Renato Gonçalves,dono da primeira agência de celebrantes do país, conta sobre o dia a dia naempresa que faz cerimônias até embaixo d´água

Dono da Celebrantes, Renato Gonçalves conta com oito pastores no Rio e quatro em São Paulo
George Magaraia
Dono da Celebrantes, Renato Gonçalves conta com oito pastores no Rio e quatro em São Paulo

Deslumbrante, a noiva atravessa é recebida pelo noivo que a aguarda junto ao púlpito. Sob os olhares atentos de familiares e amigos, o casal se ajoelha e a cerimônia se inicia. Para ela, aquele momento representa um sonho alimentado durante toda uma vida. Resultado de muito esforço e anos de economia, o casamento parece perfeito.

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Quando o celebrante entoa as primeiras palavras do rito que selará a união, a noiva começa a chorar copiosamente. Mas as lágrimas não são de emoção. Inexperiente, o celebrante comete erros crassos de português, derruba as alianças no chão chegando a perdê-las por alguns minutos e, na hora da bênção matrimonial, erra os nomes dos noivos.

O que para muitos pode parecer um roteiro de comédia foi a celebração de casamento de um casal que, há dois anos, optou por economizar com a cerimônia e contratar um pastor indicado pelo fotógrafo. A escolha partiu do noivo, sobrecarregado com a conta do casamento.

“A noiva chorava de raiva. A situação foi tão terrível que eles foram para a lua de mel e ela não conseguiu curtir. Culpava o noivo pela economia que a moça alegou ter sido ridícula”, conta Renato Gonçalves, 35 anos, dono da Celebrantes, primeira agência especializada em celebrantes do Brasil.

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Economia de cinco anos para união

Seis meses depois do episódio traumático, a moça procurou por Renato relatando a experiência e pedindo que ele a casasse novamente em uma cerimônia íntima porque queria ter como recordação algo que lhe emocionou de verdade.

Jonas Rezende é o favorito entre as noivas cariocas e o pastor mais disputado da Celebrantes
George Magaraia
Jonas Rezende é o favorito entre as noivas cariocas e o pastor mais disputado da Celebrantes

“Para uma mulher o casamento não é só um acontecimento social. É um rito de passagem, talvez o principal deles. O homem precisa ter a maturidade de entender isso. Tem mulheres que economizam cinco anos para ter o casamento que sonharam”, explica Renato, que é pastor há 10 anos e decidiu criar a Celebrantes após uma viagem para realizar um casamento nos Estados Unidos.

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“Percebi que nos Estados Unidos a ideia de celebrante de casamento era uma coisa corriqueira. Você acha pessoas especializadas com formação fantástica através da internet. Aqui ainda não é seguro”, diz ele, que montou a agência há dois anos no Rio de Janeiro e abriu um escritório em São Paulo há dois meses.

A determinação da Igreja Católica que proíbe padres católicos de celebrarem casamentos fora da igreja faz com que a procura por bênçãos ou outros tipos de cerimônias alternativas esteja sempre alta. “É como se as noivas se sentissem abandonadas pela Igreja”, explica Renato.

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Atualmente a Celebrantes conta com oito profissionais no Rio de Janeiro e quatro em São Paulo. Segundo Renato, a demanda só cresce e ele busca aumentar o número de profissionais. “Às vezes as pessoas dizem: ‘Vocês só têm oito celebrantes’? Não é que tenhamos só esses, graças a Deus temos esses porque encontrar essas pessoas é muito difícil”, diz ele, se referindo ao perfil dos profissionais.

Católicos, protestantes, judeus ou budistas

A agência oferece celebrantes capacitados para todo tipo de cerimônia, tanto religiosa da tradição cristã (católicos e protestantes), quanto civil e de outras religiões (judaísmo e budismo).

Para garantir que o celebrante não cometa nenhuma gafe, Renato promove encontros onde a conduta do profissional é debatida entre os integrantes do cast de sua agência. Para evitar contratar um profissional inadequado ele checa a ficha criminal e as referências do candidato junto à sua igreja.

“O celebrante é a pessoa mais visada depois da noiva. É uma empresa, é o nosso serviço. Tem celebrante que já foi cantado descaradamente. Precisa saber se portar porque, por mais que a religião permita, as pessoas não vão entender que ele fique com uma menina na festa”, pontua o empresário, que orienta os celebrantes a permanecerem no local da celebração apenas se forem convidados.

Outra preocupação é indicar o profissional ideal para cada casal. Todo o processo é oficializado através de um contrato. Após o fechamento, o casal faz uma entrevista com um profissional da agência que indica três opções de celebrantes que se adequem ao perfil dos noivos. O casal pode marcar reuniões com cada um deles.

