¿Diários de prostitutas de luxo podem parecer folhetinescos, mas relatos que apresentam essas mulheres como vítimas da sexualidade voraz dos homens também não ficam para trás.¿

O jornalista e escritor britânico, Howard Jacobson, analisa a literatura erótica e os relatos de garotas de programa que estão sendo lançados pelas editoras e avalia: Muitos são os tipos de prostitutas, como são muitas as razões pelas quais os homens as procuram. E isto deve ser levado em consideração em um debate adulto sobre sexualidade.

Leia na íntegra o artigo que Howard Jacobson escreveu para o site britânico Prospect .

Com sexo não se brinca - nem na vida real, nem na literatura ¿ pois ele nunca deixa ser uma coisa séria.

Quando um homem renega o significado de um adultério com a frase: "não representou nada pra mim", e a mulher injustiçada responde: "então porque você fez isso?", os dois se perderam na questão.

Em matéria de sexo, tudo importa , inclusive a experiência dele não significar nada. (...) Não é por isso que alguns homens procuram prostitutas? Pela experiência intensa de abnegação associada ao pagamento, pelo qual quase nada é oferecido e quase nada é sentido?

(...)Por isso presto atenção em pessoas como a jornalista Joan Smith e a parlamentar Fiona Mactaggart quando insistem que tratemos a prostituição como uma questão de vida ou morte. Meu ponto de divergência com as duas ativistas britânicas está na suposição errônea que a causa disto está na perversidade assassina dos homens. Não é somente para satisfazer o sadismo masculino que Simone, a jovem libertina de História do Olho vai até onde vai e termina assim:


"Após quinze anos de promiscuidade extrema, Simone vai parar em um campo de tortura... morre como se estivesse fazendo amor... a febre e a agonia a deixam transfigurada".
História do Olho, de Georges Bataille


Nem são os homens que experimentam o gosto da morte em seus corpos o único tipo de homens existente. E qualquer tipo de homem se rende a prostitutas vez ou outra.

Diários e relatos sobre prostitutas e garotas de programa: entre a falta de alternativas o prazer

Se a gente examinar tudo que anda sendo escrito por e sobre prostitutas e, por conseqüência, sobre os homens que pagam por seus serviços, dá para dividir essas narrativas em dois tipos, conflitantes e reveladoras da forma como nós nos acostumamos a ver a situação destas mulheres.

A primeira descreve a prostituta como vítima de abuso, em partes, do capitalismo global e do livre mercado, mas essencialmente da violência masculina. Segundo essa visão, a idéia que uma prostituta possa escolher, através do livre arbítrio, vender seu corpo por dinheiro ou por prazer, ou mesmo para as duas coisas, é absurda.


"Uma pesquisa de campo, conduzida em nove países, constatou que entre 60 a 75 por cento das mulheres envolvidas em prostituição foram estupradas, entre 70 e 95 por cento sofreram agressões físicas e 68 por cento mostraram sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, no mesmo nível de veteranos de guerra e vítimas de tortura".
Joan Smith, "The Independent", 27 de Dezembro de 2007


Uma bateria de estatísticas prova a condição miserável dessas mulheres: sua baixa estima e expectativa de vida, os perigos aos quais estão expostas, o estupro, o desprezo e a criminalidade que formam o cenário consistente de sua breve existência.

É desses números que nasce a visão das prostitutas como vítimas e a certeza que muita gente tem de que devemos criminalizar o homem que procura por elas.

O segundo tipo de narrativa, fala da prostituição requintada, bem ao estilo Sex and the City, onde as personagens transam e gastam como se vivessem em filmes antigos de Hollywood, só que agora a transa paga pelo luxo e pelas compras.

Os diários de garotas de programa


(...)A coisa que difere uma garota de programa refinada são seus pelos pubianos bem tratados e aparados. Os clientes sabem que você ganha dinheiro com a sua vagina, mas é uma vagina bem cuidada e depilada que envia a mensagem: Você gasta dinheiro com a sua vagina."
Tracy Quan, "Diary of a Manhattan Call Girl" (Ainda sem tradução para o português. Título sugerido: "Diário de uma Garota de Programa em Manhattan")



Nancy, a garota de programa de Manhattan, descrita pela escritora Tracy Quan já começa a falar de Prada e Bulgari mesmo antes da transa começar. Com o pseudônimo de "Belle de Jour", ela conta com todos os detalhes o que anda comprando na farmácia ¿ "absorventes internos, supositórios vaginais (para tratar irritação), preservativos, pastilhas para o hálito sem açúcar, lubrificante, toalhinhas pós-depilatórias, auto-bronzeador, lâminas de barbear, citrato de potássio granulado (para combater a cistite)".

