Elas conquistaram espaço, respeito e admiração. São destaques em suas áreas e revelaram para nós a doçura e a dureza de serem mulheres que ousaram seguir caminhos pouco convencionais

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Miriam Tendler, a primeira brasileira a descobrir uma vacina.

Uma rápida troca de e-mail e estou em contato com uma das grandes pesquisadoras brasileiras da área de biotecnologia. Horário combinado, entrevista marcada para 16h. Enrolada em alguns projetos, perdi a hora e me atrasei alguns minutos. Do outro lado da linha, Miriam Tendler, 59 anos, me atende prontamente. Mas ressalva que por conta do meu atraso começaremos a entrevista, mas teremos que interrompê-la. Marquei com uma outra pessoa às 16h30. Já dá para ter uma idéia do quanto a vida dessa pesquisadora é corrida. Ligo novamente às 19h, ela ainda está no laboratório, e aí o papo corre solto.

Miriam fala rápido, engata um pensamento no outro, como quem sabe que a qualquer minuto, tudo pode mudar. A ciência anda muito rápido, ela diz. Mas também tem a paciência e a determinação de quem dedicou praticamente a vida inteira a um projeto pioneiro no Brasil.

Miriam coordena a pesquisa de uma vacina contra o schistossoma mansoni, o verme causador da esquistossomose (conhecida também como barriga d´água). A doença é comum em regiões onde falta saneamento básico, tão tristemente típicas de países  como o Brasil e a África,  e é a segunda maior endemia no mundo. São 200 milhões de infectados e 600 milhões de pessoas expostas a risco. Conheça um pouco mais sobre essa mulher, pesquisadora, mãe e avó. Uma vida de descobertas, desafios e, também, de muitas concessões. 

A VACINA: trabalho de uma vida
Já imaginou dedicar 30 anos da sua vida ao estudo de um único tema? E durante todo esse tempo ter que batalhar para ver seu trabalho reconhecido e disponibilizado para os outros? Pois esse é o cotidiano nada glamuroso e feito de trabalho árduo de boa parte dos cientistas do mundo, Miriam incluída.

Logo no início da carreira, Miriam descobriu a proteína SM14, presente no verme causador da doença. Conseguiu isolá-la e, a partir daí, desenvolver uma vacina contra a esquistossomose. O país produz vacinas com tecnologia desenvolvida no exterior, o que torna essa produção mais cara. É justamente nesse ponto que a pesquisa tem um altíssimo nível de inovação. A vacina está sendo feita com tecnologia que a gente realizou, o grupo de colaboradores é brasileiro.

Ao isolar a proteína Sn14, descobriu-se também que era possível combater a fascíola, uma doença que não atinge humanos mas afeta o gado bovino, ovino, caprino. Desta forma, passamos a trabalhar numa vacina bi-valente, ou seja, para humanos (que tem uma importância social enorme) e para uso veterinário (que tem um apelo comercial muito grande).

A vacina veterinária já está em teste e negociação com empresas: queremos que a empresa seja nacional. Com relação à vacina para humanos, recebemos uma verba da FINEP e no segundo semestre desse ano devemos começar os testes em humanos aqui no Brasil e no Egito também. Se conseguirmos uma parceria industrial, acredito que em 3 ou 4 anos a vacina poderá ser utilizada.

ENTRE A MÃE E A PESQUISADORA
Para onde você vai levar as crianças nas férias? Ora, para dentro de um dos mais importantes laboratórios do país!

Conciliar a maternidade e a pesquisa não foi tarefa fácil. Eu tive 3 filhos, a Flávia e o Marcos, que são gêmeos, e o Daniel. É claro que minha mãe me ajudou, mas nessa vida de pesquisa não tem sábado, domingo, ou feriado. Várias vezes eu levei os gêmeos comigo para o laboratório. A jornada de trabalho sempre foi muito grande. Nos finais de semana eu trabalhava em casa, redigindo ou lendo coisas. Achava que assim pelo menos a minha presença física não era tão comprometida. Eu viajava com as crianças e levava os meus papéis, as pesquisas e ficava estudando na beira da piscina. Acho que essas coisas contribuíram para o fim do meu casamento. Ele não agüentava passar o final de semana em um hotel e eu levar a minha papelada. Acho que nesses casos, o lazer fica muito misturado com o trabalho. Quando você tem horário definido, as coisas não são assim, você sabe que horas sai e que horas entra. Mas quando não tem, as coisas se confundem muito.

