O vídeo de jovens mostrando o quanto gastam em peças de luxo viralizou nas redes sociais e gerou um debate sobre o quanto isso está ligado ao consumo

Se você é ligada no que está em alta nas redes sociais, já deve ter assistido ou pelo menos ouvido falar sobre o vídeo “  Quanto custa o Outfit  ?”. Nele, jovens brasileiros revelam o quanto gastaram com cada uma das peças de roupa que estão usando para frequentar um evento de moda urbana para revenda e troca de itens de "streetwear".

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O vídeo 'Quanto custa o outfit?' tem mais de um milhão de visualizações no Youtube e é inspirado em um quadro europeu
Reprodução/Youtube/Hyped Content Brasil
O vídeo 'Quanto custa o outfit?' tem mais de um milhão de visualizações no Youtube e é inspirado em um quadro europeu

O primeiro episódio da série produzida pelo canal Hyped Content Brasil já tem mais de 1,2 milhão de visualizações no Youtube e é uma releitura do “How much is your outfit  ", do canal britânico The Unknown Vlogs. Esse vídeo está dando o que falar na internet por causa do preço dos looks, já que muita gente ficou chocada ao descobrir que uma bolsa pode realmente chegar a custar R$12 mil ou que é possível comprar um tênis por quase R$7 mil.

Para aqueles que estão mais familiarizados com o assunto, é fácil explicar que existem, sim, peças caríssimas de algumas marcas famosas de "sportswear", que chegam até mesmo a ser difíceis de encontrar pela "legião de fãs", que acreditam que essas peças realmente valem o preço que estão pagando — como os próprios jovens no vídeo, por exemplo. 

Entretanto, ver pessoas declarando orgulhosamente ter gasto tanto dinheiro em peças urbanas, como tênis, camisetas e moletons, é, no mínimo, curioso. Esse tipo de "ostentação" passa longe da alta-costura e dos sapatos de couro italianos que um dia já deram "status" à moda de luxo. Mas apesar de, no início, parecer sem fundamento, essa cultura faz parte de um movimento chamado "hype". 

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Movimento "hype" e o alto custo da moda

O movimento  'hype' é o culto ao 'streetwear' de luxo, muitas vezes relacionado às grandes marcas e coleções exclusivas
Reprodução/Youtube/Hyped Content Brasil
O movimento 'hype' é o culto ao 'streetwear' de luxo, muitas vezes relacionado às grandes marcas e coleções exclusivas

Segundo a consultora de imagem e estilo Rita Heroína, o " hype " é exatamente esse culto ao "streetwear" de luxo, muitas vezes relacionado às marcas esportivas. "É a estética da rua adentrando no universo do luxo tradicional". Entre as marcas cultuadas estão, por exemplo, a Supreme e Balenciaga, além de linhas exclusivas como a dos tênis Yeezy, parceria do rapper americano Kanye West com a Adidas. 

Mas o que torna o "outfit" tão caro? A profissional explica que a lógica é do luxo pela escassez. Os designers e as grandes marcas produzem um número reduzido de peças que são focadas em um tipo de público. "Essa marcas normalmente não fazem evento de lançamento nas lojas, mas um marketing focado na exclusividade. Normalmente, essas peças são assinadas por designers famosos de grandes marcas para tribos específicas, como no caso da Supreme, que é ligada ao universo dos skatistas."

Para essas pessoas, o fato de pagar o preço, entretanto, vai muito além de ostentar. "Algumas pessoas pagam esse valor porque se identificam com a marca e com a tribo que tem o estilo dessa marca. Se sentem representados, como se o estilo de vida da pessoa estivesse representado no look", afirma Rita.

Ju Sayum, consultora de imagem e estilo, concorda sobre o "hype" ser classificado como um estilo de vida. "As pessoas não compram um produto, mas uma experiência, um 'lifestyle'. Sempre existirá públicos específicos para produtos específicos, e esse quer exclusividade. Tem a ver com aspiração, 'status' e senso de pertencimento." 

Ela explica que as marcas precisam captar o que ninguém trouxe ao mercado da moda, um conceito inovador.  "Forte exemplo disto foi quando Coco Chanel inaugurou sua primeira loja em 1913 e vendeu todo estoque. As razões foram porque as mulheres da época viram que suas roupas traziam conforto e tinham conceito esportivo e libertador. Não ia de encontro às modelagens de roupas que todas mulheres da época usavam."

Além disso, o movimento também envolve o fator de ser diretamente ligada às macro-tendências de mercado, não apenas ao preço. "Não necessariamente o que se é 'hype' é caro e também de marca. As peças mais baratas também acabam seguindo muito desta influência", complementa a especialista. 

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O que isso tem a ver com consumismo? 