Informação demais, diriam alguns. Mas informação demais tem sido o ingrediente favorito das histórias para moças desde que o primeiro livro intimista de ficção foi lançado e revelou os segredos e detalhes das paixões e da menstruação.

Nestes relatos, o mundo da prostituição é uma simples extensão, ainda psicologicamente inexplorada, do direito de viver e de falar sacanagem que o feminismo dos anos 60 garantiu às mulheres modernas .


Assunto: sacanagem sem (muitos) remorsos

"Hoje eu quero te comer por trás" , anuncia o cliente já na primeira página do livro O Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha. Em resposta à pergunta da personagem, aliás, a única pergunta que uma garota de programa que se respeita pode fazer: "Você quer minha xoxota ou minha bunda?". E quando ele responde "tudo" (embora eu pensasse que a resposta mais apropriada seria "ambos"), tudo a ele é dado. A natureza da negociação é completamente satisfatória: ela atesta ter gozado várias vezes ("É muito bom", ela confidencia), e ele ter feito o mesmo, em sua boca (um acordo mútuo, previamente feito). Se não soubéssemos do que se trata, poderíamos até dizer que é amor .

Ele goza, ela goza... às vezes ela não consegue, às vezes ele não consegue. Nas palavras de Nancy Quan, "Nesse nosso negócio, muitos são os dias em que o sexo não é da maneira que você gostaria fosse. Às vezes uma brochada, às vezes você precisa mais do que de um pouco de K-Y".

E essas dificuldades do negócio são quase tão profundas e significativas quanto qualquer desapontamento ou desalento, que eventualmente também podem surgir. Ou até um ligeiro remorso, como a prostituta e escritora, Valérie Tasso , descreve em seu livro Insatiable: The Erotic Adventures of a French Girl in Spain, quando se pergunta se sua busca predatória por homens a levou à prostituição: "era o sintoma de uma doença terrível: o silêncio, a solidão, a falta de comunicação". 


Felicidade de garota de programa é...

Este gênero literário, no entanto, não pode se dar ao luxo de se entregar à introspecção ou aos questionamentos dessa magnitude por muito tempo. "Pensando bem, a época que fiquei no bordel me proporcionou alguns dos momentos mais felizes de minha vida", conclui Valérie.

Nancy, a "Belle de Jour", concordaria com ela: "Uma pessoa em Londres me pagou somente para lamber minha bunda por uma hora" foi um desses tais momentos de felicidade que consegui arrancar aleatoriamente dos relatos da callgirl de Manhattan.

"Não é o que todo mundo quer da vida, alguém que beije suas entranhas e goste de fazer isso?" Somente uma mulher desmancha-prazeres, ou preocupada com sua hemorróida, iria discordar. 

Porque morder a mão que nos alimenta? Se essas garotas de programa refletissem mais profundamente mais sobre a natureza do prazer, ou o estado da mente ou da alma daqueles que escolheram fazer dele um negócio arriscado, simplesmente teriam que cortar suas próprias gargantas.

"Eu sempre adorei sexo, sempre gostei de conhecer pessoas" confirma a "Belle du Jour", como se a prostituição fosse a conseqüência natural de uma personalidade sociável.

Fiéis ao espírito otimista dos blogs que os originaram, estes diários guardam a promessa de uma eternidade de lasciva convicção. A continuação dos livros guarda a mesma essência - Diary of a Manhattan Call Girl já originou Diary of a Married Call Girl. O lançamento de Diary of a Divorced Call Girl e Diary of a Married Second Time Around Call Girl, deve ser apenas uma questão de tempo.


Será que é tudo verdade? A competição e os conflitos

De qualquer maneira, os diários de garotas de programa também têm seus depreciadores.

"Então essa tal "Belle de Jour" está mesmo no metiê?" escreveu a inglesa Cynthia Payne, a celebrada ex-proprietária de um bordel no subúrbio londrino de Streatham, ao jornal britânico "Guardian" em 2004. "Não estou convencida disto". E as duas coisas que menos a convenceram foram a conversa livresca entre "Belle" e seus clientes e o fato dos homens quererem escrever seus nomes sobre ela quando gozavam.

"Todas as garotas desse meio que conheço ficariam chocadas com este tipo de comportamento de um cliente", afirmou Payne, cuja descrença, presumo, se referia a "escrever o nome quando gozam", e não à "conversa livresca" com clientes. Mas isso somente prova que a etiqueta erótica de Streatham não é a mesma nos bairros de Mayfair e Manhattan. Aliás, nem mesmo do Soho.

Em matéria de sexo, devemos ser cuidadosos com o que não acreditamos.

Jean Genet nunca acreditou que "A história de O" tivesse sido escrita por uma mulher. "Mulher alguma teria compreensão suficiente da degeneração sexual", imaginou. Tolo dele. E mais tolos ainda são aqueles que censuraram "Belle" e Bruna Surfistinha impiedosamente, não por serem superficiais, mas por dizerem mentiras .

