Maria Aparecida Benevides sentiu na pele como os portadores de hanseníase já foram tratados

Dona Maria Aparecida Benevides passou 12 meses sem ver a família por causa da hanseníase
Mauricio Contreras/ Fotoarena
Dona Maria Aparecida Benevides passou 12 meses sem ver a família por causa da hanseníase
A clientela do salão da cabeleireira Maria Aparecida Benevides era do mais alto luxo. O local funcionava na Rua Augusta, centro paulistano, e vivia os tempos áureos. Já a hanseníase, na época só chamada de lepra, não tinha nada de sofisticação. A doença era coberta por preconceito e ignorância e, em 1962, este manto “vestiu” dona Cida Benevides.

A tranformação em prisioneira da doença começa em um sábado, dia de atender a cliente mais importante: a mulher do chefe do marido de Cida. Quando a tal madame chegou ao salão da Rua Augusta foi logo reparando na perna da cabeleireira. “O que é isso aí hein, Maria Aparecida?”, questionou. “Ah, não deve ser nada”, respondeu. “Vou marcar um médico para a senhora na segunda-feira. Com essas coisas não se brinca”, finalizou a madame, antes de receber o laquê para dar o toque final no penteado feito cuidadosamente por Cida.

Foi uma feridinha na perna de Dona Cida que tanto incomodou mulher do patrão – dono de fábricas em todo o Estado de São Paulo. Entre 1920 e 1986, as autoridades de saúde do Brasil e toda a população sabiam que aqueles machucados poderiam ser indícios de hanseníase, doença considerada extremamente contagiosa na época. "Pega só de olhar", diziam.

Os leprosos, assim denominados, eram internados de forma compulsória, impedidos de conviver em sociedade, proibidos de abraçar, beijar e encostar. E a cabeleireira chique da Rua Augusta sentiu na pele como foram estes 66 anos de tratamento equivocado destinados aos hansenianos. “Saí em uma segunda-feira, deixei meus dois filhos pequenos em casa e não pude voltar. Virei prisioneira”.

Foram 12 meses de isolamento total, sem nenhuma notícia das crianças, da família e do mundo lá fora. “Cada hora doía demais” lembra emocionada hoje aos 85 anos, quase cinco décadas após o ocorrido. Depois de “libertada”, Maria Aparecida e os familiares tiveram dificuldade de arrumar emprego e perderam a casa. “As pessoas se afastaram e as oportunidades também”, diz.

Tantos desafios fizeram Maria Aparecida só encontrar abrigo no próprio leprosário que, ironia do destino, ela tanto lutou para sair. Faz dez anos que Cida voltou a morar no hospital por não se sentir segura em nenhum outro lugar. Mas até isso acontecer, a cabeleireira usou sua experiência com as tesouras, pentes, escovas e maquiagem para deixar a sua história com a hanseníase mais bonita. Em uma tarde, a eterna profissional da beleza contou sua história de vida ao Delas .

A internação

O leprosário que recebeu Maria Aparecida Benevides ficava em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Nos meados dos anos 60, eram ao menos 36 hospitais do tipo existentes no País (chamados de hospitais-colônia). Nestes locais, os portadores de hanseníase ficavam isolados, já que a medicina e o governo da época achavam que eles não podiam ter mais contato com o mundo.

Em Mogi, diferentemente de Maria Aparecida, a maioria dos pacientes já carregava sequelas físicas da doença, como dedos que não esticavam mais, pés atrofiados, narizes que diminuíam de tamanho, todas estas seqüelas creditadas à demora em procurar atendimento. "Afinal, quem queria receber um tratamento assim?", pergunta-se Maria Aparecida. Todos eram obrigados a usar pijamas, não recebiam visitas e nem perspectiva de quando o isolamento iria acabar.

“Esperei meu marido por três dias e três noites pelo meu marido e nada. Porque além de não receber visitas, ninguém nos avisava que era proibido encontrar com os parentes. Achei que meu esposo havia me abandonado.”

Sem contato com a família - e sem a mínima ideia de como os filhos de 6 e 8 anos (uma menina e um menino) estavam - o suicídio pareceu a única solução. “Vi a árvore, o galho e o lençol. Achei que daria para me enforcar. Mas por sorte o galho quebrou. Caí no chão e percebi que tinha de arrumar um jeito de enfrentar tudo aquilo. Não era a minha hora de morrer e nem de desistir.”

O pior Natal

Maria Aparecida Benevides levou flores para o quarto onde dormia, que colheu perto da árvore que não a deixou morrer. Sempre gostou dos enfeites, principalmente dos girassóis – uma forma de encontrar forças para o passar das horas. Ela Resolveu também cortar os cabelos, pentear e embelezar as outras pacientes que partilhavam a mesma solidão e o mesmo cativeiro.

“O Natal estava chegando, já eram meses sozinha, e comecei a pensar que poderia conseguir autorização para visitar a minha família já que a doença estava controlada. Eu nunca tive um só sinal físico da doença a não ser aquela feridinha na perna. O compromisso era voltar depois da festa”, lembra. “Nem acreditei quando consegui a liberação de um dos médicos.”