Essa busca pela exclusividade e ostentação do movimento
Reprodução/Youtube/Hyped Content Brasil
Essa busca pela exclusividade e ostentação do movimento "hype" é o que o liga diretamente ao consumismo na moda

Por outro lado, "Quando custa o outfit?" tem tudo a ver com consumismo . "Os preços altíssimos não impedem que os colecionadores e fãs façam filas enormes para comprar o calçado, porque se sentem materializados nas peças", diz Rita Heroína. Essa cultura de gastar muito com moda, porém, é algo que sempre existiu, o que muda atualmente é como essa a ostentação está sendo exposta e até mesmo adquirida pelos consumidores.

Apesar de existir o movimento "hype", que segue o ideal de pagar caro por um estilo de vida, também existem aquelas pessoas que não entendem o contexto por trás disso. "Algumas pessoas pagam para ostentar, pra dizer que pode pagar aquela peça, muitas vezes sem entender o que representam, nem que história está sendo contada ali. Moda não é ostentação, não se deve pagar caro se não entende o que está representado culturalmente nas roupas nem o público pra quem a marca está falando." 

Carolina Bolla é advogada do movimento "Fashion Revolution", que tem o objetivo de aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seu impacto, e explica que essa "cultura do consumismo" surgiu no século 19, com a revolução industrial e a modernização da produção.

"Os trabalhadores passaram a acumular renda, e com isso se deu o avanço das vendas em massa. Diante dessa nova realidade, os consumidores passaram a desconhecer o real valor de cada bem e deixaram de pensar no consumo apenas como necessidade ou sobrevivência, passando a se destacar como modo de inserção social, fruto de uma sociedade capitalista, a denominada 'sociedade de consumo'."

Por causa disso, as pessoas deixaram de adquirir coisas pela necessidade e passaram a comprar simplesmente porque querem ter. "O consumidor é movido essencialmente pelo apelo da mídia, exclusividade, pertencimento e disturbios emocionais. A felicidade passa a se caracterizar pela quantidade e qualidade dos produtos adquiridos, e o consumidor passa a comprar produtos superfluos em um círculo vicioso", explica.

"No mercado da moda, por exemplo, a tendência da moda rápida, conhecida como 'fast fashion', vem atraindo os consumidores pela rapidez com que novos designs são colocados no mercado e o baixo preço." Nesse caso, os consumidores têm acesso a produtos novos quase todos os meses, e essa produção induz o consumidor ao consumo excessivo.

Porém, quando o assunto é o "hype", essa busca pela exclusividade e ostentação é o que liga o movimento ao consumismo. Assim, como um novo produto é lançado praticamente toda semana, os jovens pertencentes ao movimento "hype" compram freneticamente. "O ter passa a ser mais importante que o ser e por isso passam horas em filas para aquisição de produtos", afirma. 

De acordo com Carolina, o destaque dsse movimento atualmente está fazendo com que o luxo seja repensado e fuja da alta costura, dos tecidos nobres e das roupas sob medida, mas não é a única iniciativa que segue esse caminho. "O movimento 'hype' vem realizando uma transformação na moda e tudo por conta do modelo de negócio, já que caracteriza pessoas que cultuam o design de moda, a exclusividade das peças e que amam o 'streetwear'."

Com isso, esse modelo de negócio, que até então era pensado apenas nas marcas de alta costura, muda o foco e traz o "simples, desarrumado e despojado" para dar valor às peças produzidas, tudo de forma a garantir exclusividade e pertencimento.

"Em um mundo capitalista, no qual as pessoas acabam se acostumando ao materialismo, é natural que a cultura do 'ter' e 'pertencer' ainda seja forte. No entanto, a responsabilidade social e ambiental é de todos. Há uma necessidade emergencial de se reavaliar o consumo, principalmente seus excessos." 

Para tal, é preciso ir na contra-mão desse tipo de cultura e repensar a forma de comprar. "É importante rever os conceitos de exclusividade e de inclusão social. Para fazer parte de um grupo você não necessariamente precisa consumir em maior quantidade. É importante que o consumidor tenha plena consciência de que seus hábitos de consumo trazem consequências a toda a coletividade e ao meio ambiente no qual vive."

A advogada também afirma que as grandes marcas de "streetwear" também possuem responsabilidade quando o assunto é o consumismo. "Os fornecedores devem repensar a criação das peças de forma a facilitar a reciclagem, pensando na durabilidade  e até mesmo educando o consumidor para a manutenção, o que também auxilia no prolongamento da vida útil do produto e evita o consumo excessivo." 

Um meio adotado por participantes do "hype", por exemplo, é o "resell", ou seja, a revenda e troca de produtos, o que já representa uma melhora na situação. E, no fim das contas, talvez o vídeo "Quando custa o outfit ?" também tenha coisas para ensinar além de valor monetário.

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