Dizer sim é muito fácil, o desafio maior é se manter casada. O iG conversou com o psicólogo norte-americano Mark O¿Connell, PHD em psicanálise pela Boston Psychoanalytic Institute e autor do livro ¿O melhor da vida a dois¿ (Editora Prumo). Confira suas dicas para atingir o potencial máximo de uma relação sem cair no marasmo

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Lidar com os problemas do dia a dia implica em muita flexibilidade e auto conhecimento. Porém, um relacionamento é capaz de fazer mudanças importantes em você mesma e no outro. Veja o que pensa o especialista Mark OConnell.

Por que continuar casado?
Mark O'Connell
Vamos reconsiderar o conceito de casamento. Há vinte anos venho ajudando casais em seus relacionamentos e cada vez mais tenho ficado com esta pergunta: Melhorar um casamento é bom o suficiente? E mesmo um bom casamento hoje será suficientemente bom com os atuais avanços da tecnologia da fertilidade, com as mudanças de atitudes sobre pais solteiros, as sensibilidades morais inconstantes e outras alterações em nosso cenário social e econômico que proporcionam outras alternativas viáveis ao casamento tradicional? E se não fosse mais suficiente meramente melhorarmos o relacionamento de alguém? A resposta que a cheguei é sim, porém. Sim, casamento ainda pode ser relevante. Mas somente se nos permitirmos ser menos convencionais e mais radicais na nossa maneira de pensar as nossas relações íntimas.

O que você recomendaria para uma relação consistente e duradoura?
Mark O'Connell
Organizei o livro em torno de oito resoluções que as pessoas podem usar como guia para arriscarem criativamente em suas relações. As quatro primeiras são: 1. Adotem uma definição duradoura do amor; 2. Comemorem as diferenças; 3. Façam sexo pra valer; 4. Encontrem a libertação através do compromisso. É o que chamo de necessidades compartilhadas. As outras são: 5. Acreditem em algo mais importante do que vocês mesmos; 6. Abram mão dos hábitos e vícios; 7. Perdoem e digam obrigado; 8. Brinquem. Essas eu chamo de escolhas compartilhadas.

Qual dessas resoluções é a mais importante?
Mark O'Connell Todas estão organizadas em torno do princípio Celebrem as diferenças. Quando entendemos, e então apreciamos, as nossas diferenças ¿ e por ela (diferença) não estamos nos referindo a Vênus e Marte, sobre ele gostar de futebol e ela de dança, ou sobre qualquer uma das infinitas maneiras que diferimos de nossos parceiros ¿ conseguimos conhecer o outro com mais profundidade e honestidade. Rushdie dizia que nossas vidas nos ensinam quem somos nós. Estando verdadeiramente abertos para o outro não apenas construímos relacionamentos melhores, mas também nos tornamos melhores.

Como é o relacionamento real? Descobri-lo assusta?
Mark O'Connell
Em sua melhor performance, um bom casamento pode servir como um antídoto para o narcisismo. Mesmo os bons relacionamentos não passam de uma fração do que poderiam ser. A compreensão de que os relacionamentos podem ser poderosos foros de crescimento pessoal e de verdadeira mudança tornam até os melhores ainda melhores. Um relacionamento amoroso duradouro nos habilita a enfrentar o característico desafio do envelhecimento, que é enfrentar as arestas mais ásperas e intransponíveis da realidade do tempo, do envelhecimento e da perda apenas com a mistura certa de realismo, vitalidade e esperança.

Como lidar com a fidelidade? Casamento são sempre monogâmicos?
Mark O'Connell
Sim, mas não moralmente, na forma que geralmente pensamos. O que é a liberdade? É a capacidade de fazer o que sempre um ou outro quer? É uma ausência de limite e responsabilidade? Ironicamente, se esse tipo de liberdade existe, é um caminho certo para a solidão e o vazio. Sem limite de tempo? Sem limite de sexo? Sem limite de dinheiro? O que é um dólar, um dia ou um abraço quando o próximo pode ser mais ou melhor? Não, não vamos encontrar significado e felicidade através da tentativa de transcender as limitações universais que governam e organizam nossas vidas, vamos encontrá-los respeitando-os. Como disse (a compositora canadense) Joni Mitchell: Você não sabe o que você tem até que isso se vá.

A verdadeira felicidade não vai vir substituindo a realidade com devaneios. Ela vem quando aproveitamos as nossas forças, nossos talentos para que possamos viver plenamente e bem dentro do mundo como ele é. Compromisso não é uma convenção obsoleta, moralista, destinada a reprimir a sexualidade e a individualidade. Uma opção pessoal que nos permite explorar riscos, com uma confiança no outro, e os cantos mais ocultos e vulneráveis de nós mesmos.

Você acredita que as pessoas podem ser felizes sozinhas?
Mark O'Connell
Pensamos o casamento como um compromisso necessário, uma forma estável de viver a vida. Ao continuar pensando o matrimônio como um lugar seguro e estável nós perdemos o seu real potencial e perdemos a potencialidade dessa cultura desafiadora em que vivemos. Na melhor das hipóteses, os nossos relacionamentos podem nos ajudar a encontrar significados íntimos, privados. Eles podem nos ajudar a criar relacionamentos em que podemos apreciar, em vez de negar, a nossa falibilidade humana. As relações devem ser lugares de riscos criativos, assim como são lugares de segurança e conforto. Elas devem nos fazer crescer. Nós podemos ter essas coisas no casamento, mas apenas se estivermos dispostos a trocar segurança por risco.

Como lidar com decepções, fator tão comum em qualquer relação?
Mark O'Connell Ser aberto, vulnerável. Tenho acreditado que a atração química tem um código peculiar: puxamos as pessoas com quem teremos tempos difíceis juntos. Que vai nos desafiar nos lugares que achamos mais difíceis. A estabilidade do amor torna-se um peso que vai morrendo, por exemplo. A tendência natural é, com o passar do tempo, a gente trancar os lugares vulneráveis, tanto de nós mesmos e uns com os outros.  E se abríssemos com os outros? Olhássemos para eles em si? Isso é o que leva a mudanças e crescimento. Uma forma simples de pensar na mudança de mentalidade que estou propondo é parar de pensar e ficar repetindo que os problemas do seu relacionamento são dificuldades a serem superados. Comece a pensar neles como oportunidades para você aprender mais sobre as partes de você mesma que precisam ser mudadas.

Sexo e casamento andam sempre juntos?
Mark O'Connell O sexo pode ser o meio mais direto que mostra como a intimidade pode mudar a nossa vida. A iminência do contato sexual nos une nos lugares mais profundos. A fisicalidade desenfreada do sexo nos deixa momentaneamente sem proteção, sem máscaras, mesmo nos lugares dentro de nós em que somos mais inclinados a nos proteger. Perdemos as pistas do verdadeiro poder do sexo, em uma cultura que um número enorme de figuras assumem várias posições e técnicas. E com uma visão borrada de corpo e com uma sexualidade desgastada, o sexo real é um meio quase inigualável que nos ajuda a cresce e manter vivo o corpo e a mente: aprender sobre nós mesmos pelo espelho do corpo do nosso parceiro.


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