sexo deixou de ser feita só na clandestinidade. Os estudos também evoluíram.
“Até a metade dos anos 70 e início dos anos 80 só existiam pesquisas sobre a transexualidade que abordavam a influência psicológica e do meio externo”, afirma o psiquiatra especializado Alexandre Saadeh.
“Hoje, as pesquisas mensuram os fatores químicos existentes no processo. Já existem evidências de que não só a genética, mas componentes químicos interferem no desenvolvimento do cérebro (enquanto o bebê ainda está na barriga da mãe) e culminam nesta condição. É claro que não existe causa única, mas não é só o meio que interfere.”
Naquela época a ciência, aos poucos, começava a desvendar as razões para os cérebros incompatíveis com os corpos. As pesquisas faziam com que as técnicas, inclusive cirúrgicas, evoluíssem. Mas, no Paraná, Carla Amaral ainda era vista como um erro da natureza, uma afronta aos bons costumes. Perto dos seus 15 anos, os pais cortaram – à força – os seus cabelos. A mãe gritava o nome de batismo aos quatro cantos para agredi-la e, na escola, colegas de classe e professores reforçavam que ali não era lugar para aquela “coisa” indefinida.
“Aos trancos e barrancos terminei a 8ª série, mas não consegui mais voltar para o colégio. Ao mesmo tempo, sabia que sem o apoio da minha família, tinha que contar só comigo. Sem estudo, fui procurar emprego.”
Ônibus, prostituição e cobaia
Primeiro Carla foi atendente de farmácia, depois cobradora de ônibus – local em que, além de ser hostilizada, sofria assédio sexual diário – e, enfim, auxiliar de escritório. “O preconceito sempre permeou a minha vida profissional. Era mandada embora sem justificativa, assim como não me contratavam quando, após a entrevista cheia de entusiasmos e expectativas, eu mostrava meu RG e lá aparecia o gênero masculino na informação sobre o sexo.”
No final dos anos 90, o Conselho Federal de Medicina (CFM) classificou a cirurgia de mudança de sexo como um procedimento médico reconhecido no País. Carla, nestes tempos, se candidatou para passar pela cirurgia ainda que de forma experimental e vivia um período de desemprego absoluto. “Foi aí que me tornei profissional do sexo”, lembra.
A prostituição como um meio de sobrevivência fazia com que os dias terminassem com banhos longos. Carla sentia-se tão suja após se entregar por dinheiro que passava a bucha e sabão até machucar a pele. “Mas a vontade de fazer a cirurgia (de mudança de sexo) era tão forte que superava qualquer coisa.Precisava de dinheiro, precisava pagar as contas, precisava ser operada.”
A operação
A cirurgia de adequação do sexo masculino para o feminino consiste, em linhas gerais, na retirada do pênis, na construção de uma cavidade parecida com a da vagina com capacidade de substituir o trato urinário, em uma operação que supera 12 horas de duração. Já a “criação do pênis” é mais complicada, ainda tida como experimental e com riscos mais altos de complicação. Os movimentos de defesa dos transexuais do Brasil estimam que menos de cinco cirurgias do tipo foram feitas no País. Para cada caso, são em média 15 microcirurgias para o procedimento ser completo.
Hoje, de forma legalizada, apenas quatro centros universitários estão autorizados a fazer estas cirurgias, sendo um em São Paulo, um em Porto Alegre, um em Goiás e o último no Rio de Janeiro. Uma norma recente do CFM – datada da semana passada – deu margem para que, a partir de agora, as clínicas particulares também realizem o procedimento.
Dedos cruzados
A expectativa é com a nova resolução do CFM mais unidades fiquem aptas a absorver a demanda de pacientes que cresce a cada dia. Ainda assim, a comemoração vem com um tom de preocupação. “É uma luta nossa ampliar o número de unidades capacitadas (para a cirurgia de mudança de sexo), mas o meu receio é que ao perder o caráter experimental, clínicas sem condição e sem gabarito passem a atrair as meninas, que são tão agredidas pela vida que topam qualquer tratamento”, diz Cristyane Oliveira, uma das pioneiras a ser submetida a cirurgia de mudança de sexo no País há nove anos.
Hoje, para a pessoa conquistar vaga em um destes 4 centros cirúrgicos, é preciso ter mais de 21 anos e um laudo médico que comprove a necessidade da cirurgia. Por isso, ao menos dois anos de acompanhamento terapêutico são exigidos. Já com este documento em mãos, a estimativa é que 200 pessoas estejam na fila de espera. Uma delas é Carla Amaral. No dia seguinte do anúncio de que a cirurgia chegara aos hospitais públicos, ela já estava na fila para o cadastro . “É uma violência diária viver em um corpo que não é seu”, conta.
A possibilidade de ser operada faz com que Carla Amaral cruze os dedos todos os dias. “É a última vitória”, diz ao contabilizar suas conquistas recentes. “Via justiça, pedi para mudar meu nome e o gênero no RG. Minha mãe foi testemunha jurídica a meu favor. Este ano, consegui a mudança oficial no documento e a relação familiar voltou a ser ótima.”
O engajamento no “movimento trans” permitiu que Carla arrumasse emprego e deixasse de ser profissional do sexo. A cirurgia, considera ela, é o toque final para que a gata borralheira, finalmente, vire a tão sonhada cinderela.
Bom o que dizer... se vc discorda e porque e homofobico... se vc vai a favor... tudo bem, muita hipocrisia... o que vcs querem ler??? algo que satisfaça? sinceramente, so lamento mesmoooo!!!