Por carta, Maria Aparecida Benevides conseguiu combinar com a família a tão esperada festa natalina. A filha estava morando em Franca com a tia, interior paulista, e o filho em Orlândia com outros parentes. A reunião dos Benevides, ainda que efêmera, parecia um sonho cada vez mais possível. “Além disso, eu veria a rua mais uma vez e por três dias experimentaria a sensação de liberdade.”

Em 22 de dezembro de 1962, após oito meses no leprosário, Cida Benevides fez as malas para encontrar a família. Chegou em Franca, abraçou os filhos, beijou o marido e correu para preparar a ceia. No dia seguinte, o peru estava no fogo, já começava a cheirar, quando a campanhia tocou. Um homem procurava Maria Aparecida Benevides, com um caminhão estacionado na porta da casa do interior. Na caçamba, a sigla D.P.L – Departamento de Profilaxia da Lepra – indicava que a visita não era boa e muito menos amigável.

Um dos médicos do leprosário de Mogi, realmente, havia liberado Maria Aparecida para visitar a família. Mas o coordenador do serviço achou, depois da licença já concedida, que era arriscado demais, ainda mais para uma paciente que já teve laços com a alta sociedade. Mandou buscá-la imediatamente.

“Fui forçada a entrar no caminhão. Pela janela, ainda consegui ver que, por onde passei e nos meus filhos, foi borrifado uma espécie de inseticida para tentar evitar a contaminação. Passei mais quatro meses presa, sem poder receber visita nenhuma. Voltei para o silêncio das notícias.”

Cabelos contra tristeza

As flores eram companhia de Maria Aparecida. Os cabelos das outras pacientes foram transformados em terapia para passar o tempo. O salão da Rua Augusta já não existia mais, as clientes madames provavelmente jamais aceitariam seus serviços, mas as portadores de hanseníase almejavam um cuidado, um carinho, uma escova, um penteado.

Exatamente um ano após ir para o leprosário de Mogi, a cabeleireira foi libertada. O marido, entretanto, perdeu o emprego “já que a leprosa voltou a dormir ao seu lado”. O casal perdeu a casa, foi morar na periferia de São Paulo e nunca mais se reergueu. Quatro anos depois, Maria Benevides ficou viúva e a vida ficou ainda mais difícil. “Lembrei que os momentos mais tristes da minha vida eu me consolei cuidando da beleza das outras pacientes com hanseníase, muitas em situação ainda pior do que a minha.”

Ainda que emprego fosse difícil, a cabeleireira arrumou tempo para, de forma voluntária, voltar ao leprosário de Mogi e cuidar das outras pacientes que ainda ficavam internadas. Assim como ela, muitas das que ganharam a liberdade haviam perdido tudo e não tinham como - e nem para quem - voltar. Preferiram continuar morando no hospital.

Preconceito

O isolamento imposto aos pacientes fez com que fosse muito complicado reconstruir a vida, mesmo após eles deixarem de ser vistos como leprosos e encarados como portadores de hanseníase.

Com o passar dos anos, a medicina atestou que a doença não era contagiosa, não era preciso viver sem contato com o mundo. Com tratamento adequado, as amputações – as mesmas que deram origem aos mitos de que leprosos perdem as partes do corpo – não são necessárias, mas ainda existem por culpa do mesmo preconceito e falta de informação que sobrevivem em cena.

Por saber como as falhas de acolhimento prejudicaram a vida dos hansenianos, a Secretaria Especial de Direitos Humanos passou a indenizar os ex-internos, entre eles Maria Aparecida. Já foram concedidos 4.943 benefícios e há uma briga constante para mais indenizações. Anualmente há um investimento importante em campanhas de conscientização para que as 39 mil pessoas que recebem o diagnóstico de hanseníase todo ano não sofram tanto preconceito. A doença que tem como principal sintoma inicial manchas e falta de sensibilidade na pele pode ser tratada em qualquer posto de saúde.

Girassol

Em 2000, Maria Aparecida Benevides, já com dores no corpo e cansada de tentar pular os obstáculos impostos pela vida, aceitou abrigo no leprosário, onde primeiro foi paciente e depois cabeleireira voluntária.

“Não encontrei mais vida fora daqui e como meu filho ficou muito doente, voltei a morar no hospital que já deixara de ser leprosário e hoje abriga hansenianos.”

A unidade hoje funciona como um hospital tradicional, mas manteve as casas de pessoas que como dona Cida Benevides não conseguiram moradia fora. A cabeleireira continuou fazendo penteados e levando beleza para aquele universo de histórias tão tristes.

Hoje as visitas dos familiares não são mais proibidas e os parentes sempre estão por lá. O filho dela morreu há quatro anos e foi enterrado no cemitério construído no antigo hospital-colônia.

“Trouxe minhas flores e aqui, honestamente, me sinto em casa.” O girassol não está mais preso em um cativeiro.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.