Cachorro na cerimônia

A produtora de moda Camila Revelles, de 25 anos, não pensou duas vezes quando questionada por Renato sobre o que gostaria que ele incluísse em sua cerimônia. “Fala do Frederico, nosso cachorro. Ele não vai ao casamento e já está deprimido por causa disso”, dispara Camila durante a entrevista acompanhada pelo iG.

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A produtora de moda conversou com o pastor ao lado do noivo, o professor de Geografia Antônio Seres, de 26 anos, com quem namora há 8. Para não esquecer nenhum detalhe, ela levou consigo um roteiro de como sonha que sua cerimônia aconteça.

Renato pergunta como deve se vestir na ocasião. “Terno e gravata ou toga?”. Antônio é taxativo: “Terno preto. Acho que marca a diferença porque os padrinhos estarão de blazer e você deve ser o segundo destaque depois da noiva”.

Durante a entrevista, os dois são perguntados sobre o que representam um para o outro. “Ela é o meu lado bom. Sou fechado, ranzinza. Depois dela as pessoas passaram a me chamar de fofo”, diz Antônio aos risos. “Ele é o meu porto seguro”, se declara Camila.

A noiva logo coloca o que não quer na cerimônia de jeito nenhum. “Não somos muito fãs de frases feitas ou letras de músicas. Também não queremos votos. Não quero falar nada porque vou ficar muito nervosa e vou chorar. Quero falar o mínimo possível”, pontua ela.

Noiva wicca e noivo católico

Os dois também não querem referências religiosas pois ela é wicca – religião neopagã que afirma a existência do poder sobrenatural como a magia – e ele, católico. “Prefiro que não tenha uma menção a Deus no começo. Só no final. O social até me interessa mais”, diz Antônio.

Renato também garante que os noivos não ficarão sem um profissional capacitado para uma cerimônia personalizada caso aconteça algum contratempo com o celebrante escolhido.

“Fazemos um contrato que respalda a nós e a noiva caso aconteça alguma urgência que impeça o celebrante de estar lá”, afirma o pastor e dono da agência. De acordo com ele, essa garantia é possível porque após a entrevista o casal define uma lista de profissionais de sua preferência e todos recebem uma cópia da gravação da entrevista feita com os dois. “Um profissional experiente não precisa de mais de uma hora para preparar uma cerimônia tendo o material adequado”, diz Renato.

Para ele, a combinação do perfil de celebrante adequado para cada casal é primordial. “Se o noivo vai casar na praia não vou indicar um celebrante velhinho. Mas nada impede que os noivos digam para a gente que ele mesmo quer escolher”, explica Renato, que também costuma receber pedidos para bodas, formaturas e bailes de debutantes.

Casamento naturista

A postura “eclética” da agência já garantiu aos celebrantes alguns episódios inusitados. Renato se recorda de quando foi convidado para realizar a cerimônia de um casal naturista. “Eles ficaram com vergonha e deixaram para, poucos minutos antes do casório, me pedirem, no local, para que eu realizasse a cerimônia nu. No começo achei que fosse brincadeira. Depois vi que estavam falando sério”, conta o pastor, que recusou o convite.

“Quando esclareci que não seria possível eles me perguntaram se então eu concordava que eles e os convidados estivessem nus. Pedi desculpas porque ficaria tão constrangido que não conseguiria me concentrar. Tive que recusar”, diz Renato. Mesmo tendo negado, ele afirma não ter se ofendido com a proposta. O casamento acabou sendo celebrado por um dos convidados da festa.

Apesar da saias justas como essa, Renato faz o possível para realizar as vontades dos casais e, inclusive, já realizou um casamento embaixo d'água em Cabo Frio, região oceânica do Rio de Janeiro.

“Fizemos a celebração até determinado ponto no barco, onde os noivos trocaram as alianças. Já estávamos com as roupas de borracha e terminamos embaixo d´água. Apontei para um e outro, uni as mãos deles, levei um cordão que pertencia à história deles e fiz a benção no sinal da cruz”, lembra Renato, que chegou a falar o tradicional “vos declaro marido e mulher”. “Ninguém ouviu, naturalmente. Ali os gestos valiam mais do que as palavras. Indiquei que podia beijar a noiva. Quando subimos ela estava chorando muito e os amigos muito emocionados. Foi realmente diferente”, recorda.

Quando questionado sobre valores em comparação com os párocos da igreja católica, o empresário é taxativo: “Depende. A agência cobra uma média de R$ 2.500 por cada celebração. Se você contratar o padre Marcelo Rossi ou o padre Jorjão o custo é muito alto. Você não os vê fazendo casamento na favela. Eles dizem que vão repassar o valor para a igreja. O que a gente solicita foi baseado numa pesquisa de mercado. Não é o mais caro e nem o mais barato”.


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