Em entrevista, escritora fala sobre sua atração pelo universo das mulheres que sobem ao altar: “na minha família, a noiva sempre foi um ideal incrível de pureza, beleza e perfeição”

“Todos nós nos construímos para o olhar do outro, queremos ser legitimados pelo olhar do outro, assim como a noiva, personagem central do livro. Depois o tempo tira isso e por debaixo do vestido branco vem o que realmente somos”, explica a escritora Fernanda Young sobre seu novo romance, também classificado como livro-instalação, “A Louca Debaixo do Branco” (Ed. Rocco). Fernanda fez questão de incluir a participação do público através da exposição em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Na obra, sonhos e frustrações envolvendo a temática central, o amor, são discutidos com anônimos e famosos. Confira a entrevista exclusiva que Fernanda Young concedeu ao Delas.

iG: O que é um livro-instalação?

Fernanda Young: Como neste livro eu não uso o meu estilo literário e a estrutura do romance, que é uma narrativa linear, fica claro que estou contando uma história com imagens através da obsessão excessiva do personagem, a noiva. Comecei a desenvolver o projeto através da imagem e o texto veio nas entrevistas, poesias e crônicas sobre o amor. Esse amor é representado justamente pela noiva.

iG: Por que o universo das noivas chamou sua atenção? O que ele tem de tão especial?

Fernanda Young: Eu acho que chamou a atenção tanto pela estética quando pelo apelo que tem para as mulheres. Não só para as mulheres, porque a noiva não foge ao olhar de ninguém. Fui criada em uma família onde o mito do casamento era muito alimentado. Eu fui daminha de honra quando pequena. Tudo conduzia para que eu fosse uma noiva no futuro. Vivenciei isso fortemente. A noiva dentro da minha família sempre foi uma perspectiva incrível de pureza, beleza e perfeição, como se enfim o sonho tivesse sido realizado. Depois me distanciei disso até porque não projetei para mim uma vida de uma noiva usual, que viesse ao encontro da perspectiva da minha família. A noiva, no livro, é uma metáfora porque todos nós nos construímos para o olhar do outro, queremos ser legitimados pelo olhar do outro. Depois o tempo tira isso e por debaixo do vestido branco vem o que realmente somos. E nem sempre dá certo quando a gente se revela ou revela o outro. Nem sempre aparece a perfeição do branco.

A noiva fantasma de Fernanda Young
Henrique Gendre
A noiva fantasma de Fernanda Young

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iG: Você usou diversos vestidos para fazer as fotos da exposição. Foram feitos especialmente para o seu livro?

Fernanda Young: Em alguns modelos eu cheguei a dar minha opinião. Vários estilistas participaram do projeto e eu acabei dando referências em alguns vestidos. No livro tem muito mais fotos do que coube na exposição. Eu tive acesso a muitos vestidos, mas não consegui trabalhar com todos os estilistas de moda noiva que gostaria. Os modelos que selecionamos são belíssimos.

Triste da pessoa que exclui o ritual da sua vida. Ele pontua momentos fundamentais na nossa biografia

iG: A noiva que se casa na igreja vestindo branco é um símbolo poderoso do casamento. Em sua opinião, é careta casar de branco, na igreja?

Fernanda Young: Não, acho que é careta você não se permitir ritualizar suas intenções porque listas de “in” e “out” são feitas diariamente e tudo cai em desuso como uma brincadeira. Triste da pessoa que exclui o ritual da sua vida. Ele pontua momentos fundamentais na nossa biografia. Ritualizar é algo que acho que o ser humano não deve esquecer de fazer em vários momentos da vida. O momento do casamento é envolto em amor. Por que não festejar? Se é de branco ou não, na igreja ou não, isso cada um precisa decidir de acordo com suas crenças e intenções. O que eu acredito muito é que precisamos homenagear os momentos.

iG: Você se casou vestido de noiva?

Fernanda Young: Sim, casei de noiva em uma capela, com pouquíssimos convidados. Eu não tinha atuação virginal e nem estava fazendo aquilo para agradar ninguém. Queria apenas homenagear aquele momento. Meu vestido, inclusive, faz parte da exposição do MIS. Eu guardo o meu vestido até hoje e me orgulho muito daquele momento.

Exposição com livro-instalação de Fernanda Young fica até dia 18 de novembro no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo
Divulgação/MIS
Exposição com livro-instalação de Fernanda Young fica até dia 18 de novembro no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo

iG: Você é casada há quase vinte anos. O que mudou na relação do casal ao longo desse tempo todo?

Fernanda Young: Sempre muda muito. Acho que por isso comecei a bordar, eu tenho percebido que as mulheres bordam lá pelas tantas, sejam elas modernas ou dotadas de habilidades artesanais ou não. É um momento em que você reflete sobre tudo que foi feito. Claro que quando me casei, aos 24 anos, minhas percepções eram cabíveis. Minha juventude e a minha ilusão também. Não que eu tenha ficado desiludida, mas a verdade só o tempo traz e o tempo não brinca em serviço. O triste que eu vejo é que as pessoas não têm paciência com o tempo. Ele deve ser respeitado. O que trago comigo hoje é a plena certeza de que o amor é você não precisar se proteger do outro. Acidentes de percurso acontecem e você tem que localizar o seu sentido de prazer e estado apaixonante em coisas que vão mudando. São ciclos. Tem temporada que a paixão parece de novo tão juvenil, mas em outras as coisas ficam mais maduras e densas. Tudo isso faz parte do jogo.

Serviço:

Exposição: livro-instalação “A Louca Debaixo do Branco”
Data: até 18 de novembro - terças e quartas, das 12h às 21h; quintas e sextas, das 12h às 20h; sábados, das 11 às 20hs; domingos e feriados, das 11h às 19h
Local: Museu da Imagem e do Som (Avenida Europa, 158 – Pinheiros – São Paulo)
Valor: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia) – menores de cinco anos não pagam
Classificação: Livre

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