Pesquisa mostra ainda que um em cinco classifica método de emergência como “microaborto”

Médicos desconhecem como age pílula do dia seguinte
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Médicos desconhecem como age pílula do dia seguinte
A pílula do dia seguinte faz parte não apenas dos receituários dos médicos do País mas do dia a dia dos profissionais da medicina.

Um estudo mostrou que 90% deles já prescreveram o contraceptivo de emergência e 25% já fizeram uso pessoal da pílula.

Um questionário foi aplicado a 3.337 ginecologistas e obstetras, atuantes em unidades públicas e particulares do Brasil. Apesar do índice de uso próprio da pílula do dia seguinte feito por estes profissionais – sete pontos porcentuais a mais do que a taxa de uso da população em geral (18,6%) – um em cada cinco médicos definiu o remédio como um “microaborto”.

Outros 57% dos participantes afirmaram que entendiam o medicamento como uma interferência após o óvulo ser fecundado, o que também dá a conotação de que este tipo de contraceptivo interrompe a gestação. O dado causou surpresa nos autores do estudo ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Estas convicções de parte dos médicos entrevistados estão mais alinhadas à Igreja Católica (contrária à pílula do dia seguinte) do que à produção científica que embasou o Ministério da Saúde, por exemplo, a oferecer o contraceptivo de emergência em sua “cesta básica” de métodos que previnem a gravidez indesejada, ao lado de camisinha, dos anticoncepcionais orais, do DIU e dos contraceptivos injetáveis.

“O estudo permitiu também ver que, entre os médicos que não orientam sobre a pílula (10% dos participantes), a percepção equivocada sobre o mecanismo de ação do método é um fator relevante”, afirma o autor do levantamento, o biólogo da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, William Alexandre Oliveira.

“Isso indica que nesse grupo de médicos que não prescrevem a pílula anticoncepcional de emergência, as convicções pessoais interferem na conduta médica, ou seja, são mais importantes para eles do que a informação científica.”

Uso e indicação

A pílula do dia seguinte é formada por um coquetel de hormônios e indicada para ser tomada em até 72 horas após a relação sexual desprotegida. Na década de 70, o medicamento foi elaborado para servir de opção para mulheres estupradas mas, desde 1996, a indicação também é voltada a pacientes que tiveram alguma falha com outros contraceptivos convencionais, como camisinha rompida ou esquecimento de algum comprimido da cartela do contraceptivo oral.

O mecanismo de ação da pílula é interromper o “caminho” entre o espermatozóide e o óvulo antes que a fecundação aconteça. Por este motivo, os fabricantes informam que, quanto mais próximo da hora da relação desprotegida for tomado medicamento, maior é o índice de sucesso da prevenção da gravidez indesejada.

“Considerar a pílula do dia seguinte um abortivo, na minha avaliação, é misturar no mesmo bolo convicções pessoais e não científicas, o que poderia comprometer a relação com a paciente”, classifica o presidente da comissão de anticoncepção da Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Rogério Banasse Machado.

Segundo Machado, a maior parte das pacientes consegue a pílula do dia seguinte no balcão da farmácia e sem prescrição médica, em especial as que são atendidas por médicos particulares. No Sistema Único de Saúde (SUS), é necessário apresentar a receita do ginecologista para retirar o medicamento de graça. Por isso, avalia William Alexandre, da Unicamp, as convicções pessoais dos médicos de postos públicos de saúde podem ser ainda mais influentes no acesso destas pacientes ao medicamento.

Para o presidente da Febrasgo, apesar do alto índice de avaliação equivocada sobre a pílula do dia seguinte por parte dos médicos, a taxa de 90% de prescrição identificada no mesmo estudo mostra que as convicções pessoais não estão impedindo a recomendação. Para ele, é mais um termômetro do desconhecimento dos profissionais.

Pílula de todo dia

Ainda que a pesquisa da Unicamp tenha evidenciado as avaliações errôneas dos médicos sobre o mecanismo de ação da pílula do dia seguinte, outros estudos também já constataram que as pacientes que fazem uso deste medicamento também falham na indicação.

Um trabalho feito pelo Programa de Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo avaliou 289 jovens que consumiram a pílula do dia seguinte e mais de 90% delas não havia usado nenhum outro tipo de método contraceptivo, como camisinha ou anticoncepcional oral. Ou seja, o remédio indicado para um “imprevisto” foi a primeira opção das garotas entre 13 e 19 anos.

Outra pesquisa, da Universidade de São Paulo, feita com 600 universitárias da própria USP, detectou mesmo fenômeno: 51% de usuárias de pílula do dia seguinte, sendo que 38% delas recorreram ao método de emergência não por uma camisinha rompida ou anticoncepcional esquecido.

Não existem estudos conclusivos sobre danos físicos decorrentes do uso repetido e em sequência da pílula do dia seguinte, mas não faltam evidências de que o sexo sem proteção abre portas para doenças sexualmente transmissíveis, como aids, sífilis e gonorréia. A população feminina, inclusive, é a que mais cresce em proporção de novas contaminações pelo vírus HIV, conforme mostram os boletins epidemiológicos do Programa Nacional de Aids.

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