"É uma fantasia" escreveu a colunista do "The Gardian", Madeleine Bunting, quando o livro The Secret Diary of a Call Girl foi exibido no canal ITV. A jornalista Rosie Boycott escreveu o mesmo no "The Daily Mail".

Na visão de ambas, o que torna esse e outros livros contra-senso é o fato de que 68% das prostitutas sofrem de distúrbio de estresse, um índice que as coloca no mesmo nível que um veterano de guerra. Esses dados, no entanto, referem-se às prostitutas de rua e Belle de Jour não trabalha nas ruas.

Mas, e daí? As prostitutas podem mudar de local de trabalho, mas o desejo masculino sempre será o desejo masculino. Na opinião de Madeleine, o que a "Belle de Jour" faz é fortalecer a sensação de direito de posse que um homem tem ao usar uma prostituta. "Usar", e não "procurar" ou "contratar", "usar". Ou seja, despersonalizá-la e causar violência a ela.


E os homens nisso tudo? A culpa será deles?

Nada de novo até aqui. Ninguém fez um trabalho descente sobre a sexualidade masculina desde 1972. Mas se queremos ter um debate adulto sobre o que temos o direito de fazer com nosso corpo, então cada sexo terá de pensar de maneira um pouco mais filosófica sobre o outro .

Essas invenções depiladas e lubrificadas, levemente pornográficas, não são produto do desejo masculino. Estamos aqui muito longe das odaliscas provocantes e lânguidas ou das cortesãs, vestidas em brocados, que mexiam com a imaginação masculina.

E se algum homem pegar um destes relatos para ler, esperamos que ele não acredite nas aventuras sexuais inconseqüentes de uma Bruna Surfistinha, a garota de programa que não podia estar mais feliz do que quando tinha um cliente pela frente, outro por trás, e ela chupando ¿ a menos que eu esteja confundindo - os colhões de um terceiro.

A recíproca é verdadeira. Independentemente de qualquer estatística sobre a opinião das mulheres sobre os relacionamentos dos homens com prostitutas, seria muito bom se elas se esforçassem um pouco mais para entender porque os homens fazem o que fazem.


Violência é mesmo a alma desse negócio?

Seria tolice negar que a natureza comercial do sexo com uma prostituta não possa encorajar alguns homens a agir com brutalidade, mas a violência não é, de maneira alguma, intrínseca à negociação.

Alguns homens procuram prostitutas para "usar", outros para "serem usados". Nenhuma das moças que escreveram estes relatos deixa de mencionar, em tom de piada, a submissão, e a falta de ação, que caracterizam a maioria de seus clientes. "Será que eles fazem isso só para irritar?", indaga Nancy Quan, sem agüentar olhar, por nem mais um minuto, o cliente ajoelhado, choramingando: "Sim, minha ama. Sim, minha ama".

A troca de dinheiro carrega muitas significações; para alguns homens, representa direitos, para outros, tira-lhes todos os direitos, fazendo com que eles, e não elas, se tornem baratos, e sinaliza o desejo de renunciar à sua masculinidade .

Outros as procuram por desespero, como o personagem Stephen do livro O Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, porque não conhecem uma outra maneira de se iniciar na idade adulta. A solidão leva um homem a pagar pelo sexo, assim como a tristeza, a perplexidade, a vontade de desfrutar da companhia erótica de alguém por algum momento. E também a velha busca de desejo, sim, porque você tem dinheiro no bolso e nada importante pra fazer... e ela está lá, feliz em aceitá-lo, e não importa o que vocês pensem sobre vocês mesmos no dia seguinte, o prazer, sem o menor impulso que cause sofrimento, é o que você quer no momento.


Sofrimento nas duas mãos

Se é desumano desmerecer os sofrimentos das prostitutas, não é menos desumano minimizar os sofrimentos que levam alguns homens a procurá-las. Há pelo menos isto a ser dito sobre as prostitutas Prada e suas bocas e vaginas prestativas: junto com a liberdade que reivindicam para si mesmas elas oferecem aos homens a liberdade de serem também criaturas do desejo.

Por que, afinal, uma prostituta não poderia ser tocada pela timidez, inaptidão ou tristeza de um homem, ou ficar curiosa por ele ter aparecido em seu quarto procurando por sabe-se lá o quê, ou ainda, ficar empolgada pois, em raras ocasiões, o que ele quer realmente coincide com o que ela faz?

Será que esse é um campo de batalha tão implacável que nada disso pode ser concebível, e qualquer homem que saia por aí em busca de tal eventualidade deva ser tratado como um criminoso?

E se procurar uma prostituta diminui um homem, também não é humilhante para uma mulher, se posicionar como vítima do apetite masculino ou como a encarnação dessas fantasias?

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