Os riscos de adiar o sonho da maternidade

Arrumar um bom emprego, encontrar a cara-metade, subir ao altar, realizar o sonho da casa própria. Esses são apenas alguns detalhes que a grande maioria das pessoas anseia em conquistar antes de pensar em aumentar a família. Não é por acaso: ter um filho requer responsabilidade, afinal é um compromisso para toda a vida. Além disso, futuros papais e mamães querem dar o melhor para seus rebentos ¿ e, em termos financeiros, criar uma criança hoje em dia custa muito, muito caro. Por isso, a maternidade está cada vez mais sendo adiada, uma vez que conquistar todos os requisitos para uma vida, digamos, bem-sucedida, leva tempo. Só que essa demora pode ser arriscada, principalmente para as mulheres. Tudo por causa do tal relógio biológico, que limita suas chances de conseguir engravidar. Dia após dia, ano após ano.

O modelo urbano em que vivemos estimula as pessoas a ansiarem por construir um castelo impecável para, depois, colocar um filho lá dentro. Só que essa visão de retardar a maternidade compromete a obtenção de uma futura gestação, já que há uma limitação da natureza para o corpo feminino, alerta Nelson Antunes Júnior, ginecologista especialista em reprodução humana do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Segundo ele, como o número de óvulos produzidos é finito, as chances de engravidar diminuem significativamente a partir dos 36 anos, aproximadamente.

Em termos matemáticos, a conta é simples: uma mulher quando menstrua pela primeira vez possui cerca de 400 mil óvulos. Por volta de 12 anos antes de atingir a menopausa ¿ ou seja, se ela ocorrer aos 48, com 36 anos ¿ o corpo feminino possui não mais do que 25 mil deles no ovário. Esse é o primeiro tombo da fertilidade. A cinco anos da menopausa, então, a queda é ainda maior: só cerca 5 mil óvulos. Vale lembrar, ainda, que os óvulos recrutados nos primeiros momentos da vida são aqueles mais espertos, de melhor qualidade biológica. Por isso digo para uma paciente que ontem ela era mais fértil do que hoje, e assim sucessivamente. Porque biologicamente o período ideal para engravidar ocorre dos 15 aos 30 anos, diz Antunes Júnior.

Outro aspecto que chama a atenção quando o assunto é esperar pela construção completa do castelinho é o risco maior de o feto apresentar doenças genéticas. De acordo com o especialista, apenas um em cada 2 mil bebês apresenta síndrome de down, por exemplo, se foi concebido por uma mulher de até 30 anos. Já aos 44, as incidências de crianças com esse problema são bem maiores: uma em cada 40 nasce com a doença. Quando o assunto é gravidez, é preciso ter em mente que a idade é sempre um adversário, comenta.

Porém, aí vai uma ótima notícia para mulheres que não querem correr o risco de não conseguir engravidar no futuro: hoje já é possível, graças aos progressos do meio científico, congelar óvulos com um aproveitamento posterior significativo. Quando minha filha tinha 11 anos, em 1993, saí de casa e disse a ela: papai está indo para um congresso muito importante, porque tudo indica que muito em breve vou poder guardar seus óvulos e congelá-los para que você engravide quando se sentir pronta, lembra Antunes Júnior. Não deu outra: hoje, depois do amadurecimento de diversas pesquisas, os óvulos de uma mulher de, por exemplo, 26 anos, podem ser congelados, com taxas de cerca de 96% de aproveitamento. Isso certamente vai proporcionar uma revolução nesse modelo de comportamento de mulheres que querem esperar pelo momento oportuno para ter um filho, muitas vezes inclusive por não terem encontrado o parceiro que desejam, ressalta.

Em outras palavras, a mulher que hoje está no período biológico considerado ideal para engravidar pode ter seus óvulos congelados e futuramente, mesmo que seja com 50 anos ou mais, gerar uma criança. Afinal, questionado sobre a idade-limite para uma gestação, o ginecologista explica que, se for saudável, a mulher pode realizar um pré-natal mesmo com idade avançada. Na Europa, uma mulher de 63 anos deu à luz gêmeos. Como a possibilidade do congelamento ainda é recente - ou seja, ela não pôde congelar seus óvulos quando tinha 20 anos -, é claro que recebeu óvulos de outra pessoa. Mas em termos da gestação em si, se não tiver doenças como pressão alta ou insuficiência renal, que tornam complicados pré-natais em qualquer idade, não vejo problema algum em mulheres mais velhas receberem óvulos congelados, independentemente de serem seus ou não. São gestações absolutamente normais e tranqüilas, esclarece.

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