Responder comentário | Denunciar comentárioeu nao tenho nada a ver com isso mas acho q a mudar a natureza de deus é um grande pecado,porq foi deus que fez mas cada um com sua conciensia.e deus que vai jugar na hora da morte de cada um.sera
Responder comentário | Denunciar comentárioQuanto preconceito ainda existe na nossa sociedade!!! A carla tem o direito sim de ser assistida pelo governo para sua mudança de sexo. Felizmente não é a "voz da sociedade" que define o que se faz com os impostos, e quais procedimentos são ou nao permitidos. Mas uma equipe multidisciplinar mais esclarecida e capacitada que compreende os problemas sem preconceitos. Quem discorda, é porque nunca conviveu com este problema, não conhece, não sabe nada sobre o assunto e talvez gostaria que este assunto nem existisse...
Responder comentário | Denunciar comentário"Me desculpem, mas o meu Deus é diferente do de vocês"...
Gente ,por favor,quem não conhece a verdade não fale besteira.Se quem está escrevendo estas coisas REALMENTE CRÊ E CONHECE A DEUS leia a bíblia antes de falar algo como esta frase acima,DEUS é um só,e a bíblia diz q "nosso corpo é templo do espírto santo e cada um prestará contas com DEUS por tudo o q fizer com ele".
Não tenho preconceitos contra nada e ninguém,cada um sabe da sua vida e como é feliz de verdade,se ela acha q é disso q precisa pra ser feliz fazer o que???É uma pena...
Mas não falem sobre o q não sabem...
PRI | 21/01/2011 13:47
ENGRAÇADO, SE DEUS É O UNICO QUE PODE JULGAR ALGUEM E NÃO JULGA, SE ELE DEU O LIVRE ARBITRIO E ESTÁ NA BIBLIA "DEUS NÃO FAZ DISTINÇÃO DE PESSOAS" QUEM É VC PRA JULGAR ALGUÉM? ACHO QUE NOSSO AMIGO SE EXPRESSOU MAL. O CORRETO NÃO SERIA "Me desculpem, mas o meu Deus é diferente do de vocês"... MAS SIM "Desculpe, mas vc está distorcendo a mensagem de Deus para servir ao seu preconceito" POIS PELO QUE EU SEI NA BIBLIA TBÉM ESTA ESCRITO QUE EXISTIA APENAS UM MANDAMENTO: "AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS E AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO" VC TEM CERTEZA DE QUE ESTÁ FAZENDO ISSO QUERIDA?
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PARABENS POR ESSA BATALHA Q VC ESTA ENFRENTANDO PORQ QR MUDAR DE SEXO VC E GUERREIRA.TEM Q FAZER OQ TEM VONTADE MESMO AS CRITICAS SEMPRE VAO ACONTECER MAS QM E O SER HUMANO PRA JULGAR.SEJA FELIZ BJOSS
Responder comentário | Denunciar comentáriobom eu tenho um sonho como todo mundo tem um e eu tenho certeza que desde quando me entendo por gente sou trans e como uma trans nao se aceita no seu corpo dezeja fazer a cirugia de mudança de sexo eu tenho uma coisa em mente mas tenho certeza do que quero e vou a luta sou decida eswpero que todas as pessoas que façam ou queram fazer a cirugia sejam decididas e nao tenham medo de se arrepender depois pois isso e uma coisa um a sensa çao que vem de dentro e nao um simples capricho. mellyssa woguel presidente do creta(conselho regional estadual de transsessuais da amazonia)
Responder comentário | Denunciar comentárioAssim sendo, a opinião de desprovidos da capacidade de entender é o que pouco importa. Achar certo ou errado a cirurgia de transgenitalização é apenas o que cada um pensa.O importante é que se trata de um direito, ao mesmo tempo que as pessoas TRANS pagam com seus impostos as cirurgias cardíacas, atendimentos de emergência em decorrência de acidentes e outros procedimentos realizados pelo SUS para todos aqueles que usam os serviços, as pessoas TRANS também tem o direito de serem atendidas dentro de suas patologias e principalmente no caso da readequação sexual CID 64.9. Pagamos impostos assim como todos vocês que aqui comentaram, e no entando niguém vem nos perguntar se nossos impostos podem ser destinados ao atendimento de alguém com alguma doença de coração por exemplo, assim como ninguém ira perguntar para aqueles que aqui comentaram se seus impostos devem ser destinados as cirurgias de readequação sexual. É um direito e ponto.
Responder comentário | Denunciar comentárioNão desmereço a cirurgia de troca de sexo, quem não gosta do seu corpo como é pode e deve fazer o que for necessário para ser feliz. Daí ao SUS bancar é outra história. Quem está infeliz com seu corpo e não tem um problema que afete sua saúde deve pagar por isso. Eu por exemplo tenho uma cicatriz enorme decorrente de uma cirurgia que afeta muito minha auto-estima, nem o SUS, nem o convênio que Eu PAGO, cobrem esse tipo de cirurgia reparadora, para resolver o problema eu vou ter que pagar por fora, além dos impostos e do convênio que pago.
Responder comentário | Denunciar comentárioFrancisco disse tudo! Puro preconceito por se tratar de uma cirurgia de mudança de sexo. Acidentes de transito, alcoolatras, pessoas com cancer (por causa do cigarro) são as coisas que mais dão gastos a saúde pública. Vão fazer protestos então pra que as pessoas cuidem melhor da sua vida e não deem mais gastos ao governo. Hipocrisia!!
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