Mulheres modernas adotam o antigo costume de guardar relíquias de família e lembranças para sua vida de casada

Ana Cristina ganhou uísque do pai e o conjunto de xícaras de chá da avó:
Tricia Vieira / Fotoarena
Ana Cristina ganhou uísque do pai e o conjunto de xícaras de chá da avó: "ficava namorando as peças sempre que ia à casa dela"
No século XV, as meninas ainda pequenas já começavam a guardar seu enxoval. Do francês trousse (conjunto, trouxa), a coleção de peças era transformada em uma trouxinha para a noiva carregar seus pertences até o novo lar. O costume continuou por muitos anos, até que os noivados ficaram mais raros e os noivos passaram a montar a nova casa de uma vez, com a ajuda de chá de cozinhas e presentes dos convidados da festa de casamento. Mas ainda hoje algumas famílias continuam o velho hábito de “fazer enxoval”, juntando peças de decoração e utilidade doméstica ao longo da juventude de seus filhos e netos, destinadas para “quando a mocinha casar”.

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É o caso de Kendy Gracio. Para ela, fazer enxoval é a coisa mais natural do mundo. A tradutora começou a namorar com 15 anos e já sabia que se casaria um dia. Foram 10 anos colecionando tudo o que faria parte da sua futura casa, começando com panos de prato, bordados em ponto cruz e fitas, presentes da mãe e avó. “Como esse é um costume antigo da família, minha avó materna era a mais empenhada em me ajudar com o enxoval. Ela me dava panos que ela mesma bordava e outros que ela comprava de amigas, e ainda, quando fazia limpeza nos armários e encontrava coisas bonitas que ela nunca tinha usado, vinha logo me trazer”, conta.

Kendy era tão empenhada no enxoval que ganhava mais coisas do que sua irmã, mais velha, e também solteira na época. “Acho que eu sempre fui mais romântica mesmo e tinha muito carinho por tudo que ganhava”. A vantagem de ter começado tão cedo se revelou quando veio o bebê, logo depois do casamento. Como já tinha um enxoval de casa quase completo, ela pôde se dedicar a montar o da filha. “Precisei comprar pouquíssimas coisas para começar minha vida de casada”, lembra.

Só da avó, Kendy reuniu uma vasta coleção de panos de prato, toalhas de mesa e banho, jogos americanos, aventais e até faqueiro e xícaras de café. “As peças mais especiais sem dúvida, são os panos que ela bordou, pois agora com mais de 80 anos, ela não consegue mais bordar e lamenta por isso”, conta.

Uísque também é enxoval

Enquanto muitos pais que sonham com o casamento das filhas enchem o baú com acolchoados e toalhas, o pai de Ana Cristina fez diferente. Desde a infância da filha ele guardava caixas de uísque.

Devido à sua profissão, Marcelo Pacheco, o pai de Ana, viajava constantemente e por isso a passagem pelo free shop era frequente. “Ele queria que minha festa tivesse uísque bom, por isso foi comprando a cada viagem que ele fazia à Itália”. No casamento, foram servidas 60 garrafas das melhores marcas da bebida para os mais de 300 convidados.

De peças mais tradicionais, Ana herdou da avó um jogo de café em cerâmica, folheado a ouro. “Parecem aquelas xícaras de castelo e não tem muito a ver com a minha casa, de conceito moderno. Mas eu sempre ficava namorando a coleção quando visitava minha avó”.

Com direito a baú

Só não tem como guardar lingerie. O corpo muda e a moda também

A professora Simone Ricard chegou a ter até o baú do enxoval, apesar de ter se casado há apenas quatro anos. Dentro do móvel tinha de tudo: camisolas, colchas, toalhas de mesa, de banho. “É só lingerie que não tem como guardar. A moda muda, o nosso corpo muda e acabamos não utilizando”. Simone começou a guardar tudo oito anos antes de seu casamento, sem saber se a cerimônia aconteceria um dia. Depois de dois outros noivados, aconteceu.

Para ela, foi sempre um prazer colecionar peças que um dia fariam parte de sua casa. Além dos presentes, ela pedia sempre que trouxessem lembranças de viagens. “Na época do casamento, a gente se preocupa com fogão, geladeira, o que é mais urgente”. Ela mesma se deu alguns presentes como capas de almofadas que gostou e acabou comprando. Para manter as colchas portuguesas e caminhos de mesa novinhos, ela toma cuidado com a lavagem, com a forma de guardar e os mantém até hoje.

Gaveta de enxoval

Quando pequena, pedi para minha mãe comprar uns panos de prato do Garfield. Uso até hoje

A radialista Fernanda Monteiro não tinha baú, mas a última gaveta do armário da sua mãe era reservada para o seu enxoval. “Minha mãe começou quando eu tinha sete ou oito anos”, conta. Tudo o que mãe de Fernanda ganhava e achava bonito demais para a casa dela, para o dia a dia, guardava para o futuro. Com o incentivo, Fernanda também acabou começando a guardar algumas coisas. “Certo dia, ainda pequena, eu vi uns panos de prato do Garfield e pedi para minha mãe comprar e guardar. Uso até hoje”, conta.

Mas nem tudo foi guardado. “Metade das coisas eu acabei devolvendo para a minha mãe. Tinham panos com muita renda, crochê, que não são práticos para o dia a dia”. Um bom exemplo é um jogo de lençóis que seu tio-avô trouxe da França. “Era uma peça linda, mas muito cheia de detalhes para o meu quarto, então decidi deixar com a minha mãe”.

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