Para conciliar tudo, eu coloquei meus filhos para estudar em horário integral. Sempre achei que eles participaram muito da minha vida, mas eles hoje reclamam um pouco. A lembrança que eu tenho é de que eu corria muito para chegar a tempo de pegá-los na escola. Pelo menos disso eu fazia questão. Mas eles queixam de serem os últimos a sair e de fecharem a escola. Não fui tão presente quanto acredito, mas acho que isso, de alguma forma, foi compensado.

SOLIDÃO, QUE NADA!
Mas a conversa gira sempre em torno do mesmo tema: ciência

Dá tempo de namorar sim, mas geralmente é dentro do meio, com pares de pesquisa. A gente convive muito com a nossa comunidade de trabalho, não existe muito uma vida separada, fica tudo muito misturado. As pessoas acham que a vida de pesquisador (a) é solitária. Mas não é. Tem muito movimento, mas é dentro do mesmo meio. É um trabalho feito em colaboração, é uma vida agitada, viagem, conferências, tem que arrumar tempo para tudo. Mas é restrita ao mesmo meio.

E AS COISAS DE MULHER?
Ou como driblar aquelas poucas 24h do dia

Acho que quando você trabalha muito, você aprende a otimizar seu tempo. Eu aprendi a valorizar cada instante, a me organizar. Eu tinha que fazer tudo em 30 minutos e nunca consegui marcar hora no salão de beleza, isso é impossível. Geralmente fazia essas coisas à noite. Muitas vezes fiz as unhas no salão do aeroporto. Hoje tenho uma manicure que me atende em casa, em horários diferentes. Eu costumo brincar: Faz três unhas e depois, se der, a gente faz as outras.

SONHO DE CONSUMO
Ana Maria Braga e Sessão da Tarde para variar

Outro dia me peguei pensando que eu sinto falta de assistir algo como Ana Maria Braga, ou um desses programas femininos. Mas só mesmo quando estou doente. Acho que meu sonho de consumo é ver Sessão da Tarde. (risos) Ou assistir a esses programas de culinária, ou ir ao cabeleireiro com tempo. Mas tem o outro lado também, que compensa.

PARA ONDE VAMOS?
As mulheres estão no começo, no meio ou no fim de um caminho de conquistas?

Acho que a mulher está chegando no meio do caminho, porque ainda não tem todo seu tempo para dedicar ao trabalho. Quando você pega um casal de pesquisadores, você percebe isso claramente. Ela cede espaço para ele, ela mesma privilegia o homem . A mulher tem essa dificuldade da maternidade. Eu não tive licença-maternidade, eu não parei. Estava grávida dos gêmeos e trabalhava mais do que podia para deixar tudo ok quando eles nascessem. Só que eles nasceram prematuros, no dia 10 de dezembro. No dia 2 de janeiro eu já estava no laboratório, trabalhando. Eu nunca parei para nada. Não dava mesmo. A mulher tem mais dificuldade porque precisa abrir mão de coisas fundamentais. Quando você decide ser pesquisadora, a dedicação não pode ser pequena. A ciência anda muito rápido e não dá para parar. Em alguns momentos a mulher fica sempre um passo atrás do homem. Não é fácil, não, tem que saber administrar.


Miriam Tendler é formada em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fez especialização pelo Instituto Pasteur, mestrado em Medicina (Doenças Infecciosas e Parasitárias) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutorado em Medicina (Doenças Infecciosas e Parasitárias) também pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutorado pela Marine Biological Laboratories. Atualmente é Pesquisadora Titular do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e Chefe do Laboratório de Esquistossomose Experimental da Fundação Oswaldo Cruz.


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