Na hora de dar apoio a uma pessoa mais velha, é essencial conseguir se colocar no lugar dela. Mas como? Até aplicativos ajudam

Aproximar as gerações e fazer os mais jovens entenderem as necessidades dos mais velhos: um exercício de se colocar no lugar do outro e de empatia
Thinkstock/Getty Images
Aproximar as gerações e fazer os mais jovens entenderem as necessidades dos mais velhos: um exercício de se colocar no lugar do outro e de empatia
Envelhecer está longe de ser uma doença. É bem verdade, que ficamos mais dependentes dos outros. Nossos movimentos vão ficando mais lentos, a memória, cada vez mais focada em cenas do passado, e assistir a um simples filme requer um pouco mais de esforço da vista.

Para atravessar essa etapa, não há fórmula mágica: é preciso ter o apoio das pessoas e das redes sociais que nos cercam. Mas isso, nem sempre, é uma tarefa fácil.

“Uma das maiores dificuldades do ser humano é ouvir o outro. Se você não consegue ouvir, também não consegue se colocar no lugar de ninguém. Com o tempo, essa dificuldade poder virar uma desistência e, em alguns casos, provocar o fim de qualquer possibilidade de diálogo”, explica a psicóloga e psicoterapeuta Ana Maria Duarte.

O trato com alguém de uma outra geração é uma constante vítima desse comportamento. Muitas vezes, pesa o fato da família não estar preparada para assumir a responsabilidade de zelar tanto pela saúde, quanto pelo suporte financeiro. Em outros casos, o que falta é estrutura externa – informações, acessibilidade nas cidades e mais rigor na aplicação do Estatuto do Idoso, por exemplo.

Seja qual for a origem do problema, é preciso encará-lo. Principalmente, se levarmos em conta as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Brasil: em 2050, eles serão 15 milhões - dos quais 13,5 milhões com mais de 80 anos. Mas antes, já em 2025, o país será o sexto do mundo com o maior número de idosos.

“O que assistimos nos últimos anos foi uma mudança e tanto. Hoje, uma pessoa com mais de 60 anos dirige, faz cursos de reciclagem e planos para o futuro. A expectativa de vida mudou e junto com ela a qualidade do cuidado. Com a ajuda das pesquisas, passamos a entender ainda mais as necessidades e as limitações deles” , observa Yolanda Maria Garcia, professora doutora do Departamento de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP.

Antes de mais nada é preciso entender que cada idoso tem uma história e enfrenta um tipo de limitação nessa etapa da vida. “Alguns passam por um processo de envelhecimento denominado bem-sucedido, que é caracterizado por ganhos e potencialidades. Outros, por quadros graves, que podem restringir sua autonomia. E há ainda aqueles que enfrentam limitações que podem ser facilmente compensadas. Por exemplo, um déficit na visão pode ser corrigido com o uso de óculos apropriados ou uma cirurgia de catarata”, explica Luciene Miranda, psicóloga e especialista em desenvolvimento humano.

Foi exatamente o que percebeu a locutora paulistana Joana Ceccato. Embora esteja bastante lúcida, a avó, Lore Tendlau, de 101 anos, passou a ter problemas de locomoção após um período internada no hospital. A saída foi comprar uma cadeira de rodas. “Com a cadeira, ela pode sair do quarto e ver as flores do jardim. Para a gente é algo simples, mas para ela é uma das coisas mais prazerosas do dia”.

Mas a relação nem sempre foi assim. A compreensão sobre a necessidade da mãe de sua mãe passou por estágios diferentes. O primeiro foi superar as mágoas do passado e que as afastaram por um bom tempo. Com o fim das brigas e os laços restabelecidos, o segundo desafio foi se colocar no papel da avó. “É claro que isso mudou depois que eu fiquei grávida. Nesse período dependemos mais das pessoas, passamos a ser mais condescendentes com as situações e também a querer cuidar daqueles que amamos”, relembra.

Tentar suprir as perdas naturais ou eventuais da idade, também foi o foco dos filhos e netos de dona Laila Kedhdi Malachias, de 84 anos, de Belo Horizonte. O alerta piscou quando Laila passou a ter dificuldades na leitura de livros e jornais - hábito que ela cumpre religiosamente todos os dias. A primeira opção foi comprar lupas, dessas que encontramos em papelaria. Com o agravamento do problema (ela tem degeneração macular), a família providenciou um vídeo-ampliador. O aparelho permite às pessoas com baixa visão ter acesso aquilo que escapa às lupas ópticas, porque consegue não apenas iluminar, mas regular o tamanho das letras.

Mas além da leitura, tinha uma outra atividade que dona Laila estava aos poucos deixando de fazer: assistir à televisão. Para isso, a família adotou um óculos especial com lente dupla , o mesmo recomendado pela Laramara - Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual (o aparelho é importado, mas a entidade oferece bons descontos para quem apresentar receita médica). “Tanto com o ampliador, quanto com os óculos, ela consegue manter, de alguma maneira, os hábitos. Não 100 por cento deles, mas aquilo que dá prazer a ela”, explica o neto Iago Bolívar.

Se para alguns as limitações é que metem medo, para outros, imaginar as mudanças físicas também é bastante assustador. Pensando nisso, a Casa São Simão, de Blumenau (SC), lançou a campanha “ Adote um idoso ”. Com ajuda de uma empresa de informática, o asilo criou um aplicativo que simula o envelhecimento. Para isso, basta inserir no site uma foto atual e acompanhar as mudanças físicas daqui a 30, 40 ou 50 anos. A ideia é que, ao se olhar naquelas imagens – com o cabelo branco e a pele enrugada, o usuário possa iniciar uma reflexão sobre o outro e o seu futuro. E, se possível, longe de preconceitos.

O preconceito, aliás, é outro tema em destaque nos estudos sobre o envelhecimento . “Na língua inglesa existe um termo específico para identificar o preconceito contra o envelhecimento, ‘ageist ’. Os estudos mostram que trata-se de um comportamento que parte tanto do próprio idoso, como de quem o cerca, e se caracteriza pela desvalorização ou desqualificação da pessoa mais velha, como taxá-la de ‘incompetente’, por exemplo, explica Yolanda.

Além de ações discriminatórias por causa da idade, um outro movimento silencioso já foi diagnosticado pelos especialistas: os idosos não são o público preferencial das empresas de tecnologia. De acordo com Ruth G. da C. Lopes, professora do Departamento de Psicologia da PUC-SP e supervisora do Portal do Envelhecimento, as companhias costumam negar essa demanda. “A desculpa deles é que não vale a pena investir, pois o consumo é muito pequeno. Mas a tecnologia pode criar suportes e facilitar a vida dessas pessoas”, explica. Ruth fala com conhecimento de causa. O site, criado em 2004, é um espaço tanto para pesquisadores e professores, quanto para o público em geral. “No portal, muitos idosos participam dando depoimentos e dividem com outros as experiências e preocupações desta etapa”, conta.

Preocupação é um dos grandes desafios da professora carioca Thaís Ribeiro. Mas assim como na sala da aula, ela precisa ir além e entender que avó - com quem mora desde que nasceu – não é uma criança, mas precisa de atenção na medida certa . “O meu avô morreu há muito tempo e, desde então, ela ficou sozinha. Nos últimos anos, isso só aumentou, já que eu fico quase o dia inteiro no trabalho”, conta. A solidão diminuiu um pouco quando Fátima, tia de Thaís e uma das filhas de Maria Alice, de 84 anos, se aposentou e pode fazer-lhe um pouco mais de companhia. “O que ela precisava, na verdade, não era de uma babá, pois ela sabe fazer tudo. O mais difícil é não ter alguém pra conversar, para compartilhar a rotina. E isso, quem passou a fazer, foi a minha tia”.

Apesar de estar mais confortável com a nova situação, a culpa de deixá-la sozinha ainda atormenta Thais durante o dia. “A gente tem medo que ela vá à rua sozinha, machuque o joelho operado e não tenha ninguém para socorrê-la”, explica. Embora o problema seja real, os especialistas alertam que proteção em excesso também é ruim . “Os estudos sobre esse grupo já provaram isso diversas vezes. Uma boa saída são os centros de convivência. Lá é possível desfrutar de momentos de lazer, educação e cultura. Além de ser uma opção para aquelas famílias que não têm condições de contratar um cuidador. Superproteção tira o gosto da vida. E não é isso o que eles querem nesse momento” , orienta Ruth.

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Serviço:

Portal do Envelhecimento

Lamara - Associação Brasileira de Assistência ao deficiente visual

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